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Então. Nada especial, só o de sempre: Bahia, acarajé, brisa na varanda, sarapatel, sombra, abará em casa de Auta Rosa, uisquinho, mais brisa (que ninguém é de ferro e, portanto, derrete), velsar e revelsar na varanda de Maria Sampaio, coçando o papo de Brigitte. No dia seguinte, tudo de novo, mas tudo diferente: acarajé vira rabada, abará vira moqueca, uisquinho vira cachaça. Mas a brisa é a mesma.

Três ‘plus a mais’: Sr. Franciel Cruz Credo, Alan Miranda e Paloma & seu Pedro José, que é argentino, mas tem a alma branca. Alguém mais? Estudo convites. Só não me venham com praia e axé, que eu já vou logo mandando. Cartas para a redação.

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Tinha medo do escuro. Um dia, ficou cego. Passou.

Raramente eu compro música. Eu baixo. Esse meu disco novo, meus quatro outros, e os dois do Mulheres [Negras], quando eu tô com meu computador ligado, eles estão disponíveis no eMule.”

Agora é esperar alguém chamar o Maurício Pereira de “Zé das couves”.

Dias atrás, li este post do Marco ao Léu e, mais uma vez, discordei. Digo ‘discordei’, mas o fiz em silêncio, e observo que foi ‘mais uma vez’ porque ele toca no assunto a toda hora e eu sempre discordo. Daí, me resolvi a escrever este post, mas só agora tive paciência de ir procurar as informações que sabia ter mas não imaginava em que pasta estavam. Achei. E conto a história.

Galopava o ano de 2001. Eu fazia parte de uma ‘e-oficina’ de criação literária sob a coordenação de João Silvério Trevisan, patrocinada pelo SESC-SP. A coisa funcionava mais ou menos assim: dez sujeitos numa sala de chat, sob olhar e ordens de Trevisan; três meses corridos com três encontros semanais com duração de duas horas cada; apresentavam-se alguns dos textos, escritos pelos participantes, segundo um tema apresentado anteriormente; todos criticavam todos os textos, incluindo o coordenador; conforme as opiniões, o circo pegava fogo. Era cansativo e enervante (quem me visse voltar pra cama depois das reuniões pensaria que eu tivesse chegado de uma briga num bar, não de uma sala de chat), mas foi a única experiência realmente proveitosa que fiz no assunto: se aprendi muito sobre escrever, aprendi mais ainda sobre os motivos de escrever, coisa mais séria.

Numa das noites em que nos reunimos, o texto a criticar era um diálogo muito bem construído por um escritor de Teresina em que, numa das falas, uma personagem dizia algo como ‘barriga lisinha é coisa de veado‘. Eu (e minha boca grande), na hora de colar no chat a crítica que havia escrito anteriormente, nem percebi que a coisa ia desandar ali, depois da minha frase final: ‘O diálogo é ótimo. O [autor] segurou a veracidade de ponta a ponta. Gostei muito. Pra ser perfeito, eu escreveria ‘viado’ ao invés de ‘veado’.

O barraco ardeu. E bastou um outro oficineiro concordar comigo para a horda se dividir em duas, os Pró-Viados e os Veados Até Morrer. Ao final desse mesmo encontro, o segundo grupo (o dos Veados) desistiu da oficina para nunca mais voltar, e os trabalhos tiveram que seguir manquitolando até o final do trimestre.

Pouco importa o que se falou em defesa ou no ataque das duas versões da palavra. É claro que se trouxe à mesa todo tipo de alfarrábio (Aurélios, Houaisses e mesmo os anglicistas infiltrados Webster e Michaelis), é claro que se expuseram argumentos regionalistas (‘no Nordeste se fala assim’, ‘em São Paulo se fala assado’), muitos foram chamados de ignorante (eu, inclusive, fui chamado de ‘ingnorante’ por um oponente), é claro que — mais uma vez — puseram a malemolente Lingüística pra brigar com a engessada Gramática (é impressionante o que essas duas gostam de brigar!). E, é claro, nada disso deu em nada, e todos saíram com seus narizes e opiniões intactos.

No entanto, porradas dadas e levadas, o mais importante foi perceber que a discussão ultrapassava os ambientes regionalistas, gramaticais e lingüísticos. O buraco era, como se viu depois, mais em baixo (ou mais atrás, se você gostar de uma piada besta). Copio aqui uma das ‘falas’ de Trevisan, quando começava a expor sua opinião pró-viado: ‘(…) Além do mais, [escrever ‘viado’] é uma reivindicação de certa parcela da comunidade homossexual. Se a palavra é usada como ‘viado’ [é porque] pede-se visibilidade ao termo. Que os brasileiros assumam a diferença linguística que eles, inadvertidamente criaram. E que se tornou uma marca identitária, pelo menos no caso’.

Trevisan — escritor, jornalista, dramaturgo, tradutor, cineasta e ativista GLBT, além de meu velho amigo — expõe o argumento que os dicionários não têm autoridade para discutir: usar a palavra ‘viado’ para se referir ao homossexual do sexo masculino é reivindicação de parte da comunidade homossexual. Sendo assim, pau no cu do Houaiss (maneira de dizer…), porque, para tratar deste assunto, o dicionário é este.

Roda de homens e mulheres, cabeças baixas, olhos encovados, um misto de cansaço e sucesso na expressão dos rostos ressecados, repletos de aliterações. A sala penumbrosa, cadeiras diferentes umas das outras fazem roda, um quadro enorme de moldura que já teve mais dourado em suas retortas pende de uma das paredes e exibe um Hades gordo e ao mesmo tempo musculoso raptando Perséfone para levá-la àquilo que chamávamos Inferno, mas que, sabemos hoje, não passa de um prosaico subterrâneo. A roda olha o tapete ensebado como se Hades em pessoa gorda e musculosa fosse surgir dali do meio, mesmo na roda não havendo Perséfone que preste para chutar, que dirá para raptar.
Alguém deve tomar a vez, e levanto-me:
— Boa noite. Meu nome é Branco, e eu sou escritor.
— Boa noite, Branco — novenam os outros.
Eu continuo. É preciso dizer o que vim dizer:
— Há um ano que não escrevo um conto — digo.
Os outros aplaudem. Sem animação, mas, ainda assim, é um aplauso.
— Estou limpo — digo, e curvo-me num esboço de sentar.
— Nem um poema? — interrompe-me um vozeirão afetado, viado velho que não publiquei por ser ruim, não por ser viado ou velho, coisa de que me acusou depois da recusa.
— Nem um hai-kai sequer — cuspo-lhe na cara, satisfeito e vingado.
Sigo no sentar, mas sou interrompido mais uma vez:
— E e-mails? Você não tem respondido nem um e-mail? — chia fina e rouca de cigarro uma voz. Eu olho para o escuro de onde veio o grasnido, e entendo: uma senhora velha conhecida, escritora inveterada que, hoje, afastada dos romances e outras prosas por recomendação médica e desespero familiar, insiste em me provocar com powerpoints diários, cheios de flores e outras ofensas, e sei que o faz para tripudiar de mim quando lhe respondesse — por escrito — com os palavrões que merece.
— Nem e-mails — digo à bruxa ressequida enquanto a encaro. Triunfante, continuo:
— E você sabe disso muito bem, moira.
Todos se olham percebendo ali alguma coisa, um revide?, alguma possibilidade de assunto, futuros escárnios. E sigo no sentar, que é incômodo permanecer tanto tempo na posição de quem vai levar um chute, sem levá-lo.
— E posts? Que me diz dos blogs? Nenhum post?
Sinto o sangue esfriar. Reconheço o sotaque de Pernambuco, e sei que agora não é um débil oponente que se acoberta no escuro. Proxeneta das palavras afastado da caneta, o canalha cangaceiro ganha a vida agora a revisar o alheio, a encontrar defeitos nos defeitos dos outros, a encher papéis de bolas e riscos a caneta vermelha. Sei bem o que o faz fazer isso, ele é como o ex-alcoólatra que conserva em casa o armário das bebidas, apenas para limpar diariamente as garrafas a flanela, sentir seu poder engarrafado, transmutado em álcoois coloridos e, no caso dele, cheios de bolas e riscos vermelhos. Mas o filho da puta não ia me derrubar com um risco só.
— Nem um sequer. Pode ir lá ver. Os blogs estão no ar.
— E este post? Que me diz deste post?
— Que post? — balbucio, antevendo o desastre.
— Este, homem! Este post! — grita.
Veio o chute, afinal. É verdade. Sou um fraco. Dia desses acabo escrevendo um romance. E, pior: sem querer. Nunca estarei limpo.