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Mario Monicelli
(15 mai 1915 –
29 nov 2010)

Nórcia está de luto.

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Acho lindos esses powerpoints que recebo. Tudo é beleza e música e cuidados. Tudo lindo. Gosto particularmente daqueles que me pedem para refletir, como se eu fosse um espelho. Gosto que me peçam para refletir. Eu só não reflito porque sou rude, áspero, e o que é rude e áspero não reflete. Mas acho lindo que me peçam isso. Gosto de saber que alguém, seja quem for, vê em mim a possibilidade de refletir.

Não reflito, é verdade, mas mesmo assim, quando recebo um desses powerpoints, sinto que o universo pode ir bem, que as pessoas são boas e que só lhes falta mesmo refletir um pouco. E por isso, por causa desses pedidos de reflexão, o universo tem jeito de melhorar ainda mais. Nada colabora tanto com isso quanto os powerpoints.

Não importa que eu tenha voltado da rua agora e tenha visto motoristas jogando seus carros em cima dos outros como se estivessem todos se acotovelando atrás do caminhão de suprimentos da ONU, não importa que eu quase tenha sido assaltado duas vezes, atropelado uma vez, esbarrado outras tantas, pouco se me dá o mau humor do sujeito que me serviu um café com a cara que eu usaria para servir quem tivesse xingado minha mãe. O fato de eu me sentir um camundongo espiado por gaviões é coisa da minha cabeça, impressão minha. O mundo é lindo, cheio de músicas babacas e imagens cafonas e textos que andam pela tela como moscas, e é preciso ter esperança porque, um dia, por causa de tanta insistência, as pessoas vão parar… e refletir. Só falta mesmo que cedam de vez aos apelos dos powerpoints que recebem.

E aqui, uma versão legendada.

Uma senhora muito distinta e sem um dos braços sentou-se ao meu lado no metrô. Quando me levantei pouco depois, chutei seu pé sem querer. Pedi desculpas e fui embora pensando que aquilo devia significar alguma coisa. Eu só não sei o quê.

Quem não viu, visse. Que não comprou, comprasse. Os Viralata acabou. Ou acabaram, sei lá. Fecho o site depois de cinco anos, e ainda não descobri se devo me referir a ele no plural ou no singular.

Aos que apoiaram — de todas as maneiras que se pode apoiar uma iniciativa como essa —, meu mais sincero e eterno agradecimento. Aos que eu não pude apoiar, minhas desculpas.

Com isso, talvez eu volte a cuidar deste blog. Quem sabe?

Já “Branco Leone”, coitadinho…

Isso prova que, por mais idiota, infrutífero, cansativo e enervante que seja produzir, divulgar e vender Literatura Independente numa nação (em breve, num mundo) de analfabetos funcionais (não sei onde eles funcionam, mas é assim que eles se chamam), isso acaba valendo mais do que ser blogueiro. Resta saber o que o Google acharia de mim se eu fosse blogueiro.

Veja bem. Eu adoro quando alguém começa uma conversa dizendo veja bem. É límpido, claro como água: vai vir enrolação. Conversa de vendedor de carro velho, imóvel à beira da desapropriação: – Veja bem… Mas não vou enrolar você. Vou explicar. Ser claro. Note que o veja bem que enrola tem reticências. O meu não tem. Você merece o cuidado. Mas sabe o que é? Já disse isso, não disse? Pois é, disse no título. Veja bem. Ah, de novo? Não, não de novo. Tá bom, é o seguinte.

Quase cinquenta anos juntando coisas. Pior, quase cinquenta anos juntando coisas com muito afinco. Muito afinco. Outro dia, olhei em volta e vi: um apartamento de quase cem metros quadrados (dois para cada ano, é verdade, mas isso não faz nenhuma diferença, não é disso que vou falar)… me perdi. Onde eu estava? Ah: quase cinquenta anos juntando coisas, e comecei a achar que as coisas estavam tendo mais importância que eu. Sim, porque se a coisa ocupa um espaço que eu queria livre, me diga, sim, você: me diga quem manda? A coisa ou o dono da coisa? Pois então, comecei a jogar tudo fora. Quem manda sou eu. Comecei a jogar tudo fora, não como as pessoas normais fariam (pela janela, aos berros), mas como homem cordato e levemente maluco que sou. Pois então, fui jogando tudo fora. Aos poucos. Livros inúteis. Caixas inúteis. Roupas inúteis. Tralha inútil. Percebeu que eu fiz uma lista e não disse enfim? Eu odeio quando vejo um enfim no fim de uma lista. Coisa irritante. Enfim é o caralho. Mas voltemos ao assunto. Joguei fora também uma mapoteca. Sabe o que é uma mapoteca? É grande. Procure no google. Achou? A minha era maior. Pois então. Rua. Discos também. Tudo pro sebo. Um real cada um. Mais de trezentos. Haja disco. Haja saco pra tanto disco. Mais de trezentos. Ainda tem mais de cem aqui, esperando as costas pararem de doer pra eu levar mais uma remessa pro sebo. Sim, são LPs. Pesam. Muito. Ficaram alguns. Fui separando os que não quis passar pra frente por algum motivo. Sobraram uns Beatles, uns Jethro Tull, uns Pink Floyd, uns Led Zeppelin, uns Queen, um Deep Purple. Só um. Fiz mais uma lista sem enfim. Reparou? Quanto aos discos que ficaram, só percebi depois, todos ingleses. Sei não, mas tudo indica que prefiro rock inglês. Foi-se a tralha velha, começou a sobrar espaço pras coisas novas: comecei a estudar música. Na verdade, recomecei, se considerarmos que eu tinha parado há 25 anos. Teoria e instrumento. Teoria é chata mas faz bem. A vida está cheia de coisas assim. Teoria, passo horas cantarolando tá-tá-tá batendo a mão na coxa. Deprimente. Depois, digitação. Mas não é uma flauta doce. É um contrabaixo. Digitar um contrabaixo elétrico dói. Doem os dedos, cotovelos e um ombro. Não me lembro qual. Mas dói. Estranhamente, é bom. Além disso, resolvi fazer um regime. Cem quilos é foda. Já pesei 113 mas, hoje, cem é muito. Rumo aos noventa. Dia desses, ainda paro de fumar. Fazer ginástica? Veja bem… Além disso tudo, ainda ando assistindo a um filme por dia. Torrent, sabe? Pois então. E ainda tenho uns quarenta pra assistir, já baixados.

Então, viu só? Arrumando a casa, me livrando do lixo, estudando música, assistindo filmes. Escrever? Pois é, faz falta. O blog? Não, o blog não faz. Mas eu estou aqui. Bem. Apesar da dor nas costas. E não reclame. Escrevi alguma coisa, não escrevi?

Kogai por nus?? Ou pornôs?
(Samuér no estado Rio de Janeiro)


Currículo.
(Eunápolis-BA)


O que dizer disso?
(Ilhéus-BA)


Fineza não limpar o pé no cachorro.
(Itapuã, Salvador-BA)


O gargarejo profilático de Seu Françuel. Com cachaça, claro.
(Nordeste de Itaigara, Salvador-BA)
(O nome do bairro foi alterado, por motivos de segurança, a pedido do retratado. Mas a camiseta do Flamengo permanece. Como diria Dickens, “Go figure”.)

Então. Nada especial, só o de sempre: Bahia, acarajé, brisa na varanda, sarapatel, sombra, abará em casa de Auta Rosa, uisquinho, mais brisa (que ninguém é de ferro e, portanto, derrete), velsar e revelsar na varanda de Maria Sampaio, coçando o papo de Brigitte. No dia seguinte, tudo de novo, mas tudo diferente: acarajé vira rabada, abará vira moqueca, uisquinho vira cachaça. Mas a brisa é a mesma.

Três ‘plus a mais’: Sr. Franciel Cruz Credo, Alan Miranda e Paloma & seu Pedro José, que é argentino, mas tem a alma branca. Alguém mais? Estudo convites. Só não me venham com praia e axé, que eu já vou logo mandando. Cartas para a redação.

Raramente eu compro música. Eu baixo. Esse meu disco novo, meus quatro outros, e os dois do Mulheres [Negras], quando eu tô com meu computador ligado, eles estão disponíveis no eMule.”

Agora é esperar alguém chamar o Maurício Pereira de “Zé das couves”.

Dias atrás, li este post do Marco ao Léu e, mais uma vez, discordei. Digo ‘discordei’, mas o fiz em silêncio, e observo que foi ‘mais uma vez’ porque ele toca no assunto a toda hora e eu sempre discordo. Daí, me resolvi a escrever este post, mas só agora tive paciência de ir procurar as informações que sabia ter mas não imaginava em que pasta estavam. Achei. E conto a história.

Galopava o ano de 2001. Eu fazia parte de uma ‘e-oficina’ de criação literária sob a coordenação de João Silvério Trevisan, patrocinada pelo SESC-SP. A coisa funcionava mais ou menos assim: dez sujeitos numa sala de chat, sob olhar e ordens de Trevisan; três meses corridos com três encontros semanais com duração de duas horas cada; apresentavam-se alguns dos textos, escritos pelos participantes, segundo um tema apresentado anteriormente; todos criticavam todos os textos, incluindo o coordenador; conforme as opiniões, o circo pegava fogo. Era cansativo e enervante (quem me visse voltar pra cama depois das reuniões pensaria que eu tivesse chegado de uma briga num bar, não de uma sala de chat), mas foi a única experiência realmente proveitosa que fiz no assunto: se aprendi muito sobre escrever, aprendi mais ainda sobre os motivos de escrever, coisa mais séria.

Numa das noites em que nos reunimos, o texto a criticar era um diálogo muito bem construído por um escritor de Teresina em que, numa das falas, uma personagem dizia algo como ‘barriga lisinha é coisa de veado‘. Eu (e minha boca grande), na hora de colar no chat a crítica que havia escrito anteriormente, nem percebi que a coisa ia desandar ali, depois da minha frase final: ‘O diálogo é ótimo. O [autor] segurou a veracidade de ponta a ponta. Gostei muito. Pra ser perfeito, eu escreveria ‘viado’ ao invés de ‘veado’.

O barraco ardeu. E bastou um outro oficineiro concordar comigo para a horda se dividir em duas, os Pró-Viados e os Veados Até Morrer. Ao final desse mesmo encontro, o segundo grupo (o dos Veados) desistiu da oficina para nunca mais voltar, e os trabalhos tiveram que seguir manquitolando até o final do trimestre.

Pouco importa o que se falou em defesa ou no ataque das duas versões da palavra. É claro que se trouxe à mesa todo tipo de alfarrábio (Aurélios, Houaisses e mesmo os anglicistas infiltrados Webster e Michaelis), é claro que se expuseram argumentos regionalistas (‘no Nordeste se fala assim’, ‘em São Paulo se fala assado’), muitos foram chamados de ignorante (eu, inclusive, fui chamado de ‘ingnorante’ por um oponente), é claro que — mais uma vez — puseram a malemolente Lingüística pra brigar com a engessada Gramática (é impressionante o que essas duas gostam de brigar!). E, é claro, nada disso deu em nada, e todos saíram com seus narizes e opiniões intactos.

No entanto, porradas dadas e levadas, o mais importante foi perceber que a discussão ultrapassava os ambientes regionalistas, gramaticais e lingüísticos. O buraco era, como se viu depois, mais em baixo (ou mais atrás, se você gostar de uma piada besta). Copio aqui uma das ‘falas’ de Trevisan, quando começava a expor sua opinião pró-viado: ‘(…) Além do mais, [escrever ‘viado’] é uma reivindicação de certa parcela da comunidade homossexual. Se a palavra é usada como ‘viado’ [é porque] pede-se visibilidade ao termo. Que os brasileiros assumam a diferença linguística que eles, inadvertidamente criaram. E que se tornou uma marca identitária, pelo menos no caso’.

Trevisan — escritor, jornalista, dramaturgo, tradutor, cineasta e ativista GLBT, além de meu velho amigo — expõe o argumento que os dicionários não têm autoridade para discutir: usar a palavra ‘viado’ para se referir ao homossexual do sexo masculino é reivindicação de parte da comunidade homossexual. Sendo assim, pau no cu do Houaiss (maneira de dizer…), porque, para tratar deste assunto, o dicionário é este.

Quem estiver interessado em acompanhar a polêmica que surgiu aqui sobre Direitos Autorais pode dar uma espiada no post em que tratei do assunto. O amigo Daniel Brazil e o leitor Marcelo discutem seus pontos de vista — obviamente contrários, pois, se assim não fosse, não haveria discussão.

Prefiro quebrar um pé a me meter em polêmicas. Mas não posso deixar de dizer que, sobre o tema (aliás, sobre qualquer tema relacionado a evolução de mercado e suas políticas), pouco importa a opinião deste ou daquele, pouco importa o que é “certo”. A fila anda, e o “certo” será sempre a atribuição de quem manda. O poder agora está descentralizado, por causa da Internet. Quem quiser matar os carrapatos, vai ter que acabar com a vaca. Ou o “poder” (faz-me rir) junta-se aos carrapatos, ou morre. E morrerá, porque não se curvará jamais. Os teimosos são assim. Não há novidades em História, apenas a mesma coisa contada de outro jeito, com outros personagens, em outros ambientes.

Confesso que não sei o que é melhor — note-se que eu não disse “certo” ou “errado”. Mas vou fazer aqui um exercício. Quem quiser adaptar as variáveis para outros assuntos, que fique à vontade.

Constatamos hoje que uma das faces ditas brutais da Internet tem sido a dificuldade em se conter a disseminação de pornografia infantil pelos tais pedófilos. Uma mazela, uma tragédia, e duvido que alguém discorde (incluindo eu mesmo). Pois então, um fato: a bisavó de minha mulher, filha de “gente bem”, família tradicional e estabelecida, não foi autorizada pelo pai a se casar com um pretendente que lhe apareceu por um simples motivo: ainda não tinha menstruado. Diz a história familiar que, depois que seu corpo resolveu-se a tal, casou-se imediatamente. E levou sua boneca preferida para a lua-de-mel. Alguém foi preso, difamado, perseguido? Ninguém, é claro. Isso era prática corrente.

Conheço o caso e o entendo, mas nem por isso deixaria de correr a bala com o engraçadinho que aparecesse aqui com semelhante proposta para minha filha de 14 anos (que já menstrua há tempos). Mas é preciso perceber que, numa época em que se morria feito mosca, se não se começasse cedo a jubilosa tarefa da reprodução, as famílias corriam o risco de sumir — com todas as conseqüências emocionais, sociais e financeiras disso.

Se é que alguém ainda não entendeu, o que quero dizer é tão óbvio que até sinto vergonha de expressar: Lei não é; Lei depende. Se assim não fosse, eu poderia apedrejar até à morte meu vizinho porque sei que ele trabalha aos sábados. Está na Bíblia, uai! Por que não posso?

Voltando aos direitos autorais, quando o poder muda de mão, sempre ofende a quem o perdeu. Mas não há lei que faça o mercado dar o poder a este ou àquele. O poder está na mão de quem o tem, e foda-se o resto. E se o mercado, para funcionar, tiver que ser fora da lei, será, e não haverá lei que o contenha. Cocaína era remédio receitado há menos de cem anos.

Marcelo, permita-me: isto não é um assunto “contaminado de ideologia”. Primeiro, ideologia não é doença. Depois, isso é fato observado. Nossa opinião não interessa.

ou Saber morrer é uma virtude

Naqueles filmes em que acontece o eterno combate entre o Bem e o Mal, é fácil distinguir bandidos de mocinhos: bandidos são aqueles que, encurralados e à beira da morte, atiram pra todo lado com a intenção de levar com eles o máximo de gente possível, sejam inocentes, inimigos, quem for. Até para confirmar a regra, aponto ‘Butch Cassidy’ como exceção, mas o normal é vermos o bandido, amarfanhado em seu último reduto, pistola vazia numa mão e um detonador na outra que, com um único gesto, mandará pelos ares tudo o que está entre o Cambuci e a Aclimação (dando a volta pelo outro lado do mundo, claro). Do outro lado estão os mocinhos, aqueles que, no instante anterior ao último, metem uma bala na cabeça do bandido, evitando o desastre final e, assim, permitindo que se continue a fazer filmes-merda como esses.

Ao assunto. Fiquei sabendo ontem que o blog Um que tenha, fonte onde bebo raras águas nos últimos tempos, corre o risco de ser tirado do ar por infração à tal Lei do Direito Autoral. Capaz que sim, capaz que não, mas tudo começou quando a gravadora Biscoito Fino (não confundir com Idelber, o Grande) pediu (digamos assim, vá lá) a exclusão dos links que remetiam a obras de artistas que representa. Não vou descer o pau na Biscoito porque ainda (ainda!) respeito a empresa e sua postura dentro desse mercado selvagem. Mas só por isso.

Não é a primeira vez que acontece algo assim. Vide a história de combate aos piratas que o Metallica impetra há tempos, alinhado aos furiosos tubarões da indústria fonográfica americana. Interessante notar que a pseudo-banda, assim como o AC/DC em outras décadas, tem lançado e relançado seu único disco dezenas de vezes, trocando-lhe apenas a capa. Numa análise simplista, é como se pirateassem a si mesmos. E isso, pode, claro, porque ninguém é obrigado a comprar o mesmo disco duas vezes. Compra quem quiser. Chamam a isso de “liberdade”. Ok.

Infelizmente, também não será a última vez que uma gravadora vai soltar — ou ameçar soltar — os cachorros em cima de alguém que esteja infringindo a Lei porque — seja neste ou em outros casos — basta combinar a tal Lei com a vontade de quem manda, e a Luz se fará. Um dia, espero, a Luz virá de uma purgante explosão atômica, que mandará toda essa burrice pro inferno, lugar onde se paga caro pra ouvir porcaria, e onde o autor — como que por vingança das Musas — não recebe um tostão por isso.

Noutro dia, passeando lá mesmo pelo Um que tenha, encontrei o cd que acompanha Timoneiro, livro escrito pelo amigo Alexandre Pavan (maridão da Carol Guindaste) sobre Hermínio Bello de Carvalho. Como eu não sabia da opinião de Pavan sobre o fato, escrevi-lhe informando o encontrado. A resposta de Pavan pode ser resumida em poucas palavras: “Eu sabia, e quero é mais! Quanto mais gente ouvir, melhor“. Sujeito inteligente.

Paulo Coelho, outro sujeito inteligente (alguém ainda duvida?), disse que só se deu bem no mercado russo depois que um de seus livros foi pirateado e distribuído a rodo pela Internet. Agora, com a fama construída gratuitamente, Coelho vende da mesma forma: a rodo. O filme Tropa de Elite é outro exemplo de beneficiado com aquilo que hoje se chama de Pirataria.

Quase dois séculos de implantação da Lei do Direito Autoral (no Brasil, mas em outros países não é muito mais tempo) precisam ser revistos mais uma vez. Aconteceu muita coisa nesse meio tempo. Livros, discos, textos teatrais, fotografias, ilustrações (e sei lá mais o quê), “produtos” que antes eram resultado de processos caros e complexos — detidos por investidores e produtores de cultura, incluindo muitos que mereceriam aspas, mas deixo assim —, podem hoje nem existir fisicamente mas circular por e-mail, sem nenhuma possibilidade de controle por parte de quem insiste em querer controlar alguma coisa.

É preciso perceber, rápida e definitivamente que, nesse meio tempo, a figura do investidor (leia “editor”) deixou de ser necessária. É possível escrever em casa, imprimir em casa, gravar em casa, copiar em casa, produzir e multiplicar em casa, divulgar e vender a partir de casa. É preciso que o artista perceba que não precisa mais se render a um intermediário que o publique, que não é preciso ficar refém de um pretenso poder de distribuição e divulgação, até porque esse poder está acabado ou, no mínimo, acabando. Já disse uma vez aqui, mas repito: Andy Warhol se enganou. No futuro (isto é, hoje), as pessoas não são famosas por quinze minutos, as pessoas só conseguem ser famosas para quinze pessoas. Por que empenhar sua obra e sua alma a um editor que a venderá para quinze pessoas, e só lhe repassará dez por cento? Mas isso é outro assunto.

É fácil perceber que há algo errado com a Lei do Direito Autoral quando se verifica quem a defende: ‘artistas’ fabricados e os megainvestidores por trás deles. Mas antes de sentar para redigir outra, é preciso lembrar que a Lei do Direito Autoral deve proteger o autor, porque hoje ele é o último dos urubus na fila desse banquete: dez por cento do que o investidor DIZ que vendeu, descontados disso e daquilo. E olhe lá.

E enquanto ninguém se resolve a mudar isso, as corporações (nem me refiro aqui à Biscoito Fino, longe disso) vão mexendo seus pauzinhos e derrubando um aqui outro ali, esperneando. Que derrubem muitos, mas antes de cairem todos, cairá também a lei do direito autoral e todos os vampiros que vivem dela. Alguém, por favor, lhes meta logo uma bala (de prata) no coração, em prol da Liberdade.

[abre aspas] Oi! Isso aqui é completamente off-topic.
Perdi o teu e-mail, (o meu computador velho foi vaporizado numa tempestade e eu perdi tudo!), então vai aqui mesmo.
Pois é, sonhei com vc ontem à noite e vou contar logo antes que esqueça.Eu estava andando na Av. Paulista e encontrei o meu pai na altura da Brigadeiro e perguntei como fazia pra chegar à sua casa (a sua, não a dele), e ele explicou que era uma paralela a Paulista, lá no fim, perto do largo Ana Rosa. Rua Plinio Ferraz, número 25, um sobradinho branco, com uma estátua do indiozinho da TV Tupi no jardim. Corta.Eu estava com a Dora, andando nas proximidades do largo Ana Rosa, indo pra sua casa, quando encontramos a Fernanda, que usava aparelho nos dentes, um verdadeiro trambolho, quase não dava pra entender o que ela dizia. Ela explicou que o piano estava com o pedal emperrado e podia cair no pé, pra tomar cuidado quando a gente fosse lá pro sarau. Continuamos andando, e a Dora viu a costureira do meu pai tentando estacionar o carro, mas ela era muito barbeira e acabou dentro de um restaurante! (nesse ponto eu fiz uma nota mental para contar sobre a barbeira pro meu marido).
Acontece que vc não era escritor e sim músico e artista plástico. Além de compor, vc fazia umas esculturas de pendurar na parede, que tocavam música também. Quando chegamos na sua rua, estava lá a placa: Rua Plinio Ferraz. Entramos. Vc estava tocando violão e cantando a sua mais famosa canção. O refrão era o que a escultura de parede tocava, e a gente tinha que acompanhar. Tinha um monte de gente, uma turma de sujeitos barbudos, todos músicos e artistas plásticos.
Acordei.
Não foi um sonho estranho? São Paulo era um lugar calmo, ruas sossegadas, com os tais sobradinhos brancos e uns predinhos baixos, 5 andares no máximo. Tipo anos 50/60…
Fiz uma busca e descobri que não existe rua Plinio Ferraz em Sao Paulo, mas em Portugal existe uma escola estadual com esse nome.
Vim direto pro micro pra te contar, e cadê o teu endereço? Então, escrevi aqui. Os teus fregueses vão achar que eu sou louca! Bom, isso não importa, porque eu sou mesmo louca, mas ficou muuuuito comprido…
Saudade de vc, deve ser isso. E foi muito gostoso passear por uma São Paulo tão civilizada. E encontar com o meu pai (ele morreu em 92).
Beijos pra Fernanda (que aparelho horroroso, não tinha nada a ver…).
Beijão procê!
Regina [fecha aspas]

Resposta: Fernanda manda dizer que o pedal do piano já está consertado e que — não se aflija! — ela já tirou o aparelho. Digo eu que, na falta de Rua Plinio Ferraz em São Paulo, encontrei uma em Bauru que, pelo GoogleMaps, me pareceu muito simpática. Bairro afastado, casas com piscina, muito espaço. Só falta descobrir se há uma casa de número 25 e se está à venda. O fato de não ter dinheiro para comprá-la é de menor importância. Depois de um sonho desses, que diferença faz? Beijo.

Posts atrás, eu disse que não ia informar aqui quando a promoção do livro da Nigella Lawson estivesse no ar lá no Enfia o Dedo no Curry. Era tudo mentira. Quando escrevi isso, já tinha intenção de vir aqui avisar. Eu sou assim. Ladino. Matreiro. Cheio de subterfúgios. Aliás, eu faço cada bruta subterfúgio que nem te conto!

E então? Tá esperando o que pra ir lá participar da promoção e cuíca até ganhar um livrão lindão? Vai, meiga! Anda com isso!

Era velho, tinha o cabelo sujo, o nariz enorme, vermelho e esburacado, os olhos tristes e cheios de remela. Daria uma linda foto em preto-e-branco.

Post novo no Enfia o dedo no curry e cheira, meu blog culinário d’O Pensador Selvagem. Não é receita, é mais uma discussão sobre as dificuldades de ser peixe (fofa, são quase três da manhã, não consigo dormir, e você queria o quê? Uma receita? Só se fosse de Lexotan…).

Em mais alguns dias, vai rolar lá (eu disse LÁ) uma promoção que bolei junto com a Nigella Lawson (eu sou assim-ó com a moça, sabia não?). Vou dar um livro de receitas dela, lindão, de graça, em troca de uma frase e de uma receitinha sua.

É bom você feedar e/ou botar o Enfia o Dedo nos seus fêivorits, porque eu não vou avisar aqui quando a promoção começar, certo?

Em 1990, adaptei o poema Grandes são os desertos (Fernando Pessoa) para vídeo. Tarefa inglória, porque sabia de antemão que não teria talento para transpor, de uma para outra “mídia”, uma obra com a intensidade de Álvaro de Campos. Mas eu tinha feito a besteira de me inscrever com tal projeto no Prêmio Estímulo de Secretaria da Cultura do estado e, se não cumprisse o contrato, cairia em danação eterna, tanto em relação ao estado quanto comigo mesmo, que sei ser muito mais cruel (comigo) que qualquer torturador estatal.

Mas não entrei sozinho nessa barca furada. Fui com uma parceira, Marily da Cunha Bezerra, pessoa que eu tinha conhecido numa oficina de criação. Mulher inteligente, confiante no futuro e dona de extrema paciência, tinha portanto as características que precisava para que eu me elegesse à condição de seu parceiro, porque não é fácil (garanto-lhes!) me aturar enquanto crio e desenvolvo alguma coisa sob pressão. Foi graças à sua experiência e firme placidez que conseguimos fazer um vídeo dessa monta a tempo e horas, gastando apenas a verba miserável que nos foi concedida pelo prêmio, sem que nos matássemos a garrafadas.

Ainda guardo a bolacha do chope que tomamos no Riviera — bar que havia na esquina da Paulista com a Consolação — ao final da edição do vídeo. O “troféu” condensou as assinaturas dos envolvidos na empreitada, e hoje descansa dentro da mesma caixa onde está a fita editada. Símbolos sem nenhum valor para os outros, e acho que estes são os melhores símbolos a se conservar.

O vídeo, bem, o vídeo saiu como mandaram os deuses da penúria. Foi rodado em SuperVHS — sistema que hoje está no esquecimento, de onde nunca deveria ter saído —, editado numa ilha velha e cercada de fita isolante por todos os lados, e produzido com aquela mistura de pouca grana e favores de que vive esse tipo de criação. Quem não viu, veja:

Assistiu? Bem, eu avisei.

Eu e Marily encerramos nossos trabalhos e caímos em outras doideiras, mas, desta vez, cada um na sua. Fui para o meu lado, ela para o dela. Mas alguns meses depois de pronto o tal vídeo, alguém no Instituto de Estudos Portugueses da USP o encontrou no Museu da Imagem e do Som e nos pediu para exibi-lo em evento que tratava de Fernando Pessoa. Fomos convidados para a exibição, e comparecemos.

A sala estava repleta de catedráticos. Encheriam um avião da TAP, dos grandes. Exibido o vídeo, pensava eu, estariam terminadas as exibições. Engano. Tão logo a luz se acendeu, muitas outras luzes começaram a disputar lustro com as lâmpadas. Engalfinharam-se todos a ver quem mais reluzia de brilho acadêmico. Tive que ouvir coisas que jamais imaginara ouvir sobre trabalho meu: significados e significâncias outras que tínhamos dado ao poema, intenções e soluções semióticas que desconhecia (justo eu que, até hoje, desconheço o significado da palavra “semiótica”), transposições temporais e uns caralhos com asas.

Quando os sapos se cansaram de coaxar, a organizadora do evento deu os trabalhos por encerrados. Amém. Todos se levantaram e já iam saindo quando uma voz fininha se fez presente, vinda do fundo da sala: era uma estudante que pedia a palavra, a última palavra, o último suspiro da palavra em público.

Olhei-a, e vi a mais negra de todas as criaturas que tinha visto até então: pequenina, os cabelos trançados e amarrados numa corda, um caderno abraçado de encontro ao peito. Linda. Linda de tão triste. Seus olhos — brilhantes e úmidos — faiscavam na penumbra da sala. Aquilo sim, era um lustro. E ainda com um dedo em pé, ela me olhou no mais fundo que conseguiu e disse, com o sotaque macio do português africano:

— Vim d’Angola há seis meses, e só quero dizer que é exatamente assim que me sinto.

Meu Deus, havia uma pessoa! Havia uma pessoa em cem! E teve que vir da África, porque aqui não as havia! Juntei todo o controle que pude — minha vontade era cair no choro — e balbuciei, engasgado:

— Então, eu fiz o vídeo pra você. É seu.

Ela não conseguiu sorrir. Seus olhos desapareceram por trás de uma cortina de água.

Depois disso, cada um para seu lado, Marily saiu andando por terrenos mais espinhosos — a obra de Guimarães Rosa — em que foi se especializando a ponto de se tornar uma referência no assunto, junto com o maridão, Dieter Heidemann, um caboclo mineiro nascido na Alemanha que ela encontrou nas suas andanças. Só nos vimos mais uma vez, na exibição de um trabalho recém-concluído à época por ela, outra adaptação literária em película (não em vídeo) sobre o trecho talvez mais magnético de Grande Sertão, Veredas, o encontro de Riobaldo e Diadorim. Por divina obra de Santo Iutube, encontrei-o outro dia:

Pois bem, esses deuses são assim mesmo e, quando dão uma no prego, acertam também uma no (seu) dedo: junto com o vídeo, descobri que Marily morreu de câncer em 2006.

Puta merda. Não sei o que dizer, mas “é exatamente assim que me sinto”. Seja lá o que isso significar.

Aeroporto Internacional de Miami, um dia qualquer de 1988

Ela ia empurrando o carrinho com as malas, passo a passo, à medida que andava a fila do check-in. Os olhos de turista — e aqui seria melhor dizer todos os sentidos, porque viajar provoca uma espécie de aguçamento das capacidades de sentir, visão, audição, olfato, paladar, tato e mais algum ainda não classificado — então todos os sentidos da viajante observavam o que estava ao redor, as cores das roupas, o som reverberado do alto-falante rezando vôos, horários e portões, o resto do sabor do café tomado às pressas ainda agora, misturado ao cheiro do aeroporto, tudo compondo um cenário que, se agora não tem nada de onírico, daqui a algum tempo terá, e se tornará alguma coisa meio sonho, meio memória, sensação pura.

Ela observava as filas do check-in, pessoas empurrando seus carrinhos, todos no mesmo passo a passo sem nenhuma sincronia, um passo nesta fila, outro naquela, e assim por diante, as filas seguiam, e quem estava agora um passo mais próximo ficaria em seguida um passo atrás ou adiante, e ela começou a reparar num homem que ia passo a passo na fila ao lado, um homem que, depois, ela não saberia dizer se era grande ou não, porque não foi isso que a fez reparar nele.

Era um homem loiro ou quase isso — a luz do aeroporto fazia no seu cabelo um amarelo esverdeado —, magro, estupidamente magro. Tinha dois olhos muito claros e mal colocados numa cara de madeira talhada a machado pelas próprias mãos, grandes e nodosas, e cobria seus ossos com uma jaqueta roxa de cetim e a calça branca de um defunto pouco maior que ele. Mesmo boa, a roupa lhe caía de um jeito torto, esquisito. Um homem feio — mais tarde bonito, por ter se tornado meio sonho, meio memória — mas interessante. Seguia na sua fila sem carrinho, sem bagagem que não fosse uma grande bolsa pendurada num ombro, enganchada na ponta saliente de uma clavícula. Pela abertura dessa bolsa, mistério, escapavam penas, penas pretas e compridas, muitas. Um tucano?

Seus olhos enormes e claros fitavam o chão com raiva, como se o piso de mármore lhe tivesse feito alguma coisa de muito grave. E agora, como punição, ele mostrava à pedra o significado das palavras duro e frio. O chão, intimidado, deixava-se pisar sem reclamações. Ela, compadecida da pedra, observava o homem. A certa altura e repentinamente, ele chicoteou sua ira ao redor e encontrou os olhos dela, tristes e curiosos. Ela foi obrigada a encarar o vampiro que havia lá dentro e, magnetizada, não fez nada, não pôde fazer nada a não ser olhá-lo, endurecida. Eles se espiaram por imensos segundos. E o vampiro sorriu.

Ela não pôde lhe retribuir, porque logrou ver um fio de sangue a escorrer de sua boca. E pior: teve a certeza de que o conhecia.

***

Boulevard Saint Michel, Paris, 1991, manhã de sábado

Ela vinha andando por uma calçada, olhando a cidade, os olhos de turista — e aqui seria melhor dizer todos os sentidos, porque viajar provoca uma espécie de aguçamento das capacidades de sentir — todos os sentidos da viajante observavam o sol de cores outras, como se fosse outro o sol que ilumina Paris, o cheiro da cidade, os carros roncando em timbres diferentes, o sabor do café tomado no hotel — tudo compondo um cenário que, se agora não tem nada de onírico, daqui a algum tempo terá.

Ela dobra uma esquina e tromba de frente com um homem — ela nunca saberá dizer se ele era grande ou não —, seu rosto vai de encontro ao peito ossudo, os óculos voam, batem no ombro dele, cheio de clavículas pontudas, visíveis mesmo por debaixo da jaqueta de cetim roxo, e caem ao chão.

Ela, meio cega, não tem muito que fazer a não ser contar com a gentileza daquele borrão roxo que se curva, apanha e lhe devolve a visão. Enquanto o foco se faz, ela lhe vê rapidamente o sorriso, olhos claros transparentes misturados ao Fahrenheit a olhar para ela e a dizer:

— So sorry…

Desta vez — disto ela ainda se lembra, mesmo que tudo já tenha se tornado meio sonho, meio memória, sensação pura — não havia um fio de sangue, as pedras não tinham medo dele, e ela sentiu alguma coisa ao mesmo tempo refinada e selvagem, era como se ouvisse uma ópera a ser cantada na selva.

Antes que ela pudesse ligar coisa com outra, o homem olhou em frente e em frente seguiu seu caminho, havia uma obstinação nesse seguir, e lá se foi a jaqueta de cetim roxo por trás de uma esquina do Boulevard Saint Michel.

***

Dois meses depois, em casa, ela abre o jornal e lê a notícia da morte de Klaus Kinski, aos 65 anos, vítima de ataque cardíaco. Seu coração, que ela quase havia tocado com a testa, havia parado. Seus olhos — mesmo impressos a preto e branco — continuavam ali, claros e transparentes, ainda eram Nosferatu e Fitzcarraldo, dois sujeitos que ela encontrou pelo mundo e que morreram, talvez, sem saber da importância que ela dava a uma esquina. Talvez.

Foi como trocar um segredo com aqueles olhos, um carinho, um afeto. Um segredo tão secreto que nem ela sabia ao certo do que se tratava.

Ela o olhou mais uma vez e, sem medo, lhe disse:

— So sorry, Klaus…

E a tinta do jornal cheirou a Fahrenheit.

(escrito em homenagem a esta amiga
— que é também a protagonista da história —,
ilustrado por este amigo e
publicado nesta revista)