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Estréia dia 11 de abril.

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Faz mais de mês que o tio aqui deu entrevista pro Laboratório de Leitura, e não disse nada. Absurdo, eu sei. Mas agora vai, tô falando: entrevista comigo no Laboratório de Leitura, iniciativa tocada por Diego Franco, sujeito simpático e inteligente, sangue bom e novo pra misturar nessa baba aguada que circula hoje no meio literário. Vai lá ouvir. De quebra, você ainda leva Daniel Galera entremeado à minha entrevista (ou eu entremeado à dele, sei lá). Som na caixa, fofa.
E tem mais: já leu a B2B Magazine deste mês? Atendendo ao gentil convite do Marco Aurélio (ele mesmo!), escrevi minha opinião sobre os filhos da puta que fazem powerpoints com o único intuito de embelezar os dias, inundando minha caixa postal de merda como uma fossa entupida, mas é claro que não usei esse palavreado lá. Quando o texto for pro site da revista, eu dou o link. Por enquanto, vai pra banca. Fofa.
Sempre que estava frente a uma novidade, algo interessante, uma nova possibilidade, sentia uma pontada, um frio na barriga. E isso instigava-o. Um dia, sentiu a pontada, o frio na barriga mas, aparentemente, não havia motivo para tanto. Pensou a respeito, perscrutou as sensações, insistiu. Cagou-se todo.

“No futuro, todos serão famosos para quinze pessoas”.

Se você é “das novas” (em oposição aos “das antigas”, como eu), além de estranhar o aparente erro de concordância no título, ainda não deve conhecer os cabras. Quer dizer, conhece mas não sabe que conhece. O Maurício Pereira (o de chapéu esquisito) lançou excelentes discos e tem aparecido em locuções de comerciais, o que não significa que esteja fazendo só isso. Já o André Abujamra (o de chapéu esquisito) fundou o Karnak (assunto que fica pra outro post) e é trilheiro porreta, entre outras coisas.

Dá uma olhada nisso e, se for a primeira vez que os vê/ouve, faça como todo mundo que não os conhece: perca-se no humor, na cenografia paupérrima, na… — como dizer? — …coreografia. Repare que tudo não passa de duas vozes, dois instrumentos e uma bateria eletrônica. Atordoe-se, inebrie-se com o tosco e, enquanto isso, deixe o sub-você (pra não chamar de “alma”, que soaria esotérico) perceber o brilhante por dentro do pedregulho. Das outras vezes que ouvir, pode apostar, você verá tudo: o brilhante e o pedregulho.

Não sentiu? Tudo bem. É uma pena, mas é assim mesmo.

Adoro quando acontece (fico mesmo esfuziante) quando apareço numa lista como esta, e tão bem acompanhado. Dá até a impressão de que eu tenho alguma importância na blogosfera, não dá?

A certa altura da vida, começamos a achar que nossa cama é o universo, nosso quarto, o planeta, nossa casa, o país, nosso bairro, a cidade. O que isso significa? Ora, a certa altura da vida, a gente começa também a escrever muita besteira.

Ando recebendo uns spams muito estranhos, com títulos num estilo meio ABNT. Coletei alguns pra colar aqui:

• Inspetor de Conformidade das Instalações Elétricas de Baixa Tensão de acordo com a NBR 5410
• Normas Técnicas Brasileiras para Transporte de Produtos Perigosos
• Formação de Auditores em Sistemas de Gestão Integrados
• Armazenamento de Líquidos Inflamáveis e Combustíveis
• Transporte – Normas, Regulamentos e Informações Indispensáveis para o Setor
• Proteção contra os efeitos das Descargas Atmosféricas sobre Estruturas e Equipamentos de T. I. segundo as Normas Brasileiras

Por onde anda o bom e velho “Enlarge your penis”? Acabou? Tá todo mundo servido de pinto?

Outro dia, lendo o blog do Polza (agora em nova embalagem, já foi ver?), encontrei um texto em que ele falava da horta que havia resolvido plantar em casa — e “casa” é maneira de dizer porque ele, assim como eu, mora em apartamento. No tal texto (cujo link não consigo encontrar porque o post sumiu na enxurrada — o cara escreve feito um coelho), o rapaz ressalta, além do prazer sentido ao comer sua própria salsinha, os valores que anda aprendendo com a tal horta e com seu cultivo. “Que coisa!”, pensei eu, “encontrar este texto bem no dia em que decido fazer uma horta no apartamento”. Sincronias, sintonias, sei lá, mas os indianos (ou algum povo daquelas bandas, todos pródigos em interpretações irreais da realidade) acham que as idéias são coletivas, flutuam por entre nós: uns sentem algumas, outros não; outros sentem outras, alguns não. Como um peido na praia.

A idéia — a minha e a dele — pode ser a mesma mas, sobre as hortas que dessas idéias brotam, diferenças há, é claro. Começa que a dele já existe, a minha não. A minha faz parte de um grande, enorme projeto de agricultura sustentável que, por força de toda a sua complexidade, teve que começar anos antes de eu sequer pensar na aquisição de qualquer semente. À parte o pé de manjericão que já viceja (e que já temperou muito molho de tomate), e de três caniços de feijão-rajado que plantei por piedade de alguns heróicos feijõezinhos que deram pra brotar dentro de suas vagens, minhas instalações hortifrúticas ainda não passam de uma composteira e de alguns vasos empoeirados.

Sim, uma composteira. Não há horta sem compostagem. E sou de uma família de tradicionais compostadores. Meu pai sempre compostou, e compostava muito bem. Minha mãe, até hoje, se descuidar, composta. E não fosse o fato de você sequer imaginar o que isso significa, eu poderia continuar o texto. Está bem: compostagem é o processo que transforma resíduos orgânicos em húmus. Em outras palavras, é o jeito de transformar lixo em adubo. E é lindo, acredite. Você joga num barril toda a porcaria que produz na pia da cozinha, espera uns dois meses, e retira de lá um maravilhoso composto orgânico (daí o nome), escuro como seu passado e de alto poder nutriente para as plantinhas de sua horta. Entenda por “toda a porcaria que produz na pia da cozinha” as cascas, talos e folhas de frutas, verduras e legumes, cascas de ovos, borra de café e mais alguma coisa assemelhada que desejar adicionar. E vá seguindo as instruções e seu instinto. Compostar também é uma questão de instinto: se estiver seco demais, adicione água; se estiver molhado demais, adicione terra ou serragem; se a composteira esquentar, você está no caminho certo; se feder, você errou alguma coisa, mas sempre haverá jeito de consertar. E a minha fede! Fede como seiscentos diabos saídos de um ônibus Manaus-Florianópolis (via Bogotá). Puta merda, o que aquilo fede! Não fosse a piada pronta, chamava o barril de combosteira.

Mas como as idéias estão no ar — assim como as drosófilas que pairam sobre minha composteira que, por causa delas, está seguramente coberta por um pano —, encontrei hoje no Guindaste da Carol Costa um link pra matéria dela na Bons Fluidos (nome que não deixa de ter certa graça, se considerarmos o assunto) que trata, justamente, de como NÃO ter uma composteira. A dela não fede, mas virou um berçário. E já grudou no chão. Mais um pouco, vai dar pra plantar um filme de terror. Tadinha da Carol, onde ela foi se meter…

E você? Quer dar uma compostadinha? Querendo experimentar, comece por aqui. Junte-se a nós. Se a idéia pega, em pouco tempo pode até rolar um meme.

Atrás de mim, na fila, o homem resmunga baixinho:

— Caralho, puta merda…

Disfarçando enquanto coço um olho, viro-me para o sujeito, a ver do que se trata. Ele mira irritado seu celular enquanto aperta-lhe as teclas com força, como se isso fosse empurrar sua ligação mais para dentro dos circuitos e, talvez, fazê-la completar-se. Não sabe ele que, por algum motivo, os telefones não funcionam direito dentro da agência do correio aqui do bairro. Ou é o concreto das paredes, ou a baixada onde fica a loja, qualquer coisa ali faz com que o sinal caia pela metade quando está bom, e a zero quando está ruim. Dois passos fora da loja, o mundo é seu pelas despenadas asas de sua operadora; dois passos dentro, e você está emparedado vivo.

— Mas que porra de um caralho… — continua o homem, cada vez menos baixinho. E eu quieto. Eu sou assim, quietão.

— Pra puta que o pariu, que celular de merda… — segue ele, tateando em busca das palavras mágicas que o libertarão da danação do silêncio eterno.

A fila anda e, dois passos à frente — e ao acaso — a ligação se completa:

— Mãe? — grita animado — A bença, mãe! — grita mais ainda, deixando a nós (eu e a fila) perplexos com tamanho respeito e religiosidade.

— Tô aqui perto, mãe! Tem almoço pra mim?

Pronto, está tudo explicado: era fome, coitadinho. Boca suja do caralho.

Tenho — ou tinha, como há de se ver adiante — um vizinho muito… como dizer?… peculiar. Quando mudei-me para cá, há nove anos, era capaz que ele ainda não andasse pelos trinta. Sempre foi — ou é, como saber? — cordial e sorridente, e nunca combinou com o monstro que levava pela coleira, um rotweiler medonho, enorme e cabeludo, que, disse-me um dia, trouxe de uma viagem à China. A fera chinesa, em todas as vezes que a encontrei pelo pátio do prédio ou pela rua, não perdia a oportunidade de me assustar, fosse com um rompante, um pulo na minha direção, um latido vindo das profundezas do inferno. Não sou de me assustar com cães, gosto deles, e eles, em contrapartida, tratam-me com toda a civilidade de que dispõem, conforme o cão e suas qualidades. Mas aquilo não era propriamente um cachorro. Era um rotweiller chinês com genes de dragão atavicamente adquiridos, e eu, sempre que o via passar com a boca cheia de baba e os olhos de vidro pregados em mim antevia o momento em que teria que matá-lo a tiros em represália a um ataque que ele certamente desferiria contra um de meus filhos.

Apesar do cão, este vizinho era — ou é —, entre todos, o mais agradável, o mais delicado. E o mais esquisito. Quando mudei para cá, ele dava aulas de luta greco-romana a uma tropa de adolescentes. No pátio do prédio. Depois, começou a adestrar cães alheios, e que ninguém me pedisse referências porque eu, certamente, daria as piores: aquele monstro na outra ponta da corda atestava sua incompetência no mister. Pouco tempo depois, parte das noites começou a ser preenchida com um estranho ruído, uma pancadaria surda, bum… pausa… bum… pausa… bum…, todas as noites, todas as noites. Não sou o tipo de sujeito que sai por aí a perguntar, mas sou capaz de passar meses conjecturando a respeito do que me incomoda, investigando e anotando fatos e atitudes que, talvez, um dia, encaixem-se e resolvam um determinado mistério. Quando, lá pela terceira vez, o vi pela janela a carregar paralelepípedos da rua para dentro de casa, logrei adivinhar o que acontecia e que, realmente, estava acontecendo: o maluco tinha dado pra quebrar pedra.

Certa noite, quando o encontrei chegando com quatro dos pedregulhos debaixo dos braços, e lhe perguntei se havia resolvido trocar o piso do apartamento, ele sorriu e respondeu:

— Não, não. É pra quebrar.

Diante de minha fingida perplexidade — eu tive que fingir, por já haver descoberto a coisa toda com minhas deduções —, ele abriu a porta do apartamento e mostrou-me a ferramenta que usava na função: uma barra de ferro maciço, achatada de um lado e com uma bola de pano sujo na outra ponta, algo como uma chave de fenda com metro e meio de comprimento. Segundo relatou, encostava o paralelepípedo no rodapé da sala, segurava a chave de fenda pela bola de pano, e socava-a pedra adentro feito lança, às pancadas, até que o tarugo se partisse em dois pedaços, o que, ao invés de encerrar o trabalho, duplicava-o, pois ele passava a ter dois meios paralalepípedos a quebrar. E assim por diante, seguia em busca do átomo de paralelepípedo, ou até que nós outros dormíssemos. O que acontecesse primeiro. Para comprovar que aquilo dava trabalho — como fosse necessário — mostrou-me as mãos: eram dois calos com cinco dedos cada, todos recobertos de calos menores, tudo amalgamado à ferrugem da lança. Já vi tumores mais bonitos.

Por mais estranho que pareça este vizinho, garanto que, entre todos, é — era? — o mais cordial e sensível. Uma vez, apareceu com uma gata no bolso do casaco, filhote escangalhado pelo frio e pela fome, que ele tinha encontrado na noite do parque, à deriva e à espera da morte. Como se não bastassem os olhos a pular para fora da cabeça, o pêlo carcomido de sarna e os incontroláveis tremores de desnutrição e medo, a gata ainda exibia — ou melhor, não exibia — uma das pernas traseiras. Tirou o bicho do bolso, mostrou-mo e, como se respondesse ao meu olhar incrédulo, disse:

— Imagine se eu deixo essa coitadinha no parque! Se sobrevivesse, ela se tornaria uma gata muito má. — e foi para dentro do apartamento, atrás de um pires de leite.

Verdade seja dita, a gata hoje é linda, mansa, e só não abre as pernas a todos os gatos da vizinhança porque não as tem.

Há tempos, passei a encontrá-lo apenas à noite, fosse entrando, saindo do prédio ou andando pelo bairro. Nessas ocasiões, carregava uma espécie de mochila, um trambolho que lhe ia do alto da cabeça — atado a ela — até a altura dos joelhos: um caixote pouco mais estreito que uma geladeira e que, a julgar pela sua expressão ao carregá-lo, tão pesado quanto uma. E mesmo durante tão desconfortável atividade, se me via, cumprimentava-me. Rápida e contidamente, é verdade, mas cumprimentava-me. Parecia que treinava para alguma coisa, sei lá.

As estranhices eram tantas, que eu já nem ligava mais. Ficava só esperando a próxima. Por essas e por muitas outras, dei-lhe o secreto — e, acredite, carinhoso — apelido de Forrest Gump. Mas Forrest… sumiu. Não o vejo há meses e, cada vez que me lembrava disso, preocupava-me. Por onde andará? Andaria? Anda?

Pois então: anda! Fiquei sabendo por outro vizinho que ele arranjou um “patrocínio” (palavra do vizinho) e saiu pelo mundo. Andando. Espero eu que sem a geladeira às costas.

Go, Forrest, go!