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Era tão fiel, que só se masturbava assistindo ao mesmo vídeo pornô.

Era feio, mas esperto: cercou-se de mulheres míopes.

Chamava-se Ceci. Era linda, delicada, tinha longos cabelos lisos, olhos verdes e um rosto muito branco. Eu a via andar pela casa como se a casa lá não estivesse, e penso hoje que não estranharia se, um dia e sem aviso, ela atravessasse uma parede ou brotasse de uma porta fechada. Era como um fantasma, a imagem mais próxima que consigo fazer de um anjo da guarda. Ceci não ria e nunca estava séria: sorria. Nunca a vi em hora que não estivesse sorrindo. Sorria o sorriso dos que entendem. Sentava ao nosso lado e nos assistia como se fôssemos um filme. Não falava conosco, mas seu silêncio não dizia que não merecíamos suas palavras. Ela apenas nos assistia, nós éramos um filme, e era como se nós também não estivéssemos ali.

Quando alguém queria tratá-la com respeito, lograva dispensar o apelido e a chamava de Cecília. Ela não se importava com isso. Sequer tomava conhecimento: era completamente surda.

Foi bater às portas da morte, para descobrir depois que vinha com o endereço errado.

O corpo negro e grande de um velho rei d’Angola, os braços pálidos de um senhor de engenho: vitiligo.

Tinha medo do escuro. Um dia, ficou cego. Passou.

Ele se gabava de ter o corpo fechado. No entanto, abria a bunda com freqüência.

Ele dava muito valor ao esforço. Tinha prisão de ventre. E um cofre cheio de merda.

Ele falava de perto. Começava a falar, e chegava perto. E mais perto. A princípio, apenas se inclinava um pouco, mas como, invariavelmente, o outro desse um passo atrás, ele dava um passo à frente a compensar. Num corredor, a conversa começava numa ponta, terminava na outra.

Ela enxergava mal, muito mal. Sem os óculos grossos — muito grossos — era quase cega, só via borrões. Um dia, conheceram-se. Casaram-se em pouco tempo: ela, com o primeiro que conseguiu enxergar; ele, com a primeira que não fugiu.

Dizia que era vegetariana, gabava-se de nunca ter posto carne na boca. No entanto, chupava um cacete que benzadeus. Era fome, coitadinha.

Quando Seu Naná, o bêbado da vila, foi encontrado morto, a cara na poça d’água da sarjeta, passado o susto, todos riram. A autópsia que alguém se lembrou de fazer revelou morte por afogamento, o que fez com que todos rissem mais uma vez. Riram ainda mais quando, mexendo nos papéis dele, descobriram que se chamava Narciso. A vida é uma festa.

Na van-preta estacionada, a família classe-média-pequeno-burguesa espera alguma-coisa: o pai saco-cheio-um-dia-sumo-daqui, a mãe não-sou-puta- porque-não-posso, o filho qualquer-dia-mato-um-deles-a-facadas, a filha sou- tudo-o-que-mamãe-não-pode-ser. No bagageiro, o beagle-filhote lambe o vidro por dentro, tão feliz, que faz o resto valer a pena.

Mendigo, andava sempre aos berros pela rua — vem aqui, filho da puta, sai de cima do jacaré! —, apontando o dedo para ninguém, encarando olhos invisíveis com um ódio líquido, quase palpável. Algumas crianças tinham medo dele, outras jogavam-lhe coisas, os adultos olhavam para cima e davam de ombros. Não passava três dias sem que tomasse uma dura do guarda e, vez por outra, quando era encontrado mais bêbado que o permitido, ia ver o delegado. Chegou a ser ameaçado de expulsão da cidade.

Um dia, virando o lixo, encontrou a carcaça de um celular, escangalhado, sem bateria nem nada. Mudou de vida: passou a berrar ao telefone — pirata é o caralho, cadê minha bicicleta?

Hoje ninguém mais lhe presta atenção.

Sempre que estava frente a uma novidade, algo interessante, uma nova possibilidade, sentia uma pontada, um frio na barriga. E isso instigava-o. Um dia, sentiu a pontada, o frio na barriga mas, aparentemente, não havia motivo para tanto. Pensou a respeito, perscrutou as sensações, insistiu. Cagou-se todo.

Em Santo Amaro da Purificação
Alguém, um dia, encheu-se dos modos do cachorro — que roía, quebrava e mordia tudo o que lhe passasse pela boca — e resolveu livrar-se dele: enfiou-o no carro, levou-o pra bem longe e lá o deixou.
Três dias depois, o pobre reaparece — roído, quebrado e mordido —, esgravatando a porta com as unhas. O dono deixou-o entrar. Na manhã seguinte, conta o caso à empregada.
— Ele veio a pé? — pergunta a mulher, espantada.

Em Salvador, pelo interfone
— Seu Chico, um de nossos canários fugiu. Se o senhor encontrá-lo aí em baixo, poderia pegá-lo?
— Claro, dona. Mas me diga: ele fugiu com ou sem gaiola?

Num posto médico
— Doutor, eu tenho um sangramento que não pára.
— A senhora já está na menopausa?
— Estou, sim senhor.
— A senhora tem relações com seu marido?
— Tenho, sim senhor.
— A senhora tem orgasmo?
— Tenho não. Acho que meu plano é Unimed.

Ela detesta camarão, lula, arroz, mas passa a tarde na cozinha, limpando camarões para fritá-los à Paulista, esvaziando lulas para refogar num tempero verde e perfumado, medindo a água cuidadosamente para que o arroz fique soltinho. Esfalfa-se na cozinha, retardando os engulhos que sente a toque de muitos copos de um bom tinto, preparando comida que não gosta.
Depois do jantar, ele se vinga: abre as calças, vai pro sofá e dorme. Ela corta as bolas dele e as frita. Com batatas, muitas batatas.

O vagão ia parando, e eu andava a seu lado na direção contrária, calculava os passos para estar em frente a uma das portas quando todas se abrissem, e reparei nela através das janelas: sentada, uma já passageira vinda da estação anterior, e um olhar desconfiado em mim, quase irritada. Não, nada disso. Era séria. Não se pode ser sério, que sempre aparece um chato a nos chamar desconfiado, irritado. Ela era apenas séria, e digo ‘apenas’ como se ser sério fosse pouca coisa. Entrei e sentei-me num lugar qualquer, tirei a carteira do bolso de trás, juntei-a ao celular, ajeitei-me no assento, o vagão apitou, fechou as portas e seguiu. Próxima estação, Paraíso.

Lembrei-me então de olhar de novo para ela. Não tinha nada de bonita, e nem por isso eu poderia dizer que era feia. Dada a posição de seu assento, só lhe via a metade direita, ou nem isso. Via um cabelo preto e liso, cuidadosamente cortado para parecer descuidadamente despenado. Um braço forte, quase gordo, talvez gordo e forte, como o braço de uma menina gorda que tivesse ido fazer ginástica para diminuí-lo, o tiro tivesse saído pela culatra, tudo tivesse diminuído um pouco, e ela agora tinha o braço mais forte e gordo do que antes. Uma camiseta preta sem mangas lhe esganava o ombro, acentuando ainda mais o calibre do braço. Uma calça cor de laranja cheia de bolsos, dessas que os alpinistas vestem quando querem se perder nas montanhas, e uns calçados quaisquer que nem reparei como eram, mas, descalça, ela não estava. No colo, uma mochila preta, cheia de penduricalhos agarrados, coisas. Próxima estação, Brigadeiro.

A certa altura, enquanto eu reparava nela, chicoteou a cabeça e me encarou, irritada. Lá vou eu de novo, irritada, não, apenas séria. Não baixei os olhos porque não tinha outras intenções, não havia do que me envergonhar, e ela voltou a cabeça para a frente um segundo depois de a ter voltado para mim. Espiei o esquema das estações sobre a porta do vagão, a ver quantas faltavam até meu destino, e comecei a ouvir, por entre a zoeira do vagão em disparada, um plim-plim metálico, um batuque de ferro com ferro, e procurei de onde vinha o barulho para encontrar a tal menina em seu lugar, sentada de lado no seu banco, de forma a deixar claro que levantaria em breve, batucando, feliz — séria, mas feliz — no cano mais próximo com alguma coisa metálica que tinha na mão, uma moeda, um parafuso, não se via porque estava preso à palma da mão, e isso não tem a menor importância.

O que importa, e foi isso que me espantou — próxima estação, Trianon-Masp — é que todos os passageiros que estavam ao alcance do seu batuque e o ouviam, olhavam para ela com olhar de reprovação. Era como se fosse proibido externar felicidade ao se perceber que nossa estação vem chegando. Era como se fosse impossível deixar de dirigir uma expressão de desagravo a qualquer mutante de calças cor de laranja e braços gordos que tenha o desplante de batucar nos canos sagrados. Ou era — e lá isso era mesmo! — como se as pessoas interessantes tivessem que ser anuladas rapidamente, antes que conseguissem perpetrar suas maneiras de ser e, quiçá, suas idéias, se por acaso as tivessem.

O trem parou, ela desceu, os olhares se dissiparam, e eu fiquei no meio daquele monte de gente mesma. Próxima estação, Consolação.

Encontrou o perfil de uma antiga namorada no orkut. Deu tanta risada que teve uma isquemia e morreu. Sabia, de antemão, que aquela mulher ainda o mataria. Mas não sabia que seria assim.

Sempre achou que tivesse um lindo e transbordante par de peitos. Gostava tanto deles que nem dava falta dos mamilos que não tinham. Mas um dia, ao acariciá-los por inteiro, por baixo, pelos lados, pelo meio, percebeu que havia um furo entre eles. Era um cu. Concluiu então que tinha andado a acariciar a bunda desde a tenra adolescência.

É uma família de baixinhos e peitudas. Os homens, pai e filho, baixinhos; as mulheres, mãe e filha, peitudas. O pai é o dono da padaria, mas nem por isso é português, apesar de ser baixinho, e de sua mulher ser peituda. A mãe encosta os peitos no balcão e toma café. A filha, no caixa, mostra os peitos aos fregueses, à espera que lhe apareça um baixinho que a queira em casamento ou coisa melhor. O filho masca chiclete e coça o piercing no supercílio. O pão é uma merda.