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Comemorando o estonteante placar de NENHUM e-book vendido versus DUZENTOS livros de papel na praça (e aproveitando este comentário do leitor Netim), vem à luz mais uma edição desta coisa, a quinta, mais revisada, apenas com alguns erros escolhidos a dedo. O preço e o conteúdo são os mesmos de dois anos atrás. Talvez seja a última oportunidade de você ter seu exemplar desta pequena desgraça literária, porque os caras da gráfica já estão fazendo cara feia quando eu apareço por lá.

É só clicar aqui e pedir seu exemplar (15 pila mais correio nacional, um negocião, falaverdade). Como parte da promoção especial, eu ainda incluo um autógrafo fingindo intimidade (®) com o leitor.

(®) Copyright Barão de Itararé

E se ainda lhe faltarem motivos (tem gente teimosa neste mundo!), assista ao comercial:

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Meu primo, meu irmão mais velho, o Lord, lança amanhã, a partir das 15 h (Livraria da Vila, Fradique 915), seu elogiado Sobre o telhado das árvores, com ilustrações de Rosinha Campos. Eu vou. Não perco isso por nada.

Quebra tudo, Cacão!

Sabe aquela piada do cara que telefona pro advogado, e a secretária informa que o homem morreu? Daí o cara liga de novo, e a secretária diz de novo. Daí ele liga de novo, e a secretária, de novo, repete a informação. Na quarta vez, a secretária, já sem paciência, pergunta:

— Mas, senhor, eu já não lhe disse que ele morreu?

O cliente, segurando o riso, responde:

— Me desculpe, dona, mas é que me dá uma alegria tão grande ouvir a senhora dizer isso…

Pois é, isso aconteceu comigo hoje.

Mas eu só telefonei uma vez!

Não sei se falei dele antes. Se não falei, devia ter falado. De um jeito ou de outro — mesmo que, ao pensar em dizer isto, consiga vê-lo abanando a cabeça com um sorriso meio-desdenhoso meio-simpático —, Nicolas Behr é uma das pessoas de maior importância da minha vida literária (se é que tenho uma vida que se possa chamar assim).

Em 1981, eu trabalhava numa agência de propaganda, a Tempo/FCB. Era uma espécie de faz-tudo (laboratorista fotográfico, assistente de estúdio, arquivista da filmoteca, projecionista e motorista da Veraneio), apesar de não fazer nada disso muito bem. Minhas funções, apesar de muitas, eram das menos importantes na agência, tanto que, quando precisaram reduzir a folha de pagamento, fui um dos que saiu a procurar trabalho em outra paróquia.

(Menciono aqui esta pouca importância apenas para mostrar que o caso que narro foi mais um destes bondes aparentemente errados que a vida sempre faz passar pela minha frente, e em que eu, corretamente, embarco.)

Estava eu, então, no escurinho do meu laboratório, quando bateram à porta. Era Jair, chefe da expedição da agência. Trazia um embrulho na mão, coisa pequena em papel pardo e muito bem amarrado com barbante, com o nome de um dos diretores da agência escrito em letra bonita e descuidada.

— Ocupado?
— Nem tanto.
— Não sei o que fazer com isso. É pro Ricardo.

O destinatário em questão era Ricardo Ramos, e o mais estranho que — hoje! — se verifica é que, à época, esse sujeito era apenas um ex-patrão e, coincidentemente, meu professor de Criação Publicitária na ESPM, escola que eu cursava à noite. Mais coincidentemente ainda, Ricardo viria — 20 anos depois, isto é, 11 anos depois de sua morte! — a ser meu tio por afinidade: casei-me com a sobrinha dele. Mas isto é outra história (será?). Prossigamos. E eu pergunto a Jair:

— Não tem ninguém que tenha contato com ele, que possa lhe levar o embrulho?
— Não.
— Não é possível. Tem que haver algum contato. O homem foi diretor desta empresa até outro dia, alguém tem que ter o telefone dele, sei lá.
— Não tem.

Olhei pro pacote. Era deveras atraente, ainda mais pra mim, que adoro pacotes, notadamente os enviados pelo correio.

— E o que eu posso fazer? — perguntei.
— Fica com ele.
— Mas… fico com ele pra fazer o quê?
— Sei lá. Pobrema seu.

Olhei pro embrulho. Pensei que poderia, na semana seguinte, entregá-lo ao homem antes da aula.

— Dá isso aqui, que depois eu vejo o que fazer.
— Puxa, obrigado! — expirou Jair, livre. É preciso entender que, para quem trabalha numa expedição, um embrulho sem dono é das coisas mais graves que pode ocorrer. Cada um com seus pobrema.

Fechei a porta do laboratório e olhei o pacote. Ao Sr. Ricardo Ramos. Endereço. Virei. Nicolas Behr. Endereço. Brasília. Enfiei o pacote na mochila e fui cuidar da vida.

À noite, em casa, limpando a bolsa, tropecei no embrulho. Ao Sr. Ricardo Ramos. Nicolas Behr. Brasília. Abri o embrulho. Meus hoje-primos, hoje-tios e hoje-sogra que me desculpem, mas começava ali a fase mais importante da minha vida. Eu não sabia, ninguém sabia, mas se eu não tivesse feito isso, hoje não seria quem sou, e eles não seriam meus parentes.

O pacote trazia uma dúzia de pequenas coisas: uma carta datilografada para Ricardo, um livro fininho e uns tantos… como dizer?… livrinhos. Eram como folhetos de cordel, impressos em mimeógrafo a tinta. Dentro deles, uma poesia louca, aparentemente descompromissada, muito inteligente e — principalmente — bem-humorada. Os títulos, instigantes: Saída de emergência, Te amo 24 horas por segundo, Entre quadras (Poesia com sabor bem Brasília), L2 noves fora W3 (Poesia pau-brasília), Põe sia nisso!!!, Brasiléia desvairada, etc. Li todos num arranque só e — impossível fazer diferente — escrevi uma carta ao autor. Eu não podia deixar de entrar em contato com a única vida inteligente disponível em Brasília.

Dias depois, recebi a resposta — acompanhada de mais um livro — e o reforço do pedido que entregasse a primeira carta a Ricardo: Nicolas batalhava um emprego numa agência de propaganda em São Paulo. Coitado, que bobagem. Eu, de minha parte, não podia entregar um embrulho rasgado a Ricardo e, pior, correr o risco de perder as vias únicas daqueles livros (que conservo até hoje, como pode se ver na foto acima). Com isso, é capaz que eu tenha interferido no destino de Nicolas, e sentiria vergonha por isso, não fosse estar certo que a interferência foi positiva: ele seguiu seu caminho por lá mesmo, não veio apodrecer em São Paulo, e hoje, além de poeta dos melhores, ainda trabalha na proliferação de espécies do Cerrado, entre outras atividades nobres.

Encontrei-me com Nicolas apenas uma vez, num evento na Livraria da Vila, e foi ótimo poder ver e ouvir o sujeito, meu velho amigo com cara de viking e olhar de criança, doce bárbaro em todos os sentidos, que — sem querer — me pôs na estrada da independência, o cara que foi na frente dizendo “vai por aí, mete bronca, que vai dar certo”. Nicolas, sem saber disso, é o patrono d’Os Viralata.

E então, dia 18 de junho próximo, quarta-feira, a partir das 19 horas, na Casa das Rosas (av. Paulista 37), o candango de Mato Grosso vem mais uma vez a São Paulo, desta vez para lançar seu Laranja Seleta, poesia reunida de 1997 a 2007.

Não perco isso por nada. E se você anda com sede do sabor do raro coquetel de inteligência com bom-humor (se é que já o provou algum dia), apareça.