— Opa!
— E aí?

(…)

— Tudo bem?
— Tudo.

(…)

— Chove hoje?
— Ô!

(…)

— Cê tem um blog, não tem?
— É…

(…)

— Faz tempo que você não escr…
— Meu ônibus chegou, vou nessa.

(…)

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Foi bater às portas da morte, para descobrir depois que vinha com o endereço errado.

Numa das primeiras aulas de Marketing que tive (não é preciso me xingar por isso, eu mesmo o faço todos os dias, obrigado), a professora trouxe um causo para ilustrar a aula que, seja ficção ou realidade, foi bem contado e aprendido (tanto, que o estou repartindo agora, vinte e tantos anos depois). Disse ela que, certa vez, uma fábrica de chinelos de borracha resolveu descobrir porque não vendia nada que prestasse na Bahia. Uma pesquisa elucidou tudo: em terras baianas, quem usava o tal chinelo era mulher ou viado. Não se sabe por que, homem que usasse aquilo ficava por lá, para todo o sempre, com a pecha de boiola.

Tentando então aumentar as vendas na região mudando a imagem do produto, a agência se resolveu a um expediente que havia de se mostrar eficaz: contratou um lutador de boxe local, conhecido por seu caráter macho e atitudes violentas, e pôs no ar um comercial em que o tal sujeito aparecia usando os tais chinelos. Com efeito, a imagem foi mudada, porque daí em diante todo mundo começou a achar que o tal boxeador era viado.

Mas o assunto é outro. O Seu Obama chegou animado, foi não? Tão animado que, a cada nova notícia, aumenta meu temor por sua vida. Mataram o Kennedy por muito menos, e olha que o Kennedy era branco. Contrariando o ditado racista, a coisa que o homem mais faz é limpar a merda que o jumento anterior deixou espalhada pelo mundo. Agora, uma semana depois de empossado, o cabra passa a mão no telefone e, já que se anda falando tanto de combustíveis menos poluentes, liga pra Mr. Lula, presidente do país que usa álcool como combustível há pelo menos 34 anos. Esperto, o moço percebeu que não se joga fora 34 anos de tecnologia. Mesmo que seja tecnologia brasileira. O que vai sair disso, não sei. Mas que o homem tá fazendo diretinho, ah, isso está.

Pois então, hoje de manhã, os sites d’O Globo, d’O Estado e do Terra davam, em letras tão garrafais quanto a Internet permite, a notícia do telefonema. O site da Folha, bem… a notícia estava bem lá em baixo, em letrinhas de bula, sabe como é, papai não deixa encher a bola dos oponentes. Capaz que a Veja desta semana imprima a notícia numa folha à parte e se esqueça de encartar na edição.

Agora é questão de tempo para que Obama fique — ao menos para os paulistas — com fama de cachaceiro, corrupto e analfabeto.

Acaba o filme. Como é costume, minha mulher faz sua análise concisa:

— Que bosta…
— Ah, nem tanto. — discordo — O cara fez roteiro, produção, fotografia e direção. Isso tem algum valor.
— Tem. Dava pra matar todos os culpados com um tiro só.

Kogai por nus?? Ou pornôs?
(Samuér no estado Rio de Janeiro)


Currículo.
(Eunápolis-BA)


O que dizer disso?
(Ilhéus-BA)


Fineza não limpar o pé no cachorro.
(Itapuã, Salvador-BA)


O gargarejo profilático de Seu Françuel. Com cachaça, claro.
(Nordeste de Itaigara, Salvador-BA)
(O nome do bairro foi alterado, por motivos de segurança, a pedido do retratado. Mas a camiseta do Flamengo permanece. Como diria Dickens, “Go figure”.)

Temos feito viagens à Bahia regularmente, sempre na mesma época, desde o raiar do corrente século. Da primeira vez, o trajeto foi apenas de volta, porque nosso carro havia sido comprado em Salvador, e o viemos estreando na estrada. Depois disso, temos ido e voltado praticamente em todos os anos, sempre na mesma época, cruzando os mesmos estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia na ida, o contrário na volta).

Nessas viagens, a parte mais interessante tem sido poder estudar ao vivo todas as Geografias — Política, Física, Social, Cultural —, os planaltos que vão virando serras, os sotaques se transformando, a variação da temperatura e da umidade, os pastos e plantações, o mangue, o semi-árido, a Mata Atlântica que ainda resiste aqui e ali, a importância econômica de cada região, a arquitetura, as raças, a culinária, e mesmo a involução do pãozinho francês, cuja qualidade vai diminuindo a cada quilômetro rodado, até descambar, em Salvador, num troço tão comestível quanto uma sandália havaiana que, pra piorar, ainda se chama ‘cacete’ ou ‘vara’ (e os soteropolitanos que não me venham falar da Perini, porque um carcará só não faz verão). Tudo muda muito, e não é de estranhar que isso aconteça, porque essa distância, se percorrida na Europa, faria o viajante cruzar até seis países de línguas e culturas totalmente diferentes. Aqui, ao menos a língua é (quase) a mesma.

Mas há uma coisa que une todos os povos deste país: a mandioca. Por onde se passe — e não apenas neste trajeto, mas do Oiapoque ao Chuí, via Lapa ou pelo Acre —, sob qualquer clima, topografia, sotaque ou poder aquisitivo, a mandioca está lá, na beira da estrada. Sua presença é tão marcante, sua importância na culinária é tão significativa, que cheguei a criar esta nova bandeira para o Brasil, muito mais representativa de nossa terra do que a toalha de mesa que se usa atualmente. E se alguém achar que a folha de mandioca se parece com a da maconha, bem, a bandeira atual exibe um insólito “Ordem e progresso”, e ninguém diz nada.

Numa viagem desse tamanho, é natural que aconteçam pequenos incidentes, e eles sempre têm provocado interessantes alterações no trajeto. No ano retrasado, por exemplo, o rio Paraíba, cheio como nunca por causa das chuvas, destrambelhou a então única ponte disponível em Campos de Goitacazes – RJ. No desvio que fomos obrigados a fazer para subir 200 quilômetros de rio até a ponte seguinte, conhecemos um ótimo hotel-fazenda e uma excelente estrada que, para melhorar ainda mais, encurtava o trajeto em quase 100 quilômetros, além de nos permitir evitar uma das mais detestáveis cidades em que já tivemos o prazer de escarrar.

Já neste ano, o incidente foi o tal hotel-fazenda estar lotado. Por não conhecermos nenhuma opção decente num raio de 150 quilômetros, optamos por um pernoite em Cachoeiro do Itapemirim, terra de Rubem Braga e de Roberto Carlos, também um Braga, assim como qualquer sapataria, açougue, boteco, ponte, teatro ou puteiro da região. Família grande…

Nesse amálgama de povos e culturas tão distintas que vamos percorrendo, temos percebido que o estado do Espírito Santo não foi muito bem servido de características exclusivas: o sotaque é mezzo-mineiro mezzo-carioca, o prato típico é moqueca (que é tipicamente Nordestina, mas feita sem dendê no ES, o que não chega a ser uma característica), a cachaça boa é a mineira, e agora começamos a notar que até os nomes de alguns bairros da capital Vitória (linda, diga-se de passagem) são “importados”, como Itapuã e Itaparica (bairro e ilha em frente a Salvador), Garanhuns (Pernambuco), Muribeca (Sergipe), e por aí vai.

Mas Cachoeiro do Itapemirim me surpreendeu. Logo que cheguei à cidade, fui descendo para o centro, a fim de encontrar o hotel em que tinha feito reserva. No zunzum característico do fim de tarde no centro de qualquer cidade, procurando placas de rua (não vi uma sequer, puta merda!), fui ultrapassado por uma moto que, estranhamente, parou logo em seguida no meio da rua. Não custei a entender o motivo de semelhante manobra:  o cabra tinha parado para que uma pessoa atravessasse a rua pela faixa de pedestres. No entanto, o sinal não estava fechado (sequer havia sinal), não havia um guarda que o mandasse parar, nem qualquer outro motivo além da prosaica presença do indefeso pedestre em frente à faixa. Pasmei, duvidei que fosse verdade porque só tinha visto isso em filme.

No entanto, uma hora depois, já instalado no hotel, desci para ir à padaria. Vi-me na calçada de uma rua em curva, sem visão do tráfego ao longe e, para piorar, num ponto da rua em que os carros passavam voando. Mas havia uma faixa de pedestres bem em frente ao hotel.

Lembrei-me então do acontecido e, assim como quem não quer nada (até para não passar vergonha se o expediente não funcionasse), pus-me em posição de travessia, primeiro timidamente (os carros continuavam a passar rápido, como se eu não estivesse ali), depois com mais atitude (não me pergunte o que fiz, mas passei a me sentir assim, com mais atitude), e a coisa começou a funcionar: um carro diminuiu a velocidade, parou antes da faixa, e depois outro, e mais outro, e eu, Moisés no Mar Vermelho, fui atravessando a rua sem cajado mas de boca tão aberta quanto a dele, e os carros foram parando, e eu atravessando a rua, cheguei ao outro lado e, assim como ele deve ter feito depois da façanha, virei-me para trás, olhei o rio de carros que voltara a correr e exclamei “Puta merda, não é que porra deu certo?”.

Na volta, repeti a façanha (Moisés, que eu saiba, só fez viagem de ida) e retornei à calçada de origem, onde tinha deixado minha trêmula mulher a balbuciar sua versão da Ave Maria, ignorante de orações que é.

Então eu, que costumo dizer que o Espírito Santo não tem nenhuma característica exclusivamente sua, digo agora, com conhecimento de causa, que ao menos Cachoeiro do Itapemirim tem uma, e das mais impressionantes para um paulistano: os motoristas param para que os pedestres atravessem a rua sem que ninguém os obrigue a isso! Essa sim, é uma característica que eu gostaria que constasse da bandeira nacional.

O corpo negro e grande de um velho rei d’Angola, os braços pálidos de um senhor de engenho: vitiligo.

Depois de 4370 quilômetros e 800 metros percorridos no trajeto que liga São Paulo a São Paulo (via Salvador), cheguei a algumas importantes conclusões:

• Branco Leone é um sujeito totalmente desconhecido no eixo Iconha-Uruçuca;

Franciel Cruz é um grande cara, mas tem um defeito;

• A geladeira de isopor é o artefato que permitirá a conquista do Nordeste pelos paulistas;

• O ar-condicionado também;

• O Peugeot 206/1.6 deveria ter seis marchas para a frente;

• A temperatura de trabalho do meu cérebro é menor que a da minha máquina fotográfica;

• Itabuna é uma das cidades mais importantes da Grande Buerarema;

• Perdemos o estado do Rio de Janeiro para a Universal;

• O Espírito Santo ainda não, mas vai a caminho;

• A Bahia estará salva enquanto houver o Candomblé.

Então. Nada especial, só o de sempre: Bahia, acarajé, brisa na varanda, sarapatel, sombra, abará em casa de Auta Rosa, uisquinho, mais brisa (que ninguém é de ferro e, portanto, derrete), velsar e revelsar na varanda de Maria Sampaio, coçando o papo de Brigitte. No dia seguinte, tudo de novo, mas tudo diferente: acarajé vira rabada, abará vira moqueca, uisquinho vira cachaça. Mas a brisa é a mesma.

Três ‘plus a mais’: Sr. Franciel Cruz Credo, Alan Miranda e Paloma & seu Pedro José, que é argentino, mas tem a alma branca. Alguém mais? Estudo convites. Só não me venham com praia e axé, que eu já vou logo mandando. Cartas para a redação.

Tinha medo do escuro. Um dia, ficou cego. Passou.

Raramente eu compro música. Eu baixo. Esse meu disco novo, meus quatro outros, e os dois do Mulheres [Negras], quando eu tô com meu computador ligado, eles estão disponíveis no eMule.”

Agora é esperar alguém chamar o Maurício Pereira de “Zé das couves”.

Dias atrás, li este post do Marco ao Léu e, mais uma vez, discordei. Digo ‘discordei’, mas o fiz em silêncio, e observo que foi ‘mais uma vez’ porque ele toca no assunto a toda hora e eu sempre discordo. Daí, me resolvi a escrever este post, mas só agora tive paciência de ir procurar as informações que sabia ter mas não imaginava em que pasta estavam. Achei. E conto a história.

Galopava o ano de 2001. Eu fazia parte de uma ‘e-oficina’ de criação literária sob a coordenação de João Silvério Trevisan, patrocinada pelo SESC-SP. A coisa funcionava mais ou menos assim: dez sujeitos numa sala de chat, sob olhar e ordens de Trevisan; três meses corridos com três encontros semanais com duração de duas horas cada; apresentavam-se alguns dos textos, escritos pelos participantes, segundo um tema apresentado anteriormente; todos criticavam todos os textos, incluindo o coordenador; conforme as opiniões, o circo pegava fogo. Era cansativo e enervante (quem me visse voltar pra cama depois das reuniões pensaria que eu tivesse chegado de uma briga num bar, não de uma sala de chat), mas foi a única experiência realmente proveitosa que fiz no assunto: se aprendi muito sobre escrever, aprendi mais ainda sobre os motivos de escrever, coisa mais séria.

Numa das noites em que nos reunimos, o texto a criticar era um diálogo muito bem construído por um escritor de Teresina em que, numa das falas, uma personagem dizia algo como ‘barriga lisinha é coisa de veado‘. Eu (e minha boca grande), na hora de colar no chat a crítica que havia escrito anteriormente, nem percebi que a coisa ia desandar ali, depois da minha frase final: ‘O diálogo é ótimo. O [autor] segurou a veracidade de ponta a ponta. Gostei muito. Pra ser perfeito, eu escreveria ‘viado’ ao invés de ‘veado’.

O barraco ardeu. E bastou um outro oficineiro concordar comigo para a horda se dividir em duas, os Pró-Viados e os Veados Até Morrer. Ao final desse mesmo encontro, o segundo grupo (o dos Veados) desistiu da oficina para nunca mais voltar, e os trabalhos tiveram que seguir manquitolando até o final do trimestre.

Pouco importa o que se falou em defesa ou no ataque das duas versões da palavra. É claro que se trouxe à mesa todo tipo de alfarrábio (Aurélios, Houaisses e mesmo os anglicistas infiltrados Webster e Michaelis), é claro que se expuseram argumentos regionalistas (‘no Nordeste se fala assim’, ‘em São Paulo se fala assado’), muitos foram chamados de ignorante (eu, inclusive, fui chamado de ‘ingnorante’ por um oponente), é claro que — mais uma vez — puseram a malemolente Lingüística pra brigar com a engessada Gramática (é impressionante o que essas duas gostam de brigar!). E, é claro, nada disso deu em nada, e todos saíram com seus narizes e opiniões intactos.

No entanto, porradas dadas e levadas, o mais importante foi perceber que a discussão ultrapassava os ambientes regionalistas, gramaticais e lingüísticos. O buraco era, como se viu depois, mais em baixo (ou mais atrás, se você gostar de uma piada besta). Copio aqui uma das ‘falas’ de Trevisan, quando começava a expor sua opinião pró-viado: ‘(…) Além do mais, [escrever ‘viado’] é uma reivindicação de certa parcela da comunidade homossexual. Se a palavra é usada como ‘viado’ [é porque] pede-se visibilidade ao termo. Que os brasileiros assumam a diferença linguística que eles, inadvertidamente criaram. E que se tornou uma marca identitária, pelo menos no caso’.

Trevisan — escritor, jornalista, dramaturgo, tradutor, cineasta e ativista GLBT, além de meu velho amigo — expõe o argumento que os dicionários não têm autoridade para discutir: usar a palavra ‘viado’ para se referir ao homossexual do sexo masculino é reivindicação de parte da comunidade homossexual. Sendo assim, pau no cu do Houaiss (maneira de dizer…), porque, para tratar deste assunto, o dicionário é este.

Roda de homens e mulheres, cabeças baixas, olhos encovados, um misto de cansaço e sucesso na expressão dos rostos ressecados, repletos de aliterações. A sala penumbrosa, cadeiras diferentes umas das outras fazem roda, um quadro enorme de moldura que já teve mais dourado em suas retortas pende de uma das paredes e exibe um Hades gordo e ao mesmo tempo musculoso raptando Perséfone para levá-la àquilo que chamávamos Inferno, mas que, sabemos hoje, não passa de um prosaico subterrâneo. A roda olha o tapete ensebado como se Hades em pessoa gorda e musculosa fosse surgir dali do meio, mesmo na roda não havendo Perséfone que preste para chutar, que dirá para raptar.
Alguém deve tomar a vez, e levanto-me:
— Boa noite. Meu nome é Branco, e eu sou escritor.
— Boa noite, Branco — novenam os outros.
Eu continuo. É preciso dizer o que vim dizer:
— Há um ano que não escrevo um conto — digo.
Os outros aplaudem. Sem animação, mas, ainda assim, é um aplauso.
— Estou limpo — digo, e curvo-me num esboço de sentar.
— Nem um poema? — interrompe-me um vozeirão afetado, viado velho que não publiquei por ser ruim, não por ser viado ou velho, coisa de que me acusou depois da recusa.
— Nem um hai-kai sequer — cuspo-lhe na cara, satisfeito e vingado.
Sigo no sentar, mas sou interrompido mais uma vez:
— E e-mails? Você não tem respondido nem um e-mail? — chia fina e rouca de cigarro uma voz. Eu olho para o escuro de onde veio o grasnido, e entendo: uma senhora velha conhecida, escritora inveterada que, hoje, afastada dos romances e outras prosas por recomendação médica e desespero familiar, insiste em me provocar com powerpoints diários, cheios de flores e outras ofensas, e sei que o faz para tripudiar de mim quando lhe respondesse — por escrito — com os palavrões que merece.
— Nem e-mails — digo à bruxa ressequida enquanto a encaro. Triunfante, continuo:
— E você sabe disso muito bem, moira.
Todos se olham percebendo ali alguma coisa, um revide?, alguma possibilidade de assunto, futuros escárnios. E sigo no sentar, que é incômodo permanecer tanto tempo na posição de quem vai levar um chute, sem levá-lo.
— E posts? Que me diz dos blogs? Nenhum post?
Sinto o sangue esfriar. Reconheço o sotaque de Pernambuco, e sei que agora não é um débil oponente que se acoberta no escuro. Proxeneta das palavras afastado da caneta, o canalha cangaceiro ganha a vida agora a revisar o alheio, a encontrar defeitos nos defeitos dos outros, a encher papéis de bolas e riscos a caneta vermelha. Sei bem o que o faz fazer isso, ele é como o ex-alcoólatra que conserva em casa o armário das bebidas, apenas para limpar diariamente as garrafas a flanela, sentir seu poder engarrafado, transmutado em álcoois coloridos e, no caso dele, cheios de bolas e riscos vermelhos. Mas o filho da puta não ia me derrubar com um risco só.
— Nem um sequer. Pode ir lá ver. Os blogs estão no ar.
— E este post? Que me diz deste post?
— Que post? — balbucio, antevendo o desastre.
— Este, homem! Este post! — grita.
Veio o chute, afinal. É verdade. Sou um fraco. Dia desses acabo escrevendo um romance. E, pior: sem querer. Nunca estarei limpo.

Quem estiver interessado em acompanhar a polêmica que surgiu aqui sobre Direitos Autorais pode dar uma espiada no post em que tratei do assunto. O amigo Daniel Brazil e o leitor Marcelo discutem seus pontos de vista — obviamente contrários, pois, se assim não fosse, não haveria discussão.

Prefiro quebrar um pé a me meter em polêmicas. Mas não posso deixar de dizer que, sobre o tema (aliás, sobre qualquer tema relacionado a evolução de mercado e suas políticas), pouco importa a opinião deste ou daquele, pouco importa o que é “certo”. A fila anda, e o “certo” será sempre a atribuição de quem manda. O poder agora está descentralizado, por causa da Internet. Quem quiser matar os carrapatos, vai ter que acabar com a vaca. Ou o “poder” (faz-me rir) junta-se aos carrapatos, ou morre. E morrerá, porque não se curvará jamais. Os teimosos são assim. Não há novidades em História, apenas a mesma coisa contada de outro jeito, com outros personagens, em outros ambientes.

Confesso que não sei o que é melhor — note-se que eu não disse “certo” ou “errado”. Mas vou fazer aqui um exercício. Quem quiser adaptar as variáveis para outros assuntos, que fique à vontade.

Constatamos hoje que uma das faces ditas brutais da Internet tem sido a dificuldade em se conter a disseminação de pornografia infantil pelos tais pedófilos. Uma mazela, uma tragédia, e duvido que alguém discorde (incluindo eu mesmo). Pois então, um fato: a bisavó de minha mulher, filha de “gente bem”, família tradicional e estabelecida, não foi autorizada pelo pai a se casar com um pretendente que lhe apareceu por um simples motivo: ainda não tinha menstruado. Diz a história familiar que, depois que seu corpo resolveu-se a tal, casou-se imediatamente. E levou sua boneca preferida para a lua-de-mel. Alguém foi preso, difamado, perseguido? Ninguém, é claro. Isso era prática corrente.

Conheço o caso e o entendo, mas nem por isso deixaria de correr a bala com o engraçadinho que aparecesse aqui com semelhante proposta para minha filha de 14 anos (que já menstrua há tempos). Mas é preciso perceber que, numa época em que se morria feito mosca, se não se começasse cedo a jubilosa tarefa da reprodução, as famílias corriam o risco de sumir — com todas as conseqüências emocionais, sociais e financeiras disso.

Se é que alguém ainda não entendeu, o que quero dizer é tão óbvio que até sinto vergonha de expressar: Lei não é; Lei depende. Se assim não fosse, eu poderia apedrejar até à morte meu vizinho porque sei que ele trabalha aos sábados. Está na Bíblia, uai! Por que não posso?

Voltando aos direitos autorais, quando o poder muda de mão, sempre ofende a quem o perdeu. Mas não há lei que faça o mercado dar o poder a este ou àquele. O poder está na mão de quem o tem, e foda-se o resto. E se o mercado, para funcionar, tiver que ser fora da lei, será, e não haverá lei que o contenha. Cocaína era remédio receitado há menos de cem anos.

Marcelo, permita-me: isto não é um assunto “contaminado de ideologia”. Primeiro, ideologia não é doença. Depois, isso é fato observado. Nossa opinião não interessa.

Manchete na abertura do Yahoo, logo abaixo de um tríptico (por assim dizer) com as fuças de Freddy Krueger, Chucky e um boneco com cara de retardado (que vim a descobrir depois que é um tal de Jigsaw): “Sem estes personagens assustadores, o cinema não teria graça“.

O cara é pago pra escrever esse tipo de merda? Digo, o cara ganha uma grana, leva pra casa, sustenta uma família, cria filhos, espalha os genes por aí e perpetua isso? Não dava pra castrar o sujeito antes de ele entrar na faculdade de Jornalismo?

Chamar Freddy Krueger de cinema é o mesmo que chamar arroto de música. “Assustador” é esse mundo. Quem precisa de cinema?

Você me diria: “Ah, Branco, deixa de ser neurótico, é só uma manchetezinha de sexta-feira, pra relaxar“. E eu responderia: “Ora, vá tomar no meio do seu cu“.

ou Saber morrer é uma virtude

Naqueles filmes em que acontece o eterno combate entre o Bem e o Mal, é fácil distinguir bandidos de mocinhos: bandidos são aqueles que, encurralados e à beira da morte, atiram pra todo lado com a intenção de levar com eles o máximo de gente possível, sejam inocentes, inimigos, quem for. Até para confirmar a regra, aponto ‘Butch Cassidy’ como exceção, mas o normal é vermos o bandido, amarfanhado em seu último reduto, pistola vazia numa mão e um detonador na outra que, com um único gesto, mandará pelos ares tudo o que está entre o Cambuci e a Aclimação (dando a volta pelo outro lado do mundo, claro). Do outro lado estão os mocinhos, aqueles que, no instante anterior ao último, metem uma bala na cabeça do bandido, evitando o desastre final e, assim, permitindo que se continue a fazer filmes-merda como esses.

Ao assunto. Fiquei sabendo ontem que o blog Um que tenha, fonte onde bebo raras águas nos últimos tempos, corre o risco de ser tirado do ar por infração à tal Lei do Direito Autoral. Capaz que sim, capaz que não, mas tudo começou quando a gravadora Biscoito Fino (não confundir com Idelber, o Grande) pediu (digamos assim, vá lá) a exclusão dos links que remetiam a obras de artistas que representa. Não vou descer o pau na Biscoito porque ainda (ainda!) respeito a empresa e sua postura dentro desse mercado selvagem. Mas só por isso.

Não é a primeira vez que acontece algo assim. Vide a história de combate aos piratas que o Metallica impetra há tempos, alinhado aos furiosos tubarões da indústria fonográfica americana. Interessante notar que a pseudo-banda, assim como o AC/DC em outras décadas, tem lançado e relançado seu único disco dezenas de vezes, trocando-lhe apenas a capa. Numa análise simplista, é como se pirateassem a si mesmos. E isso, pode, claro, porque ninguém é obrigado a comprar o mesmo disco duas vezes. Compra quem quiser. Chamam a isso de “liberdade”. Ok.

Infelizmente, também não será a última vez que uma gravadora vai soltar — ou ameçar soltar — os cachorros em cima de alguém que esteja infringindo a Lei porque — seja neste ou em outros casos — basta combinar a tal Lei com a vontade de quem manda, e a Luz se fará. Um dia, espero, a Luz virá de uma purgante explosão atômica, que mandará toda essa burrice pro inferno, lugar onde se paga caro pra ouvir porcaria, e onde o autor — como que por vingança das Musas — não recebe um tostão por isso.

Noutro dia, passeando lá mesmo pelo Um que tenha, encontrei o cd que acompanha Timoneiro, livro escrito pelo amigo Alexandre Pavan (maridão da Carol Guindaste) sobre Hermínio Bello de Carvalho. Como eu não sabia da opinião de Pavan sobre o fato, escrevi-lhe informando o encontrado. A resposta de Pavan pode ser resumida em poucas palavras: “Eu sabia, e quero é mais! Quanto mais gente ouvir, melhor“. Sujeito inteligente.

Paulo Coelho, outro sujeito inteligente (alguém ainda duvida?), disse que só se deu bem no mercado russo depois que um de seus livros foi pirateado e distribuído a rodo pela Internet. Agora, com a fama construída gratuitamente, Coelho vende da mesma forma: a rodo. O filme Tropa de Elite é outro exemplo de beneficiado com aquilo que hoje se chama de Pirataria.

Quase dois séculos de implantação da Lei do Direito Autoral (no Brasil, mas em outros países não é muito mais tempo) precisam ser revistos mais uma vez. Aconteceu muita coisa nesse meio tempo. Livros, discos, textos teatrais, fotografias, ilustrações (e sei lá mais o quê), “produtos” que antes eram resultado de processos caros e complexos — detidos por investidores e produtores de cultura, incluindo muitos que mereceriam aspas, mas deixo assim —, podem hoje nem existir fisicamente mas circular por e-mail, sem nenhuma possibilidade de controle por parte de quem insiste em querer controlar alguma coisa.

É preciso perceber, rápida e definitivamente que, nesse meio tempo, a figura do investidor (leia “editor”) deixou de ser necessária. É possível escrever em casa, imprimir em casa, gravar em casa, copiar em casa, produzir e multiplicar em casa, divulgar e vender a partir de casa. É preciso que o artista perceba que não precisa mais se render a um intermediário que o publique, que não é preciso ficar refém de um pretenso poder de distribuição e divulgação, até porque esse poder está acabado ou, no mínimo, acabando. Já disse uma vez aqui, mas repito: Andy Warhol se enganou. No futuro (isto é, hoje), as pessoas não são famosas por quinze minutos, as pessoas só conseguem ser famosas para quinze pessoas. Por que empenhar sua obra e sua alma a um editor que a venderá para quinze pessoas, e só lhe repassará dez por cento? Mas isso é outro assunto.

É fácil perceber que há algo errado com a Lei do Direito Autoral quando se verifica quem a defende: ‘artistas’ fabricados e os megainvestidores por trás deles. Mas antes de sentar para redigir outra, é preciso lembrar que a Lei do Direito Autoral deve proteger o autor, porque hoje ele é o último dos urubus na fila desse banquete: dez por cento do que o investidor DIZ que vendeu, descontados disso e daquilo. E olhe lá.

E enquanto ninguém se resolve a mudar isso, as corporações (nem me refiro aqui à Biscoito Fino, longe disso) vão mexendo seus pauzinhos e derrubando um aqui outro ali, esperneando. Que derrubem muitos, mas antes de cairem todos, cairá também a lei do direito autoral e todos os vampiros que vivem dela. Alguém, por favor, lhes meta logo uma bala (de prata) no coração, em prol da Liberdade.

Com o advento do Torrent aqui em casa (obrigado pelas dicas, ), tenho consumido um bocado de dvds virgens (“mídias”, como diz a tropa), algo em torno de 50 a cada dois meses. Compro-os sempre no mesmo lugar, e eles vêm acondicionados em pinos, aquela embalagem que, por mais que eu pense, não consigo lhe encontrar outra utilidade. Uma vez que os dvds, quando gravados, vão pras suas respectivas caixinhas, vou juntando pinos e mais pinos por aí (digo, aqui), esperando que um dia me ocorra o que fazer com aquilo.

Hoje, fui lá no fornecedor buscar mais uma leva. Quando estava pegando o pacote (com mais um pino), perguntei:

— Escuta, eu tenho monte disso lá em casa. Posso trazer pra vocês reutilizarem?
— Melhor não… — disse a moça, muito gentil — a gente também tem um monte.
— Sim, mas vocês podiam usar de novo…
— Não queremos, não. Temos muitos.
— E o que eu faço com esse monte de pinos?
— Joga fora, ué!

O besta sou eu, que perco tempo com reciclagem, reutilização, consumo consciente. Essas coisas não vão dar certo nunca. Mas a Natureza vai dar um jeito. Vai, sim.

Sabendo que hoje, 27 de outubro, é aniversário do John Cleese (69 anos) e que também seria aniversário de Graciliano Ramos (116 anos), escreva uma dissertação em prosa (não me venha com poesia porque eu não aturo isso!) com uma lauda (no mínimo) comparando as duas personalidades, encontrando semelhanças entre elas e especulando porque a obra dos dois me infuenciou tanto. Ao final, ponham as redações sobre a mesa. E enfiem as maçãs no cu.

[abre aspas] Oi! Isso aqui é completamente off-topic.
Perdi o teu e-mail, (o meu computador velho foi vaporizado numa tempestade e eu perdi tudo!), então vai aqui mesmo.
Pois é, sonhei com vc ontem à noite e vou contar logo antes que esqueça.Eu estava andando na Av. Paulista e encontrei o meu pai na altura da Brigadeiro e perguntei como fazia pra chegar à sua casa (a sua, não a dele), e ele explicou que era uma paralela a Paulista, lá no fim, perto do largo Ana Rosa. Rua Plinio Ferraz, número 25, um sobradinho branco, com uma estátua do indiozinho da TV Tupi no jardim. Corta.Eu estava com a Dora, andando nas proximidades do largo Ana Rosa, indo pra sua casa, quando encontramos a Fernanda, que usava aparelho nos dentes, um verdadeiro trambolho, quase não dava pra entender o que ela dizia. Ela explicou que o piano estava com o pedal emperrado e podia cair no pé, pra tomar cuidado quando a gente fosse lá pro sarau. Continuamos andando, e a Dora viu a costureira do meu pai tentando estacionar o carro, mas ela era muito barbeira e acabou dentro de um restaurante! (nesse ponto eu fiz uma nota mental para contar sobre a barbeira pro meu marido).
Acontece que vc não era escritor e sim músico e artista plástico. Além de compor, vc fazia umas esculturas de pendurar na parede, que tocavam música também. Quando chegamos na sua rua, estava lá a placa: Rua Plinio Ferraz. Entramos. Vc estava tocando violão e cantando a sua mais famosa canção. O refrão era o que a escultura de parede tocava, e a gente tinha que acompanhar. Tinha um monte de gente, uma turma de sujeitos barbudos, todos músicos e artistas plásticos.
Acordei.
Não foi um sonho estranho? São Paulo era um lugar calmo, ruas sossegadas, com os tais sobradinhos brancos e uns predinhos baixos, 5 andares no máximo. Tipo anos 50/60…
Fiz uma busca e descobri que não existe rua Plinio Ferraz em Sao Paulo, mas em Portugal existe uma escola estadual com esse nome.
Vim direto pro micro pra te contar, e cadê o teu endereço? Então, escrevi aqui. Os teus fregueses vão achar que eu sou louca! Bom, isso não importa, porque eu sou mesmo louca, mas ficou muuuuito comprido…
Saudade de vc, deve ser isso. E foi muito gostoso passear por uma São Paulo tão civilizada. E encontar com o meu pai (ele morreu em 92).
Beijos pra Fernanda (que aparelho horroroso, não tinha nada a ver…).
Beijão procê!
Regina [fecha aspas]

Resposta: Fernanda manda dizer que o pedal do piano já está consertado e que — não se aflija! — ela já tirou o aparelho. Digo eu que, na falta de Rua Plinio Ferraz em São Paulo, encontrei uma em Bauru que, pelo GoogleMaps, me pareceu muito simpática. Bairro afastado, casas com piscina, muito espaço. Só falta descobrir se há uma casa de número 25 e se está à venda. O fato de não ter dinheiro para comprá-la é de menor importância. Depois de um sonho desses, que diferença faz? Beijo.

Posts atrás, eu disse que não ia informar aqui quando a promoção do livro da Nigella Lawson estivesse no ar lá no Enfia o Dedo no Curry. Era tudo mentira. Quando escrevi isso, já tinha intenção de vir aqui avisar. Eu sou assim. Ladino. Matreiro. Cheio de subterfúgios. Aliás, eu faço cada bruta subterfúgio que nem te conto!

E então? Tá esperando o que pra ir lá participar da promoção e cuíca até ganhar um livrão lindão? Vai, meiga! Anda com isso!