Mario Monicelli
(15 mai 1915 -
29 nov 2010)

Nórcia está de luto.

Acho lindos esses powerpoints que recebo. Tudo é beleza e música e cuidados. Tudo lindo. Gosto particularmente daqueles que me pedem para refletir, como se eu fosse um espelho. Gosto que me peçam para refletir. Eu só não reflito porque sou rude, áspero, e o que é rude e áspero não reflete. Mas acho lindo que me peçam isso. Gosto de saber que alguém, seja quem for, vê em mim a possibilidade de refletir.

Não reflito, é verdade, mas mesmo assim, quando recebo um desses powerpoints, sinto que o universo pode ir bem, que as pessoas são boas e que só lhes falta mesmo refletir um pouco. E por isso, por causa desses pedidos de reflexão, o universo tem jeito de melhorar ainda mais. Nada colabora tanto com isso quanto os powerpoints.

Não importa que eu tenha voltado da rua agora e tenha visto motoristas jogando seus carros em cima dos outros como se estivessem todos se acotovelando atrás do caminhão de suprimentos da ONU, não importa que eu quase tenha sido assaltado duas vezes, atropelado uma vez, esbarrado outras tantas, pouco se me dá o mau humor do sujeito que me serviu um café com a cara que eu usaria para servir quem tivesse xingado minha mãe. O fato de eu me sentir um camundongo espiado por gaviões é coisa da minha cabeça, impressão minha. O mundo é lindo, cheio de músicas babacas e imagens cafonas e textos que andam pela tela como moscas, e é preciso ter esperança porque, um dia, por causa de tanta insistência, as pessoas vão parar… e refletir. Só falta mesmo que cedam de vez aos apelos dos powerpoints que recebem.

E aqui, uma versão legendada.

Era tão fiel, que só se masturbava assistindo ao mesmo vídeo pornô.

Uma senhora muito distinta e sem um dos braços sentou-se ao meu lado no metrô. Quando me levantei pouco depois, chutei seu pé sem querer. Pedi desculpas e fui embora pensando que aquilo devia significar alguma coisa. Eu só não sei o quê.

Era feio, mas esperto: cercou-se de mulheres míopes.

Quem não viu, visse. Que não comprou, comprasse. Os Viralata acabou. Ou acabaram, sei lá. Fecho o site depois de cinco anos, e ainda não descobri se devo me referir a ele no plural ou no singular.

Aos que apoiaram — de todas as maneiras que se pode apoiar uma iniciativa como essa —, meu mais sincero e eterno agradecimento. Aos que eu não pude apoiar, minhas desculpas.

Com isso, talvez eu volte a cuidar deste blog. Quem sabe?

Já “Branco Leone”, coitadinho…

Isso prova que, por mais idiota, infrutífero, cansativo e enervante que seja produzir, divulgar e vender Literatura Independente numa nação (em breve, num mundo) de analfabetos funcionais (não sei onde eles funcionam, mas é assim que eles se chamam), isso acaba valendo mais do que ser blogueiro. Resta saber o que o Google acharia de mim se eu fosse blogueiro.

Pontualidade britânica.
Neutralidade suíça.
Melancolia portuguesa.
Aspereza espanhola.
Desordem italiana.
Perfume francês.
Disciplina japonesa.
Jeitinho brasileiro.
Peido alemão.

Cobrir a retaguarda – (1) Ch. Enrabar.

Quando eu era moleque, a expressão “serrar um cigarro” tinha um significado completamente diferente.

Num truque de mágica, há o mágico, o baralho e o espectador. O mágico usa o baralho para fazer o truque e enganar o espectador. E o espectador sorri. Mas, e quando o mágico faz o truque e engana… o baralho? Ou quando o espectador percebe que é o próprio baralho? Ainda é truque? Será que nós todos temos mesmo a Música em estado sólido dentro da cabeça? Assista Bob McFerrin no World Science Festival 2009 e conclua.

Dica do bróda Alexandre Pavan, que não se dá ao desfrute em caixas de comentários, mas que usa o e-mail como ninguém.

Comprei uma gaita.

Pois este contrabaixista de domingo, afeito ao rock e ao rhythm’n’blues, de Led Zeppelin a Pearl Jam passando por Tom Waits e Adoniran Barbosa, baixou um disco do Paulinho da Viola. Samba da melhor qualidade, a voz mais chique da música brasileira e uns cavaquinhos não menos lá por detrás.

Cavaquinho… Um violão com deficiência na tireóide, tadinho, seu tamanho inspira o cuidado que sentimos pelas crianças e por outros tipos de deficiente. Quatro cordas, cavaco e contrabaixo… Um com voz fininha, saltitante, de mosquito; o outro, vozeirão de trovoada. Tocar os dois valeria de muita coisa, incluindo a piada.

Tenho amigos no ramo. Falei com um e com outro. Um se dispôs a ir comigo à Teodoro Sampaio escolher um bom e barato; o outro me emprestou o dele, pra fazer um test-drive.

Peguei o nanico e o trouxe para casa. Fofo. Mas… nem só de carinho vive a disposição para um instrumento. Aquilo é um suplício. É botar o cavaquinho em posição e tentar acompanhar alguma música, sinto-me um Gulliver com paralisia cerebral. É como ter que cuidar de cem crianças hiperativas, duzentas ratazanas esfomeadas, é como retirar os espinhos do ouriço que perdeu a briga com o macho-alfa do bando de ouriços, ou tudo isso ao mesmo tempo. E rápido! Muito rápido!

Adeus, cavaquinho! Duas horas. Foi o tanto que durou minha carreira no instrumento. Volto ao meu bom e velho contrabaixo. Pesadão. Lento. Grosso. Feito eu. Tá, não como ninguém, mas estou no lucro.

Em tempo: Sim, este blog está parado. Agora você entendeu por quê?

Soube pelo Biajoni que o amiguinho Brigatti escreveu há tempos um tratado sobre a reprodução e o acasalamento dos Baixistas, essa espécie desconhecida e que, por motivos óbvios, encontra-se a caminho da extinção.

Quase tão bons quanto o texto são os comentários dos Defensores de Alguma Coisa (*), animais que hoje, graças à Internet, proliferam-se como ratos e tem por principal característica a incapacidade de identificar uma piada. Não seria preciso que a entendessem; bastaria que pudessem identificá-la. Mas isso, como se sabe, é algo que só acontece na estratosfera do pensamento humano, isto é, em altitudes superiores a QI 30.

(*) Neste caso, a subespécie dos Defensores dos Contrabaixistas.

Ando estudando. Fiando-me nos mestres. O Tube taí pra isso. Com vocês, Jaco Pastorius tocando Birdland com o Weather Report. Um dia eu chego lá. Mas com uns quilos a mais. E sem a faixa no cabelo. Por falta de cabelo, é claro.

Pra quem não conhece, este é John Francis Anthony Pastorius III, ou apenas Jaco Pastorius (01-12-1951 / 21-09-1987). Nasceu baterista, quebrou o pulso jogando bola, teve que virar baixista. Arrepiou de ponta a ponta, e morreu com um murro bem dado pelo gerente de uma casa noturna que não gostou de suas palhaçadas. Ninguém conta a história daí pra frente, mas eu sei que o tal gerente também quebrou o pulso quando lhe deu o murro, teve que mudar de profissão, e hoje ganha a vida testando termômetros retais veterinários, o filho da puta.

Chamava-se Ceci. Era linda, delicada, tinha longos cabelos lisos, olhos verdes e um rosto muito branco. Eu a via andar pela casa como se a casa lá não estivesse, e penso hoje que não estranharia se, um dia e sem aviso, ela atravessasse uma parede ou brotasse de uma porta fechada. Era como um fantasma, a imagem mais próxima que consigo fazer de um anjo da guarda. Ceci não ria e nunca estava séria: sorria. Nunca a vi em hora que não estivesse sorrindo. Sorria o sorriso dos que entendem. Sentava ao nosso lado e nos assistia como se fôssemos um filme. Não falava conosco, mas seu silêncio não dizia que não merecíamos suas palavras. Ela apenas nos assistia, nós éramos um filme, e era como se nós também não estivéssemos ali.

Quando alguém queria tratá-la com respeito, lograva dispensar o apelido e a chamava de Cecília. Ela não se importava com isso. Sequer tomava conhecimento: era completamente surda.

Ser fumante, hoje, é mais ou menos como ser preto. A diferença é que você pode deixar de ser.

Atualização: A Cynthia falou um pouco mais sobre o assunto. Agora que está escrito, é fácil falar: era exatamente isso que eu queria dizer!

Veja bem. Eu adoro quando alguém começa uma conversa dizendo veja bem. É límpido, claro como água: vai vir enrolação. Conversa de vendedor de carro velho, imóvel à beira da desapropriação: – Veja bem… Mas não vou enrolar você. Vou explicar. Ser claro. Note que o veja bem que enrola tem reticências. O meu não tem. Você merece o cuidado. Mas sabe o que é? Já disse isso, não disse? Pois é, disse no título. Veja bem. Ah, de novo? Não, não de novo. Tá bom, é o seguinte.

Quase cinquenta anos juntando coisas. Pior, quase cinquenta anos juntando coisas com muito afinco. Muito afinco. Outro dia, olhei em volta e vi: um apartamento de quase cem metros quadrados (dois para cada ano, é verdade, mas isso não faz nenhuma diferença, não é disso que vou falar)… me perdi. Onde eu estava? Ah: quase cinquenta anos juntando coisas, e comecei a achar que as coisas estavam tendo mais importância que eu. Sim, porque se a coisa ocupa um espaço que eu queria livre, me diga, sim, você: me diga quem manda? A coisa ou o dono da coisa? Pois então, comecei a jogar tudo fora. Quem manda sou eu. Comecei a jogar tudo fora, não como as pessoas normais fariam (pela janela, aos berros), mas como homem cordato e levemente maluco que sou. Pois então, fui jogando tudo fora. Aos poucos. Livros inúteis. Caixas inúteis. Roupas inúteis. Tralha inútil. Percebeu que eu fiz uma lista e não disse enfim? Eu odeio quando vejo um enfim no fim de uma lista. Coisa irritante. Enfim é o caralho. Mas voltemos ao assunto. Joguei fora também uma mapoteca. Sabe o que é uma mapoteca? É grande. Procure no google. Achou? A minha era maior. Pois então. Rua. Discos também. Tudo pro sebo. Um real cada um. Mais de trezentos. Haja disco. Haja saco pra tanto disco. Mais de trezentos. Ainda tem mais de cem aqui, esperando as costas pararem de doer pra eu levar mais uma remessa pro sebo. Sim, são LPs. Pesam. Muito. Ficaram alguns. Fui separando os que não quis passar pra frente por algum motivo. Sobraram uns Beatles, uns Jethro Tull, uns Pink Floyd, uns Led Zeppelin, uns Queen, um Deep Purple. Só um. Fiz mais uma lista sem enfim. Reparou? Quanto aos discos que ficaram, só percebi depois, todos ingleses. Sei não, mas tudo indica que prefiro rock inglês. Foi-se a tralha velha, começou a sobrar espaço pras coisas novas: comecei a estudar música. Na verdade, recomecei, se considerarmos que eu tinha parado há 25 anos. Teoria e instrumento. Teoria é chata mas faz bem. A vida está cheia de coisas assim. Teoria, passo horas cantarolando tá-tá-tá batendo a mão na coxa. Deprimente. Depois, digitação. Mas não é uma flauta doce. É um contrabaixo. Digitar um contrabaixo elétrico dói. Doem os dedos, cotovelos e um ombro. Não me lembro qual. Mas dói. Estranhamente, é bom. Além disso, resolvi fazer um regime. Cem quilos é foda. Já pesei 113 mas, hoje, cem é muito. Rumo aos noventa. Dia desses, ainda paro de fumar. Fazer ginástica? Veja bem… Além disso tudo, ainda ando assistindo a um filme por dia. Torrent, sabe? Pois então. E ainda tenho uns quarenta pra assistir, já baixados.

Então, viu só? Arrumando a casa, me livrando do lixo, estudando música, assistindo filmes. Escrever? Pois é, faz falta. O blog? Não, o blog não faz. Mas eu estou aqui. Bem. Apesar da dor nas costas. E não reclame. Escrevi alguma coisa, não escrevi?

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