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  Pode enfiar seus comentários por baixo do post. Volto no ano que vem, isto é, daqui a dez dias.

  Ela tinha um buço enorme e, por isso, quando passava, a molecada na rua gritava “Ó, Manéle!”. Zangada, ela respondia: “Bai pró inferno, bândalo!”.

  Me perguntaram por que mudei de um pro outro. Nada de mais. De um lado, o Blogspot com todas as possibilidades de alteração de template (pra quem sabe mexer nisso, é claro), seu amor pelo Google (que, acredito, influencia no volume de visitas), e um sistema que, das duas uma: ou está sobrecarregado ou é incompatível com meu firewall. A coisa começou a empacar tanto, que eu não conseguia publicar mais nada sem perder um tempão esperando conexão. De outro lado, o WordPress, seu template imexível, compensado por um inteligente sistema de administração de links, uma página de estatísticas de uma pobreza fransciscana, e uma atraente frugalidade no sistema.
Mudei. Comecei a trabalhar mais, escrever mais, e a gastar menos tempo com besteira, incluindo procurar saber quantos eram e de onde vinham os visitantes. Depois da mudança, pude me fazer uma pergunta: se eu tinha tanta pressa, por que perdia tempo analisando tantos gráficos e tabelas? A mim, agora, interessa o que eu faço do lado de cá do blog. Quem são vocês e o fazem aí desse lado definitivamente não é da minha conta.

Eu madagasco
Tu madagascas
Ele madagasca
We like to move it, move it…

  Está me dando uma certa agonia ter um monte de comentários pra responder. Infelizmente, esta não será uma das mudanças neste novo blog. Vou ter que continuar como antes, não respondendo à maioria dos comentários. Mas como comecei embaladão, respondendo a tudo que foi comentado, me sinto na obrigação de, pelo menos, dizer alguma coisa a quem comentou até agora. Mas vai ter que ser em lote. Sendo assim:
1) A quem elogiou, “muito obrigado”;
2) A quem fez comentários que não entendi, “não entendi, explica de novo?”;
3) A quem disse que lincou, “se já não linquei de volta, linco já”;
4) A quem ficou com vontade de ler Raymond Carver, “leia mesmo, depois me conte”;
5) A quem mandou sugestão, palpite, receita, “obrigado mesmo, vou testar logo logo”.

Correria dos diabos. Acabando o livro, arte-final pronta, entra em impressão na segunda-feira. Quem vai querer? Um é quinze, dois é vinte. Mais o frete. Se não quiser pagar frete, pega aqui (não ficou boa essa última frase, precisava reescrever…).
Amanhã tem post novo e mais um Bestiário (ou quase isso).

Basto, espesso
e baço:
Puta buço!

Era tão feliz e animado e contente e satisfeito e esperançoso, que o médico, certo dia, receitou-lhe um depressivo. Aquilo tinha que acabar!

  Há alguns anos, quando eu não era alérgico a ácaros e, portanto, conseguia passar horas num sebo folheando livros sem botar os bofes para fora a cada página virada, encontrei um exemplar que, a julgar pelo aspecto, quase não valia o que pediam por ele, apesar de ser bem pouco. Livros assim são a maioria no meu tipo preferido de sebo, aqueles que juntam espólios com doações com encalhes de editora com produtos de roubo com salvos de naufrágio, e só numa verdadeira barafunda como esta é que eu consigo encontrar verdadeiras pérolas como O poltergeist de Suzano (relato de um complexo fenômeno paranormal ocorrido na mencionada cidade paulista), ou o Repertório Onomástico Brasileiro (com milhares de nomes próprios recolhidos e ordenados criteriosamente, sem apresentação de significado), ou ainda Fique quieta, por favor, de Raymond Carver, numa edição tirada pela Rocco em 1988.
  Se me arrependi de ter comprado o primeiro e desprezado o segundo, o mesmo não aconteceu com a aquisição do terceiro, apesar do pouco incentivo que vinha da capa da obra. Desenhada por alguém com muito mau humor, o amontoado de cliparts sobre fundo amarelo já um tanto desbotado contava apenas com a ajuda do título para que saísse dali e fosse habitar outras menos empoeiradas prateleiras. Tal título, de paradoxal grosseria — que pede “por favor” para que ela “fique quieta” —, atraiu-me de primeira, e é ainda melhor em inglês: Will you please be quiet, please. Penso que tenha sido bastante bem traduzido, visto que o pé-da-letra é no mínimo esquisito. Não conhecia o autor nem de ter ouvido falar, e como a folha de rosto me dizia que, por cinco paus, o troço seria meu, assim foi e é desde então.
  Digamos que Raymond Carver tenha sido não o responsável por eu começar a escrever — porque isso eu já fazia desde muito antes —, mas sim o culpado pela coragem de mostrar aos outros o que escrevia (não, eu não sei explicar melhor a importância de Carver na minha vida). Magnético, o livro fez com que eu entrasse um pela primeira página, e saísse outro pela última. Para quem não o conhece, arrisco um paralelo na pintura: ele é o Edward Hopper da literatura americana. Você também não conhece Hopper? Bem, eu fiz o que pude.
  Quando, depois, acontecia de falar sobre Carver, ninguém, em momento algum, sabia dele, de forma que comecei a pensar que era uma destas bostas que ando pela vida a encontrar, gostar e colecionar. Assim foi até que me apareceu o filho mais velho da minha mulher (eu ia dizer enteado, mas a palavra é feia demais) que, para surpresa minha, havia traduzido pouco tempo antes um conto do homem — Tudo grudado nela — como trabalho de conclusão do curso de tradução. Se ele gostava do conto? Mais ou menos. Se conhecia mais do autor? Nem uma linha. E eu continuava sozinho.
  Nesse meio tempo, acabei por descobrir que, além da mãe de Carver, pelo menos mais uma pessoa gostava dele: Robert Altman, que selecionou contos do autor e os adaptou para o cinema. Deles, saiu Short Cuts, filme que, em português, carrega a cruz de se chamar Cenas da Vida, que também virou livro-do-filme homônimo, e chegou a ser editado em português. Eu não estava mais sozinho: entre os não-parentes, éramos então, no mínimo, eu e Altman a gostar de Carver.
  Outro dia, fiquei sabendo que o filho mais velho de minha mulher (que eu vou acabar chamando de enteado, porque é mais fácil) andou a comprar tudo que era Carver à disposição no mercado. Deu-lhe um estalo, e o petiz arrematou o que encontrou em inglês, porque em português só há os dois títulos mencionados. Leu tudo, incluindo textos em versões diferentes, e professou: o cara é bom pra caralho! Pode não ter sido esta a frase exata, mas o sentido era. Nesse instante, percebi, eu e Altman não estávamos mais sozinhos: éramos três! “We few, we happy few!”, nas shakespearianas palavras de Henrique V que, criteriosamente, não tem porra nenhuma a ver com Carver.
  Daí o Altman, que merda, foi morrer no mês passado. Falta do que fazer, sei lá como explicar a atitude do homem, mas, de qualquer forma, antes ele do que eu (ou meu enteado). Com isso, eu, que estava para escrever este texto há meses, parei. Talvez por falta de quorum.
  Mas hoje resolvi continuar porque percebi que voltamos a ser muitos, isto é, três. Encontrei uma referência a Carver neste post, do Milton Ribeiro, em que ele bota o Fique quieta, por favor na lista de seus Clássicos Desconhecidos, aqueles livros e autores que a gente adora mas que, no dizer do Alex Castro (do LLL) “infelizmente, raios!, o resto da humanidade solenemente ignora“.
  O Alex, em 2005, propôs a criação do Dia do Clássico Desconhecido, idéia que, até onde pude perceber, não chegou a vingar em 2006. Caso vingue em 2007, já fica então este post escrito, porque não gosto de acumular serviço.

Assistia à própria vida como quem assistia a um filme. Um dia, ao acordar, não quis pagar o ingresso, e morreu.
Ninguém, nem mesmo ele, deu por sua falta: era apenas um figurante.

Dois marmanjos conversando, chupando seus sucos de laranja sem-gelo-sem-açúcar:
— Eu recebo muito pauerpóinte.
— Eu também.
— Eu adoro pauerpóinte.
— Eu também.
— Tem uns bonitos.
— É, tem uns lindos.
— Tem uns que eu fico impressionado. São de uma sensibilidade incondicional.
Sensibilidade incondicional… Xingar, não pode, é falta de educação. Dar risada é feio e, além disso, alguém podia achar que o louco era eu. Mas dia chegará em que eu terei meu próprio lança-granadas.

  Branco Leone, caso o distinto leitor ainda não o tenha percebido, é pseudônimo. À beira da pia e sem ser consultado, pasme, recebi o nome de Albano. Com isto, sem saber ou querer, dava seqüência à dinastia iniciada por meu pai e xará. Ser Albano em casa não era, portanto, nenhuma novidade, e igualmente na família como um todo, pois havia Albanos aqui e ali, um tio ou outro, vários amigos. Certa vez, à mesa de um restaurante na cidade do Porto, em Portugal, éramos dez pessoas à mesa: cinco homens — parte do grupo em que me incluo, apesar dos poucos anos que carregava à época — e cinco mulheres. Reparei eu — e só o fiz por ser dessas coisas que, de tão simples, só as crianças são capazes de o reparar —, que os cinco homens eram todos Albano. As mulheres, por sua vez, talvez fossem todas Marias, mas isso já não posso garantir.
  Este caráter corriqueiro do meu nome começaria a se dissipar pouco tempo depois, quando eu entrasse na escola. Do primeiro ao último ano, quando ouvisse alguém chamar por ele, já tinha certeza de que era eu o pretendido, pois nunca, em tempo algum, houve outro Albano ou assemelhado nas classes que freqüentei.
  Pela vida, meu nome tem provocado vários acontecimentos. Já riram dele (“Ah, fala sério, como é o seu nome?”), os menos educados chegaram a demonstrar franca estranheza (“Albano? Que horror!”), e percebo que, desde o primeiro contato com um desconhecido, o simples mencionar da palavra provoca o súbito e incontrolável aparecimento de vários e estapafúrdios apelidos: Alípio, Asclepíades, Aricanduva ou qualquer coisa que comece com a letra a; Rabano, Baiano e outros trissílabos terminados em “ano”; e finalmente, perdido o controle e esgotadas as opções, os mais alucinados enveredam pela mistura das parvoíces, e já cheguei a ouvir Rabílio, adaptação que, nem de longe, se parece com o original. Às vezes, tenho a impressão de que meu nome é um defeito que precisa ser corrigido, e que todos, principalmente os mais amigos, se esforçam por tentar. Sempre agradeço e dispenso o esforço, mas isso de nada adianta: se fui batizado à minha revelia, sei hoje que passarei a vida a ser rebatizado da mesma maneira. Muito divertido.
  Certa vez, numa cidade do interior, fui levado a um restaurante onde trabalhava um garçom que, segundo diziam meus amigos, cria piamente — e enchia o saco de todo mundo por isso — ser o único Albano sobre a face da Terra. Contrariar semelhante estúpido era, portanto, o mote do passeio. Quando o sujeito foi informado de que ali, à mesa, estava outro abençoado, quase caiu do guardanapo que trazia ao braço. Descrente — e, mais que isso, ameaçado de perder a unicidade —, chegou a me fazer mostrar documentos. Tão alienado que estava por seu infundado credo, o cara tinha deixado de perceber — para citar o primeiro que me vem à cabeça — a existência do senador sergipano Albano Franco. Decepcionou-se, e foi bem feito, ele merecia mesmo ver logo dois outros Albanos, eu e meu pai, juntos na mesma carteira de identidade. De outra vez, uma menina chamada Tirsa Egla — que, na ocasião, confessou ser irmã de um John Kennedy —, como não lhe bastassem os exemplos vindos do espelho e do quarto ao lado, disse que achava meu nome “esquisito”.
  Até para me municiar de informação para o debate, ando por aí a colecionar os Albanos que encontro e que têm alguma importância: ao já citado senador, juntei também três personagens de novelas da Globo, o antigo dono da famosa choperia Pingüim em Ribeirão Preto, e o grande poeta português Albano Martins que, coincidentemente, compartilha comigo nome e sobrenome, o que faz com que eu sempre abra desconfiado os e-mails que chegam assuntados “ao poeta” pois, em cem por cento dos casos até hoje, o destinatário não era eu.
  Mas o que mais me incomoda — e talvez seja a única coisa que realmente me incomode nesse assunto — é que agora, por força do uso-e-desuso lingüístico, virei “álbano”, e escrevo a palavra com letra minúscula por achar que isso mais pareça com o nome de um legume, pois não estranharia se encontrasse um filé na chapa com álbanos refogados no cardápio de um restaurante. Mas a proparoxitonização do que é naturalmente paroxítono tem lá suas vantagens: se atendo o telefone e ouço um estúpido a zurrar “senhor álbano”, já sei que é um atendente de telemarketing querendo me empurrar alguma porcaria inútil.
Quando Graciliano Ramos morava numa pensão no Rio de Janeiro, a dona do estabelecimento chamava-o de “Seu Brasiliano”. Dizem que, em certo dia, Rubem Braga, que também morava no lugar, comentou o fato com ele.
  — Pelo aluguel que lhe pago, ela pode me chamar como quiser. — respondeu-lhe Graciliano.
  E é por isso que, neste e em outros assuntos, tento seguir os passos dos mestres. Só falta encontrar quem me pague.

O mundo me agride
e este blog
é o revide

Uma vez que o meteoro demorava a bater na Terra, o dinossauro, ainda mais velho e mais gordo, foi lá e mudou o blog pro WordPress.
Boa noite a todos.