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Quando ela me apareceu, era sábado de Carnaval. Desde esse noite, quando penso no futuro, quando preciso de força, quando o dia é bom, quando a alma dói, quando a estrada é linda, quando chove muito, quando arrumo a vida, quando sorrio e quando choro, eu penso nela: o que era ruim fica bom, o que era bom fica melhor. E o medo desaparece.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Em breve (dizer “Deus sabe quando” seria mais coerente com minha agenda), pretendo falar d’O Cabotino, de Paulo Polzonoff Jr., livro que, por tratar — à sua maneira — de produção e crítica literária, tem muito a ver com Os Viralata. Por isso (e por muito mais), quero e preciso falar a respeito. Mas antes — à guisa de pura enrolação —, vou começar expondo o que penso sobre um dos aspectos da crítica, literária ou não, e da nem sempre aparente aleatoriedade do que seja o gostar — ou não — de uma obra. O próprio Polzonoff já escreveu sobre isso, e quem já leu o mesmo livro várias vezes saberá entender o que direi.
Como exemplo, trago aqui minhas repetidas leituras de Bichos, volume de contos de Miguel Torga que, além de ser representativo na sua produção, seja talvez sua obra mais mal batizada: quem chamou sua autobiografia de “A criação do Mundo” não pode se permitir deslizes. Vá lá, talvez não seja possível ser sempre genial.
Ora bem, da primeira vez que li Bichos, enchi-me de emoção. Tinha lá meus quinze anos, andava sempre bêbado, nervos à flor do couro, e tudo o que tivesse sido concebido para emocionar — mesmo que minimamente — era capaz de me fazer passar por convulsões de alegria, ódio, ternura, tristeza, ou tudo ao mesmo tempo agora. Torga chegou e instalou-se como um de meus grandes e preferidos escritores. Definitivamente, Torga é bom. Vinte anos depois, li o mesmo livro pela segunda vez. Menos hormônios, nervos já um tanto ressequidos, revoltei-me: Torga era chato, piegas, ranhoso, chorão. Um saco. Como pude ter gostado de semelhante porcaria? Definitivamente, Torga é péssimo. Dez anos mais tarde, em terceira leitura — e, diga-se, ainda intrigado pelas minhas opiniões divergentes a respeito do mesmo objeto de análise —, investi novamente sobre a obra: e ouvi música, senti a poesia, a emoção, percebi o domínio da técnica combinado à necessária transgressão da norma. Literatura da melhor qualidade. Definitivamente, Torga é grande. E é isso que penso sobre ele. Agora. Até ontem. Porque enquanto aguardava as novidades que os próximos dez anos pudessem me revelar, mexendo nas velhas fitas de vídeo, encontrei isto:
São cinco minutos tirados de um documentário realizado pela extinta Rede Manchete — Viagens às terras de Portugal — nos idos de 1987. Da primeira vez que o vi, o que me ficou na lembrança foi um Torga bruto (brutal?), um sujeito áspero, fruto torto e espinhoso de Trás-os-Montes, região bela e pouco menos (talvez mais) inóspita que o nordeste brasileiro, povoado de personagens instigantes — assim como qualquer canto, basta que se saiba olhar e transcrevê-los. E eu gostava dessa lembrança.
No entanto, revendo-o ontem, confesso, fiquei um tanto decepcionado (de novo?). Pois é. Visto com os olhos de hoje, presbíopes, Torga me soa meio bobo. Um homem com a carreira dele — 37 livros, pela lista da Wikipedia, entre ficção, poesia e teatro — não precisava se desfiar em explicações sobre a crueldade que reserva para si mesmo (ou, ao menos, não sorrir quando dissesse isso, para não perder a credibilidade), nem do verismo (adorei a palavra, bem melhor que a “verossimilhança” que usamos aqui) que norteia sua escrita, nem ter esse tique maldito — “realmente, não é verdade?” — e repeti-lo a cada três palavras. Ou então não é nada disso, e tudo é apenas minha proverbial implicância, o absurdo grau de exigência que dirijo aos que admiro. Também sou cruel com os que amo. Mas não sorrio enquanto sou.
O que concluo? Bem: que a qualidade da literatura de Torga — ou de qualquer artista — depende do meu humor e da minha capacidade e interesse de entendê-lo e gostar dele, mas, principalmente, que não se deve misturar autor e obra, sob o risco de gostar a mais ou a menos do que se deveria (não) gostar, e acabar gostando incondicionalmente dos poemas escritos pela namorada, dos quadros pintados pelos filhos, da casa horrorosa em que se foi criado, só porque foi projetada e construída pelo pai.
E O Cabotino, de Paulo Polzonoff Jr.? Ora, o próximo post é serventia da casa.
O que mais me impressiona é que ainda tem gente que lê o que eu escrevo, ao menos aqui. Que coisa!

Ando meio chateado com essa história de blog, e chateado é a palavra certa: estou achando tudo muito chato. Não só o meu: todos. Não só escrever: ler, também. Aliás, ler blog é coisa que nunca fiz direito. Nunca fui cliente de blog nenhum. Leio um aqui, outro ali e — dependendo do que descubro, dependendo da época, dependendo do tempo disponível — fico mais ou fico menos. Canso logo, o saco enche, e eu vou procurar outra coisa pra fazer.

Coisa pra fazer é o que não me falta. Os Viralata dá um puta dum trabalho. Ótimo. Dá tanto trabalho que acabo não fazendo tudo o que precisaria fazer para manter a agenda em dia. Agenda em dia é uma coisa que não tenho há anos. Uns vinte.

De uns tempos para cá, ando buscando — cada vez mais — o simples. O que é o simples? Ora, a pergunta contém a resposta. O simples é… o simples. Nada mais simples. Em cada atitude, em cada gesto do dia, vou buscar a opção mais simples. Lembrar de fazer isso em cada gesto, em cada atitude do dia, tá bom, pode não ser muito simples. Mas estou me acostumando.

O filósofo disse “o certo é o fácil”. Legal, esse filósofo. Mas eu não disse “fácil”. Disse “simples”. E nem sempre o simples é muito fácil. Comer, por exemplo. Comer fácil é ir na pastelaria que tenho aqui perto — sensacional, diga-se —, encher o rabo de pastel. Mas, depois, não é fácil aguentar a azia. Sai caro comer fora, mesmo que seja numa pastelaria. Ou padaria. Até mesmo na barraquinha de yakissoba que tem em frente à pastelaria. Sim, este é um bairro com pendores orientais. As pizzas, aqui, são de mussarera. Nada simples de se pronunciar.

Prefiro comer simples. Comer simples, na minha interpretação, é comer em casa. Para comer em casa, é preciso fazer a comida, o que não é muito fácil. Comecei comprando um fogão novo. Um fogão simples. Quatro bocas, forno sem estufa, bem simples. Meu dia passou a ter duas horas dedicadas à cozinha. Meu domingo agora inclui uma ida à feira. Eu gosto, me sinto bem naquele manicômio de gritos e cheiros e cores e carrinhos passando por cima do meu pé. É simples. Gosto da mulher das batatas, que me chama de “meu bem”; gosto da barraca dos temperos, e de cheirar as caixinhas em série, perguntando à vendedora o que está nas caixinhas que o nariz não identifica; gosto de ver a japinha de aparelho nos dentes e camiseta preta ajudando o pai na barraca de verduras; gosto de olhar os pés de acelga e me prometer que, dia desses, ainda compro um. É simples, mas não gosto disso tudo só por isso. Gosto porque é de verdade. A verdade está ali, pelo meio das barracas, na bacia do cego que vende limão, no “meu bem” da batateira, debaixo de um tomate, no olhar triste da preta que vende morcelas. Ótimas morcelas.

Mas eu falava de blogs. Ando meio assim com eles. Não sei mais para que prestam. Simples assim.

Vai passar nessa avenida um samba popular. Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar ao lembrar que aqui passaram sambas imortais, que aqui sangraram pelos nossos pés, que aqui sambaram nossos ancestrais.
Num tempo, página infeliz da nossa história — passagem desbotada na memória das nossas novas gerações — dormia a nossa pátria mãe — tão distraída — sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações. Seus filhos erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes, erguendo estranhas catedrais. E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chamava Carnaval, o Carnaval, o Carnaval. Palmas pra ala dos barões famintos, o bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do boulevard. Meu Deus, vem olhar! Vem ver de perto uma cidade a cantar, a evolução da liberdade, até o dia clarear!
Ai que vida boa, o-le-rê, ai, que vida boa, o-la-rá, o estandarte do Sanatório Geral vai passar!

Acho o Carnaval um saco! Mas esse samba é foda. E chega! Não falo mais de Carnaval! Aliás, não tenho falado mais de muita coisa. Mas eu volto. Depois do Carnaval.