Soube pelo Biajoni que o amiguinho Brigatti escreveu há tempos um tratado sobre a reprodução e o acasalamento dos Baixistas, essa espécie desconhecida e que, por motivos óbvios, encontra-se a caminho da extinção.

Quase tão bons quanto o texto são os comentários dos Defensores de Alguma Coisa (*), animais que hoje, graças à Internet, proliferam-se como ratos e tem por principal característica a incapacidade de identificar uma piada. Não seria preciso que a entendessem; bastaria que pudessem identificá-la. Mas isso, como se sabe, é algo que só acontece na estratosfera do pensamento humano, isto é, em altitudes superiores a QI 30.

(*) Neste caso, a subespécie dos Defensores dos Contrabaixistas.

Ando estudando. Fiando-me nos mestres. O Tube taí pra isso. Com vocês, Jaco Pastorius tocando Birdland com o Weather Report. Um dia eu chego lá. Mas com uns quilos a mais. E sem a faixa no cabelo. Por falta de cabelo, é claro.

Pra quem não conhece, este é John Francis Anthony Pastorius III, ou apenas Jaco Pastorius (01-12-1951 / 21-09-1987). Nasceu baterista, quebrou o pulso jogando bola, teve que virar baixista. Arrepiou de ponta a ponta, e morreu com um murro bem dado pelo gerente de uma casa noturna que não gostou de suas palhaçadas. Ninguém conta a história daí pra frente, mas eu sei que o tal gerente também quebrou o pulso quando lhe deu o murro, teve que mudar de profissão, e hoje ganha a vida testando termômetros retais veterinários, o filho da puta.

Chamava-se Ceci. Era linda, delicada, tinha longos cabelos lisos, olhos verdes e um rosto muito branco. Eu a via andar pela casa como se a casa lá não estivesse, e penso hoje que não estranharia se, um dia e sem aviso, ela atravessasse uma parede ou brotasse de uma porta fechada. Era como um fantasma, a imagem mais próxima que consigo fazer de um anjo da guarda. Ceci não ria e nunca estava séria: sorria. Nunca a vi em hora que não estivesse sorrindo. Sorria o sorriso dos que entendem. Sentava ao nosso lado e nos assistia como se fôssemos um filme. Não falava conosco, mas seu silêncio não dizia que não merecíamos suas palavras. Ela apenas nos assistia, nós éramos um filme, e era como se nós também não estivéssemos ali.

Quando alguém queria tratá-la com respeito, lograva dispensar o apelido e a chamava de Cecília. Ela não se importava com isso. Sequer tomava conhecimento: era completamente surda.

Ser fumante, hoje, é mais ou menos como ser preto. A diferença é que você pode deixar de ser.

Atualização: A Cynthia falou um pouco mais sobre o assunto. Agora que está escrito, é fácil falar: era exatamente isso que eu queria dizer!

Veja bem. Eu adoro quando alguém começa uma conversa dizendo veja bem. É límpido, claro como água: vai vir enrolação. Conversa de vendedor de carro velho, imóvel à beira da desapropriação: – Veja bem… Mas não vou enrolar você. Vou explicar. Ser claro. Note que o veja bem que enrola tem reticências. O meu não tem. Você merece o cuidado. Mas sabe o que é? Já disse isso, não disse? Pois é, disse no título. Veja bem. Ah, de novo? Não, não de novo. Tá bom, é o seguinte.

Quase cinquenta anos juntando coisas. Pior, quase cinquenta anos juntando coisas com muito afinco. Muito afinco. Outro dia, olhei em volta e vi: um apartamento de quase cem metros quadrados (dois para cada ano, é verdade, mas isso não faz nenhuma diferença, não é disso que vou falar)… me perdi. Onde eu estava? Ah: quase cinquenta anos juntando coisas, e comecei a achar que as coisas estavam tendo mais importância que eu. Sim, porque se a coisa ocupa um espaço que eu queria livre, me diga, sim, você: me diga quem manda? A coisa ou o dono da coisa? Pois então, comecei a jogar tudo fora. Quem manda sou eu. Comecei a jogar tudo fora, não como as pessoas normais fariam (pela janela, aos berros), mas como homem cordato e levemente maluco que sou. Pois então, fui jogando tudo fora. Aos poucos. Livros inúteis. Caixas inúteis. Roupas inúteis. Tralha inútil. Percebeu que eu fiz uma lista e não disse enfim? Eu odeio quando vejo um enfim no fim de uma lista. Coisa irritante. Enfim é o caralho. Mas voltemos ao assunto. Joguei fora também uma mapoteca. Sabe o que é uma mapoteca? É grande. Procure no google. Achou? A minha era maior. Pois então. Rua. Discos também. Tudo pro sebo. Um real cada um. Mais de trezentos. Haja disco. Haja saco pra tanto disco. Mais de trezentos. Ainda tem mais de cem aqui, esperando as costas pararem de doer pra eu levar mais uma remessa pro sebo. Sim, são LPs. Pesam. Muito. Ficaram alguns. Fui separando os que não quis passar pra frente por algum motivo. Sobraram uns Beatles, uns Jethro Tull, uns Pink Floyd, uns Led Zeppelin, uns Queen, um Deep Purple. Só um. Fiz mais uma lista sem enfim. Reparou? Quanto aos discos que ficaram, só percebi depois, todos ingleses. Sei não, mas tudo indica que prefiro rock inglês. Foi-se a tralha velha, começou a sobrar espaço pras coisas novas: comecei a estudar música. Na verdade, recomecei, se considerarmos que eu tinha parado há 25 anos. Teoria e instrumento. Teoria é chata mas faz bem. A vida está cheia de coisas assim. Teoria, passo horas cantarolando tá-tá-tá batendo a mão na coxa. Deprimente. Depois, digitação. Mas não é uma flauta doce. É um contrabaixo. Digitar um contrabaixo elétrico dói. Doem os dedos, cotovelos e um ombro. Não me lembro qual. Mas dói. Estranhamente, é bom. Além disso, resolvi fazer um regime. Cem quilos é foda. Já pesei 113 mas, hoje, cem é muito. Rumo aos noventa. Dia desses, ainda paro de fumar. Fazer ginástica? Veja bem… Além disso tudo, ainda ando assistindo a um filme por dia. Torrent, sabe? Pois então. E ainda tenho uns quarenta pra assistir, já baixados.

Então, viu só? Arrumando a casa, me livrando do lixo, estudando música, assistindo filmes. Escrever? Pois é, faz falta. O blog? Não, o blog não faz. Mas eu estou aqui. Bem. Apesar da dor nas costas. E não reclame. Escrevi alguma coisa, não escrevi?

— Opa!
— E aí?

(…)

— Tudo bem?
— Tudo.

(…)

— Chove hoje?
— Ô!

(…)

— Cê tem um blog, não tem?
— É…

(…)

— Faz tempo que você não escr…
— Meu ônibus chegou, vou nessa.

(…)

Foi bater às portas da morte, para descobrir depois que vinha com o endereço errado.

Numa das primeiras aulas de Marketing que tive (não é preciso me xingar por isso, eu mesmo o faço todos os dias, obrigado), a professora trouxe um causo para ilustrar a aula que, seja ficção ou realidade, foi bem contado e aprendido (tanto, que o estou repartindo agora, vinte e tantos anos depois). Disse ela que, certa vez, uma fábrica de chinelos de borracha resolveu descobrir porque não vendia nada que prestasse na Bahia. Uma pesquisa elucidou tudo: em terras baianas, quem usava o tal chinelo era mulher ou viado. Não se sabe por que, homem que usasse aquilo ficava por lá, para todo o sempre, com a pecha de boiola.

Tentando então aumentar as vendas na região mudando a imagem do produto, a agência se resolveu a um expediente que havia de se mostrar eficaz: contratou um lutador de boxe local, conhecido por seu caráter macho e atitudes violentas, e pôs no ar um comercial em que o tal sujeito aparecia usando os tais chinelos. Com efeito, a imagem foi mudada, porque daí em diante todo mundo começou a achar que o tal boxeador era viado.

Mas o assunto é outro. O Seu Obama chegou animado, foi não? Tão animado que, a cada nova notícia, aumenta meu temor por sua vida. Mataram o Kennedy por muito menos, e olha que o Kennedy era branco. Contrariando o ditado racista, a coisa que o homem mais faz é limpar a merda que o jumento anterior deixou espalhada pelo mundo. Agora, uma semana depois de empossado, o cabra passa a mão no telefone e, já que se anda falando tanto de combustíveis menos poluentes, liga pra Mr. Lula, presidente do país que usa álcool como combustível há pelo menos 34 anos. Esperto, o moço percebeu que não se joga fora 34 anos de tecnologia. Mesmo que seja tecnologia brasileira. O que vai sair disso, não sei. Mas que o homem tá fazendo diretinho, ah, isso está.

Pois então, hoje de manhã, os sites d’O Globo, d’O Estado e do Terra davam, em letras tão garrafais quanto a Internet permite, a notícia do telefonema. O site da Folha, bem… a notícia estava bem lá em baixo, em letrinhas de bula, sabe como é, papai não deixa encher a bola dos oponentes. Capaz que a Veja desta semana imprima a notícia numa folha à parte e se esqueça de encartar na edição.

Agora é questão de tempo para que Obama fique — ao menos para os paulistas — com fama de cachaceiro, corrupto e analfabeto.

Acaba o filme. Como é costume, minha mulher faz sua análise concisa:

— Que bosta…
— Ah, nem tanto. — discordo — O cara fez roteiro, produção, fotografia e direção. Isso tem algum valor.
— Tem. Dava pra matar todos os culpados com um tiro só.

Kogai por nus?? Ou pornôs?
(Samuér no estado Rio de Janeiro)


Currículo.
(Eunápolis-BA)


O que dizer disso?
(Ilhéus-BA)


Fineza não limpar o pé no cachorro.
(Itapuã, Salvador-BA)


O gargarejo profilático de Seu Françuel. Com cachaça, claro.
(Nordeste de Itaigara, Salvador-BA)
(O nome do bairro foi alterado, por motivos de segurança, a pedido do retratado. Mas a camiseta do Flamengo permanece. Como diria Dickens, “Go figure”.)

Temos feito viagens à Bahia regularmente, sempre na mesma época, desde o raiar do corrente século. Da primeira vez, o trajeto foi apenas de volta, porque nosso carro havia sido comprado em Salvador, e o viemos estreando na estrada. Depois disso, temos ido e voltado praticamente em todos os anos, sempre na mesma época, cruzando os mesmos estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia na ida, o contrário na volta).

Nessas viagens, a parte mais interessante tem sido poder estudar ao vivo todas as Geografias — Política, Física, Social, Cultural —, os planaltos que vão virando serras, os sotaques se transformando, a variação da temperatura e da umidade, os pastos e plantações, o mangue, o semi-árido, a Mata Atlântica que ainda resiste aqui e ali, a importância econômica de cada região, a arquitetura, as raças, a culinária, e mesmo a involução do pãozinho francês, cuja qualidade vai diminuindo a cada quilômetro rodado, até descambar, em Salvador, num troço tão comestível quanto uma sandália havaiana que, pra piorar, ainda se chama ‘cacete’ ou ‘vara’ (e os soteropolitanos que não me venham falar da Perini, porque um carcará só não faz verão). Tudo muda muito, e não é de estranhar que isso aconteça, porque essa distância, se percorrida na Europa, faria o viajante cruzar até seis países de línguas e culturas totalmente diferentes. Aqui, ao menos a língua é (quase) a mesma.

Mas há uma coisa que une todos os povos deste país: a mandioca. Por onde se passe — e não apenas neste trajeto, mas do Oiapoque ao Chuí, via Lapa ou pelo Acre —, sob qualquer clima, topografia, sotaque ou poder aquisitivo, a mandioca está lá, na beira da estrada. Sua presença é tão marcante, sua importância na culinária é tão significativa, que cheguei a criar esta nova bandeira para o Brasil, muito mais representativa de nossa terra do que a toalha de mesa que se usa atualmente. E se alguém achar que a folha de mandioca se parece com a da maconha, bem, a bandeira atual exibe um insólito “Ordem e progresso”, e ninguém diz nada.

Numa viagem desse tamanho, é natural que aconteçam pequenos incidentes, e eles sempre têm provocado interessantes alterações no trajeto. No ano retrasado, por exemplo, o rio Paraíba, cheio como nunca por causa das chuvas, destrambelhou a então única ponte disponível em Campos de Goitacazes – RJ. No desvio que fomos obrigados a fazer para subir 200 quilômetros de rio até a ponte seguinte, conhecemos um ótimo hotel-fazenda e uma excelente estrada que, para melhorar ainda mais, encurtava o trajeto em quase 100 quilômetros, além de nos permitir evitar uma das mais detestáveis cidades em que já tivemos o prazer de escarrar.

Já neste ano, o incidente foi o tal hotel-fazenda estar lotado. Por não conhecermos nenhuma opção decente num raio de 150 quilômetros, optamos por um pernoite em Cachoeiro do Itapemirim, terra de Rubem Braga e de Roberto Carlos, também um Braga, assim como qualquer sapataria, açougue, boteco, ponte, teatro ou puteiro da região. Família grande…

Nesse amálgama de povos e culturas tão distintas que vamos percorrendo, temos percebido que o estado do Espírito Santo não foi muito bem servido de características exclusivas: o sotaque é mezzo-mineiro mezzo-carioca, o prato típico é moqueca (que é tipicamente Nordestina, mas feita sem dendê no ES, o que não chega a ser uma característica), a cachaça boa é a mineira, e agora começamos a notar que até os nomes de alguns bairros da capital Vitória (linda, diga-se de passagem) são “importados”, como Itapuã e Itaparica (bairro e ilha em frente a Salvador), Garanhuns (Pernambuco), Muribeca (Sergipe), e por aí vai.

Mas Cachoeiro do Itapemirim me surpreendeu. Logo que cheguei à cidade, fui descendo para o centro, a fim de encontrar o hotel em que tinha feito reserva. No zunzum característico do fim de tarde no centro de qualquer cidade, procurando placas de rua (não vi uma sequer, puta merda!), fui ultrapassado por uma moto que, estranhamente, parou logo em seguida no meio da rua. Não custei a entender o motivo de semelhante manobra:  o cabra tinha parado para que uma pessoa atravessasse a rua pela faixa de pedestres. No entanto, o sinal não estava fechado (sequer havia sinal), não havia um guarda que o mandasse parar, nem qualquer outro motivo além da prosaica presença do indefeso pedestre em frente à faixa. Pasmei, duvidei que fosse verdade porque só tinha visto isso em filme.

No entanto, uma hora depois, já instalado no hotel, desci para ir à padaria. Vi-me na calçada de uma rua em curva, sem visão do tráfego ao longe e, para piorar, num ponto da rua em que os carros passavam voando. Mas havia uma faixa de pedestres bem em frente ao hotel.

Lembrei-me então do acontecido e, assim como quem não quer nada (até para não passar vergonha se o expediente não funcionasse), pus-me em posição de travessia, primeiro timidamente (os carros continuavam a passar rápido, como se eu não estivesse ali), depois com mais atitude (não me pergunte o que fiz, mas passei a me sentir assim, com mais atitude), e a coisa começou a funcionar: um carro diminuiu a velocidade, parou antes da faixa, e depois outro, e mais outro, e eu, Moisés no Mar Vermelho, fui atravessando a rua sem cajado mas de boca tão aberta quanto a dele, e os carros foram parando, e eu atravessando a rua, cheguei ao outro lado e, assim como ele deve ter feito depois da façanha, virei-me para trás, olhei o rio de carros que voltara a correr e exclamei “Puta merda, não é que porra deu certo?”.

Na volta, repeti a façanha (Moisés, que eu saiba, só fez viagem de ida) e retornei à calçada de origem, onde tinha deixado minha trêmula mulher a balbuciar sua versão da Ave Maria, ignorante de orações que é.

Então eu, que costumo dizer que o Espírito Santo não tem nenhuma característica exclusivamente sua, digo agora, com conhecimento de causa, que ao menos Cachoeiro do Itapemirim tem uma, e das mais impressionantes para um paulistano: os motoristas param para que os pedestres atravessem a rua sem que ninguém os obrigue a isso! Essa sim, é uma característica que eu gostaria que constasse da bandeira nacional.

O corpo negro e grande de um velho rei d’Angola, os braços pálidos de um senhor de engenho: vitiligo.

Depois de 4370 quilômetros e 800 metros percorridos no trajeto que liga São Paulo a São Paulo (via Salvador), cheguei a algumas importantes conclusões:

• Branco Leone é um sujeito totalmente desconhecido no eixo Iconha-Uruçuca;

Franciel Cruz é um grande cara, mas tem um defeito;

• A geladeira de isopor é o artefato que permitirá a conquista do Nordeste pelos paulistas;

• O ar-condicionado também;

• O Peugeot 206/1.6 deveria ter seis marchas para a frente;

• A temperatura de trabalho do meu cérebro é menor que a da minha máquina fotográfica;

• Itabuna é uma das cidades mais importantes da Grande Buerarema;

• Perdemos o estado do Rio de Janeiro para a Universal;

• O Espírito Santo ainda não, mas vai a caminho;

• A Bahia estará salva enquanto houver o Candomblé.

Então. Nada especial, só o de sempre: Bahia, acarajé, brisa na varanda, sarapatel, sombra, abará em casa de Auta Rosa, uisquinho, mais brisa (que ninguém é de ferro e, portanto, derrete), velsar e revelsar na varanda de Maria Sampaio, coçando o papo de Brigitte. No dia seguinte, tudo de novo, mas tudo diferente: acarajé vira rabada, abará vira moqueca, uisquinho vira cachaça. Mas a brisa é a mesma.

Três ‘plus a mais’: Sr. Franciel Cruz Credo, Alan Miranda e Paloma & seu Pedro José, que é argentino, mas tem a alma branca. Alguém mais? Estudo convites. Só não me venham com praia e axé, que eu já vou logo mandando. Cartas para a redação.

Tinha medo do escuro. Um dia, ficou cego. Passou.

Raramente eu compro música. Eu baixo. Esse meu disco novo, meus quatro outros, e os dois do Mulheres [Negras], quando eu tô com meu computador ligado, eles estão disponíveis no eMule.”

Agora é esperar alguém chamar o Maurício Pereira de “Zé das couves”.

Dias atrás, li este post do Marco ao Léu e, mais uma vez, discordei. Digo ‘discordei’, mas o fiz em silêncio, e observo que foi ‘mais uma vez’ porque ele toca no assunto a toda hora e eu sempre discordo. Daí, me resolvi a escrever este post, mas só agora tive paciência de ir procurar as informações que sabia ter mas não imaginava em que pasta estavam. Achei. E conto a história.

Galopava o ano de 2001. Eu fazia parte de uma ‘e-oficina’ de criação literária sob a coordenação de João Silvério Trevisan, patrocinada pelo SESC-SP. A coisa funcionava mais ou menos assim: dez sujeitos numa sala de chat, sob olhar e ordens de Trevisan; três meses corridos com três encontros semanais com duração de duas horas cada; apresentavam-se alguns dos textos, escritos pelos participantes, segundo um tema apresentado anteriormente; todos criticavam todos os textos, incluindo o coordenador; conforme as opiniões, o circo pegava fogo. Era cansativo e enervante (quem me visse voltar pra cama depois das reuniões pensaria que eu tivesse chegado de uma briga num bar, não de uma sala de chat), mas foi a única experiência realmente proveitosa que fiz no assunto: se aprendi muito sobre escrever, aprendi mais ainda sobre os motivos de escrever, coisa mais séria.

Numa das noites em que nos reunimos, o texto a criticar era um diálogo muito bem construído por um escritor de Teresina em que, numa das falas, uma personagem dizia algo como ‘barriga lisinha é coisa de veado‘. Eu (e minha boca grande), na hora de colar no chat a crítica que havia escrito anteriormente, nem percebi que a coisa ia desandar ali, depois da minha frase final: ‘O diálogo é ótimo. O [autor] segurou a veracidade de ponta a ponta. Gostei muito. Pra ser perfeito, eu escreveria ‘viado’ ao invés de ‘veado’.

O barraco ardeu. E bastou um outro oficineiro concordar comigo para a horda se dividir em duas, os Pró-Viados e os Veados Até Morrer. Ao final desse mesmo encontro, o segundo grupo (o dos Veados) desistiu da oficina para nunca mais voltar, e os trabalhos tiveram que seguir manquitolando até o final do trimestre.

Pouco importa o que se falou em defesa ou no ataque das duas versões da palavra. É claro que se trouxe à mesa todo tipo de alfarrábio (Aurélios, Houaisses e mesmo os anglicistas infiltrados Webster e Michaelis), é claro que se expuseram argumentos regionalistas (’no Nordeste se fala assim’, ‘em São Paulo se fala assado’), muitos foram chamados de ignorante (eu, inclusive, fui chamado de ‘ingnorante’ por um oponente), é claro que — mais uma vez — puseram a malemolente Lingüística pra brigar com a engessada Gramática (é impressionante o que essas duas gostam de brigar!). E, é claro, nada disso deu em nada, e todos saíram com seus narizes e opiniões intactos.

No entanto, porradas dadas e levadas, o mais importante foi perceber que a discussão ultrapassava os ambientes regionalistas, gramaticais e lingüísticos. O buraco era, como se viu depois, mais em baixo (ou mais atrás, se você gostar de uma piada besta). Copio aqui uma das ‘falas’ de Trevisan, quando começava a expor sua opinião pró-viado: ‘(…) Além do mais, [escrever 'viado'] é uma reivindicação de certa parcela da comunidade homossexual. Se a palavra é usada como ‘viado’ [é porque] pede-se visibilidade ao termo. Que os brasileiros assumam a diferença linguística que eles, inadvertidamente criaram. E que se tornou uma marca identitária, pelo menos no caso’.

Trevisan — escritor, jornalista, dramaturgo, tradutor, cineasta e ativista GLBT, além de meu velho amigo — expõe o argumento que os dicionários não têm autoridade para discutir: usar a palavra ‘viado’ para se referir ao homossexual do sexo masculino é reivindicação de parte da comunidade homossexual. Sendo assim, pau no cu do Houaiss (maneira de dizer…), porque, para tratar deste assunto, o dicionário é este.

Roda de homens e mulheres, cabeças baixas, olhos encovados, um misto de cansaço e sucesso na expressão dos rostos ressecados, repletos de aliterações. A sala penumbrosa, cadeiras diferentes umas das outras fazem roda, um quadro enorme de moldura que já teve mais dourado em suas retortas pende de uma das paredes e exibe um Hades gordo e ao mesmo tempo musculoso raptando Perséfone para levá-la àquilo que chamávamos Inferno, mas que, sabemos hoje, não passa de um prosaico subterrâneo. A roda olha o tapete ensebado como se Hades em pessoa gorda e musculosa fosse surgir dali do meio, mesmo na roda não havendo Perséfone que preste para chutar, que dirá para raptar.
Alguém deve tomar a vez, e levanto-me:
— Boa noite. Meu nome é Branco, e eu sou escritor.
— Boa noite, Branco — novenam os outros.
Eu continuo. É preciso dizer o que vim dizer:
— Há um ano que não escrevo um conto — digo.
Os outros aplaudem. Sem animação, mas, ainda assim, é um aplauso.
— Estou limpo — digo, e curvo-me num esboço de sentar.
— Nem um poema? — interrompe-me um vozeirão afetado, viado velho que não publiquei por ser ruim, não por ser viado ou velho, coisa de que me acusou depois da recusa.
— Nem um hai-kai sequer — cuspo-lhe na cara, satisfeito e vingado.
Sigo no sentar, mas sou interrompido mais uma vez:
— E e-mails? Você não tem respondido nem um e-mail? — chia fina e rouca de cigarro uma voz. Eu olho para o escuro de onde veio o grasnido, e entendo: uma senhora velha conhecida, escritora inveterada que, hoje, afastada dos romances e outras prosas por recomendação médica e desespero familiar, insiste em me provocar com powerpoints diários, cheios de flores e outras ofensas, e sei que o faz para tripudiar de mim quando lhe respondesse — por escrito — com os palavrões que merece.
— Nem e-mails — digo à bruxa ressequida enquanto a encaro. Triunfante, continuo:
— E você sabe disso muito bem, moira.
Todos se olham percebendo ali alguma coisa, um revide?, alguma possibilidade de assunto, futuros escárnios. E sigo no sentar, que é incômodo permanecer tanto tempo na posição de quem vai levar um chute, sem levá-lo.
— E posts? Que me diz dos blogs? Nenhum post?
Sinto o sangue esfriar. Reconheço o sotaque de Pernambuco, e sei que agora não é um débil oponente que se acoberta no escuro. Proxeneta das palavras afastado da caneta, o canalha cangaceiro ganha a vida agora a revisar o alheio, a encontrar defeitos nos defeitos dos outros, a encher papéis de bolas e riscos a caneta vermelha. Sei bem o que o faz fazer isso, ele é como o ex-alcoólatra que conserva em casa o armário das bebidas, apenas para limpar diariamente as garrafas a flanela, sentir seu poder engarrafado, transmutado em álcoois coloridos e, no caso dele, cheios de bolas e riscos vermelhos. Mas o filho da puta não ia me derrubar com um risco só.
— Nem um sequer. Pode ir lá ver. Os blogs estão no ar.
— E este post? Que me diz deste post?
— Que post? — balbucio, antevendo o desastre.
— Este, homem! Este post! — grita.
Veio o chute, afinal. É verdade. Sou um fraco. Dia desses acabo escrevendo um romance. E, pior: sem querer. Nunca estarei limpo.

Quem estiver interessado em acompanhar a polêmica que surgiu aqui sobre Direitos Autorais pode dar uma espiada no post em que tratei do assunto. O amigo Daniel Brazil e o leitor Marcelo discutem seus pontos de vista — obviamente contrários, pois, se assim não fosse, não haveria discussão.

Prefiro quebrar um pé a me meter em polêmicas. Mas não posso deixar de dizer que, sobre o tema (aliás, sobre qualquer tema relacionado a evolução de mercado e suas políticas), pouco importa a opinião deste ou daquele, pouco importa o que é “certo”. A fila anda, e o “certo” será sempre a atribuição de quem manda. O poder agora está descentralizado, por causa da Internet. Quem quiser matar os carrapatos, vai ter que acabar com a vaca. Ou o “poder” (faz-me rir) junta-se aos carrapatos, ou morre. E morrerá, porque não se curvará jamais. Os teimosos são assim. Não há novidades em História, apenas a mesma coisa contada de outro jeito, com outros personagens, em outros ambientes.

Confesso que não sei o que é melhor — note-se que eu não disse “certo” ou “errado”. Mas vou fazer aqui um exercício. Quem quiser adaptar as variáveis para outros assuntos, que fique à vontade.

Constatamos hoje que uma das faces ditas brutais da Internet tem sido a dificuldade em se conter a disseminação de pornografia infantil pelos tais pedófilos. Uma mazela, uma tragédia, e duvido que alguém discorde (incluindo eu mesmo). Pois então, um fato: a bisavó de minha mulher, filha de “gente bem”, família tradicional e estabelecida, não foi autorizada pelo pai a se casar com um pretendente que lhe apareceu por um simples motivo: ainda não tinha menstruado. Diz a história familiar que, depois que seu corpo resolveu-se a tal, casou-se imediatamente. E levou sua boneca preferida para a lua-de-mel. Alguém foi preso, difamado, perseguido? Ninguém, é claro. Isso era prática corrente.

Conheço o caso e o entendo, mas nem por isso deixaria de correr a bala com o engraçadinho que aparecesse aqui com semelhante proposta para minha filha de 14 anos (que já menstrua há tempos). Mas é preciso perceber que, numa época em que se morria feito mosca, se não se começasse cedo a jubilosa tarefa da reprodução, as famílias corriam o risco de sumir — com todas as conseqüências emocionais, sociais e financeiras disso.

Se é que alguém ainda não entendeu, o que quero dizer é tão óbvio que até sinto vergonha de expressar: Lei não é; Lei depende. Se assim não fosse, eu poderia apedrejar até à morte meu vizinho porque sei que ele trabalha aos sábados. Está na Bíblia, uai! Por que não posso?

Voltando aos direitos autorais, quando o poder muda de mão, sempre ofende a quem o perdeu. Mas não há lei que faça o mercado dar o poder a este ou àquele. O poder está na mão de quem o tem, e foda-se o resto. E se o mercado, para funcionar, tiver que ser fora da lei, será, e não haverá lei que o contenha. Cocaína era remédio receitado há menos de cem anos.

Marcelo, permita-me: isto não é um assunto “contaminado de ideologia”. Primeiro, ideologia não é doença. Depois, isso é fato observado. Nossa opinião não interessa.

Manchete na abertura do Yahoo, logo abaixo de um tríptico (por assim dizer) com as fuças de Freddy Krueger, Chucky e um boneco com cara de retardado (que vim a descobrir depois que é um tal de Jigsaw): “Sem estes personagens assustadores, o cinema não teria graça“.

O cara é pago pra escrever esse tipo de merda? Digo, o cara ganha uma grana, leva pra casa, sustenta uma família, cria filhos, espalha os genes por aí e perpetua isso? Não dava pra castrar o sujeito antes de ele entrar na faculdade de Jornalismo?

Chamar Freddy Krueger de cinema é o mesmo que chamar arroto de música. “Assustador” é esse mundo. Quem precisa de cinema?

Você me diria: “Ah, Branco, deixa de ser neurótico, é só uma manchetezinha de sexta-feira, pra relaxar“. E eu responderia: “Ora, vá tomar no meio do seu cu“.