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Pontualidade britânica.
Neutralidade suíça.
Melancolia portuguesa.
Aspereza espanhola.
Desordem italiana.
Perfume francês.
Disciplina japonesa.
Jeitinho brasileiro.
Peido alemão.

— Opa!
— E aí?

(…)

— Tudo bem?
— Tudo.

(…)

— Chove hoje?
— Ô!

(…)

— Cê tem um blog, não tem?
— É…

(…)

— Faz tempo que você não escr…
— Meu ônibus chegou, vou nessa.

(…)

Temos feito viagens à Bahia regularmente, sempre na mesma época, desde o raiar do corrente século. Da primeira vez, o trajeto foi apenas de volta, porque nosso carro havia sido comprado em Salvador, e o viemos estreando na estrada. Depois disso, temos ido e voltado praticamente em todos os anos, sempre na mesma época, cruzando os mesmos estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia na ida, o contrário na volta).

Nessas viagens, a parte mais interessante tem sido poder estudar ao vivo todas as Geografias — Política, Física, Social, Cultural —, os planaltos que vão virando serras, os sotaques se transformando, a variação da temperatura e da umidade, os pastos e plantações, o mangue, o semi-árido, a Mata Atlântica que ainda resiste aqui e ali, a importância econômica de cada região, a arquitetura, as raças, a culinária, e mesmo a involução do pãozinho francês, cuja qualidade vai diminuindo a cada quilômetro rodado, até descambar, em Salvador, num troço tão comestível quanto uma sandália havaiana que, pra piorar, ainda se chama ‘cacete’ ou ‘vara’ (e os soteropolitanos que não me venham falar da Perini, porque um carcará só não faz verão). Tudo muda muito, e não é de estranhar que isso aconteça, porque essa distância, se percorrida na Europa, faria o viajante cruzar até seis países de línguas e culturas totalmente diferentes. Aqui, ao menos a língua é (quase) a mesma.

Mas há uma coisa que une todos os povos deste país: a mandioca. Por onde se passe — e não apenas neste trajeto, mas do Oiapoque ao Chuí, via Lapa ou pelo Acre —, sob qualquer clima, topografia, sotaque ou poder aquisitivo, a mandioca está lá, na beira da estrada. Sua presença é tão marcante, sua importância na culinária é tão significativa, que cheguei a criar esta nova bandeira para o Brasil, muito mais representativa de nossa terra do que a toalha de mesa que se usa atualmente. E se alguém achar que a folha de mandioca se parece com a da maconha, bem, a bandeira atual exibe um insólito “Ordem e progresso”, e ninguém diz nada.

Numa viagem desse tamanho, é natural que aconteçam pequenos incidentes, e eles sempre têm provocado interessantes alterações no trajeto. No ano retrasado, por exemplo, o rio Paraíba, cheio como nunca por causa das chuvas, destrambelhou a então única ponte disponível em Campos de Goitacazes – RJ. No desvio que fomos obrigados a fazer para subir 200 quilômetros de rio até a ponte seguinte, conhecemos um ótimo hotel-fazenda e uma excelente estrada que, para melhorar ainda mais, encurtava o trajeto em quase 100 quilômetros, além de nos permitir evitar uma das mais detestáveis cidades em que já tivemos o prazer de escarrar.

Já neste ano, o incidente foi o tal hotel-fazenda estar lotado. Por não conhecermos nenhuma opção decente num raio de 150 quilômetros, optamos por um pernoite em Cachoeiro do Itapemirim, terra de Rubem Braga e de Roberto Carlos, também um Braga, assim como qualquer sapataria, açougue, boteco, ponte, teatro ou puteiro da região. Família grande…

Nesse amálgama de povos e culturas tão distintas que vamos percorrendo, temos percebido que o estado do Espírito Santo não foi muito bem servido de características exclusivas: o sotaque é mezzo-mineiro mezzo-carioca, o prato típico é moqueca (que é tipicamente Nordestina, mas feita sem dendê no ES, o que não chega a ser uma característica), a cachaça boa é a mineira, e agora começamos a notar que até os nomes de alguns bairros da capital Vitória (linda, diga-se de passagem) são “importados”, como Itapuã e Itaparica (bairro e ilha em frente a Salvador), Garanhuns (Pernambuco), Muribeca (Sergipe), e por aí vai.

Mas Cachoeiro do Itapemirim me surpreendeu. Logo que cheguei à cidade, fui descendo para o centro, a fim de encontrar o hotel em que tinha feito reserva. No zunzum característico do fim de tarde no centro de qualquer cidade, procurando placas de rua (não vi uma sequer, puta merda!), fui ultrapassado por uma moto que, estranhamente, parou logo em seguida no meio da rua. Não custei a entender o motivo de semelhante manobra:  o cabra tinha parado para que uma pessoa atravessasse a rua pela faixa de pedestres. No entanto, o sinal não estava fechado (sequer havia sinal), não havia um guarda que o mandasse parar, nem qualquer outro motivo além da prosaica presença do indefeso pedestre em frente à faixa. Pasmei, duvidei que fosse verdade porque só tinha visto isso em filme.

No entanto, uma hora depois, já instalado no hotel, desci para ir à padaria. Vi-me na calçada de uma rua em curva, sem visão do tráfego ao longe e, para piorar, num ponto da rua em que os carros passavam voando. Mas havia uma faixa de pedestres bem em frente ao hotel.

Lembrei-me então do acontecido e, assim como quem não quer nada (até para não passar vergonha se o expediente não funcionasse), pus-me em posição de travessia, primeiro timidamente (os carros continuavam a passar rápido, como se eu não estivesse ali), depois com mais atitude (não me pergunte o que fiz, mas passei a me sentir assim, com mais atitude), e a coisa começou a funcionar: um carro diminuiu a velocidade, parou antes da faixa, e depois outro, e mais outro, e eu, Moisés no Mar Vermelho, fui atravessando a rua sem cajado mas de boca tão aberta quanto a dele, e os carros foram parando, e eu atravessando a rua, cheguei ao outro lado e, assim como ele deve ter feito depois da façanha, virei-me para trás, olhei o rio de carros que voltara a correr e exclamei “Puta merda, não é que porra deu certo?”.

Na volta, repeti a façanha (Moisés, que eu saiba, só fez viagem de ida) e retornei à calçada de origem, onde tinha deixado minha trêmula mulher a balbuciar sua versão da Ave Maria, ignorante de orações que é.

Então eu, que costumo dizer que o Espírito Santo não tem nenhuma característica exclusivamente sua, digo agora, com conhecimento de causa, que ao menos Cachoeiro do Itapemirim tem uma, e das mais impressionantes para um paulistano: os motoristas param para que os pedestres atravessem a rua sem que ninguém os obrigue a isso! Essa sim, é uma característica que eu gostaria que constasse da bandeira nacional.

Depois de 4370 quilômetros e 800 metros percorridos no trajeto que liga São Paulo a São Paulo (via Salvador), cheguei a algumas importantes conclusões:

• Branco Leone é um sujeito totalmente desconhecido no eixo Iconha-Uruçuca;

Franciel Cruz é um grande cara, mas tem um defeito;

• A geladeira de isopor é o artefato que permitirá a conquista do Nordeste pelos paulistas;

• O ar-condicionado também;

• O Peugeot 206/1.6 deveria ter seis marchas para a frente;

• A temperatura de trabalho do meu cérebro é menor que a da minha máquina fotográfica;

• Itabuna é uma das cidades mais importantes da Grande Buerarema;

• Perdemos o estado do Rio de Janeiro para a Universal;

• O Espírito Santo ainda não, mas vai a caminho;

• A Bahia estará salva enquanto houver o Candomblé.

Roda de homens e mulheres, cabeças baixas, olhos encovados, um misto de cansaço e sucesso na expressão dos rostos ressecados, repletos de aliterações. A sala penumbrosa, cadeiras diferentes umas das outras fazem roda, um quadro enorme de moldura que já teve mais dourado em suas retortas pende de uma das paredes e exibe um Hades gordo e ao mesmo tempo musculoso raptando Perséfone para levá-la àquilo que chamávamos Inferno, mas que, sabemos hoje, não passa de um prosaico subterrâneo. A roda olha o tapete ensebado como se Hades em pessoa gorda e musculosa fosse surgir dali do meio, mesmo na roda não havendo Perséfone que preste para chutar, que dirá para raptar.
Alguém deve tomar a vez, e levanto-me:
— Boa noite. Meu nome é Branco, e eu sou escritor.
— Boa noite, Branco — novenam os outros.
Eu continuo. É preciso dizer o que vim dizer:
— Há um ano que não escrevo um conto — digo.
Os outros aplaudem. Sem animação, mas, ainda assim, é um aplauso.
— Estou limpo — digo, e curvo-me num esboço de sentar.
— Nem um poema? — interrompe-me um vozeirão afetado, viado velho que não publiquei por ser ruim, não por ser viado ou velho, coisa de que me acusou depois da recusa.
— Nem um hai-kai sequer — cuspo-lhe na cara, satisfeito e vingado.
Sigo no sentar, mas sou interrompido mais uma vez:
— E e-mails? Você não tem respondido nem um e-mail? — chia fina e rouca de cigarro uma voz. Eu olho para o escuro de onde veio o grasnido, e entendo: uma senhora velha conhecida, escritora inveterada que, hoje, afastada dos romances e outras prosas por recomendação médica e desespero familiar, insiste em me provocar com powerpoints diários, cheios de flores e outras ofensas, e sei que o faz para tripudiar de mim quando lhe respondesse — por escrito — com os palavrões que merece.
— Nem e-mails — digo à bruxa ressequida enquanto a encaro. Triunfante, continuo:
— E você sabe disso muito bem, moira.
Todos se olham percebendo ali alguma coisa, um revide?, alguma possibilidade de assunto, futuros escárnios. E sigo no sentar, que é incômodo permanecer tanto tempo na posição de quem vai levar um chute, sem levá-lo.
— E posts? Que me diz dos blogs? Nenhum post?
Sinto o sangue esfriar. Reconheço o sotaque de Pernambuco, e sei que agora não é um débil oponente que se acoberta no escuro. Proxeneta das palavras afastado da caneta, o canalha cangaceiro ganha a vida agora a revisar o alheio, a encontrar defeitos nos defeitos dos outros, a encher papéis de bolas e riscos a caneta vermelha. Sei bem o que o faz fazer isso, ele é como o ex-alcoólatra que conserva em casa o armário das bebidas, apenas para limpar diariamente as garrafas a flanela, sentir seu poder engarrafado, transmutado em álcoois coloridos e, no caso dele, cheios de bolas e riscos vermelhos. Mas o filho da puta não ia me derrubar com um risco só.
— Nem um sequer. Pode ir lá ver. Os blogs estão no ar.
— E este post? Que me diz deste post?
— Que post? — balbucio, antevendo o desastre.
— Este, homem! Este post! — grita.
Veio o chute, afinal. É verdade. Sou um fraco. Dia desses acabo escrevendo um romance. E, pior: sem querer. Nunca estarei limpo.

Não confunda “Sarah Palin” com “Sahara, com Michael Palin“.

Há camelos nas duas “obras”.

Não sei exatamente quando tudo começou — isso tudo aconteceu há muito tempo —, mas talvez o primeiro indício de que as coisas iam mesmo degringolar tenha sido quando o Kri virou Crunch. A princípio, ninguém se importou muito com isso, todos andavam ocupados com outras coisas que pensavam ser mais importantes, mas quando — anos depois — o Lollo virou Milky Bar, foi aí que todos viram que a situação não tinha mais volta, e que nada mais seria como antes.

Foi assim. Esta menina, depois de sofrer em silêncio por anos a fio, confessou-me hoje, num estertor descontrolado: “mas ô bannerzinho mais fuleiro do mundo esse do seu blog“. Achei que ela falava dos livrinhos aí no canto. Não era. Ela se referia ao leão banguela e grisalho que enfeitava (?) o “cabeçário” — neo-google-logismo, não reparem — deste blog. Tá bom, vá lá, eu largo da metáfora e me agarro ao explícito (e que explícito!): em homenagem a ela, mudo o banner. Até porque ainda não estou grisalho.

E já pré-respondendo às perguntas que virão: 1) Não, eu não faço coleção de fotos de bunda; 2) Não, esta não é uma capa recusada do livro do Biajoni; 3) Não, essa bunda não é dela; 4) Nem dela; 5) Eu já disse que não conheço a dona da bunda!

Puta filme.

Conclusões: Pobre só se fode, em qualquer lugar do mundo. Polícia é uma merda em qualquer lugar do mundo.

Meu segundo (e, por que não dizer, elogiado) livro esgotou. Bacana. Daí, para não deixar a meia dúzia de futuros interessados a segurar mangalhos, rodei dúzia e meia de exemplares no formato bolso. A reedição é menorzinha, mas tá tudo ali, re-revisado, ainda mais barato, correio nacional incluído, tudo por 14 conto. Melhor que isso, só se eu levasse o livro na sua casa e o lesse fazendo mímica. E isso eu não faço, porque o livro tá cheio de coisa feia, dessas que não se faz na casa dos outros. E eu, você sabe, sou muito educado. E então, vai levar quantos?

Pra quem quiser ler minha matéria na B2B Magazine, é só clicar aqui, pedir a página 12 e pumba! Pode dar zoom na página que o preço é o mesmo. Eu gostei. Tem até foto (by Olivia “Sinovial” Maia).

Valeu, Marcorélio!

Falando nisso, já viram Marcorélio e Senhôra, ambos em nova embalagem? Vão lá ver. Pelo jeito do último post dele, não é só a embalagem que é nova…

Estréia dia 11 de abril.

Faz mais de mês que o tio aqui deu entrevista pro Laboratório de Leitura, e não disse nada. Absurdo, eu sei. Mas agora vai, tô falando: entrevista comigo no Laboratório de Leitura, iniciativa tocada por Diego Franco, sujeito simpático e inteligente, sangue bom e novo pra misturar nessa baba aguada que circula hoje no meio literário. Vai lá ouvir. De quebra, você ainda leva Daniel Galera entremeado à minha entrevista (ou eu entremeado à dele, sei lá). Som na caixa, fofa.
E tem mais: já leu a B2B Magazine deste mês? Atendendo ao gentil convite do Marco Aurélio (ele mesmo!), escrevi minha opinião sobre os filhos da puta que fazem powerpoints com o único intuito de embelezar os dias, inundando minha caixa postal de merda como uma fossa entupida, mas é claro que não usei esse palavreado lá. Quando o texto for pro site da revista, eu dou o link. Por enquanto, vai pra banca. Fofa.

“No futuro, todos serão famosos para quinze pessoas”.

Se você é “das novas” (em oposição aos “das antigas”, como eu), além de estranhar o aparente erro de concordância no título, ainda não deve conhecer os cabras. Quer dizer, conhece mas não sabe que conhece. O Maurício Pereira (o de chapéu esquisito) lançou excelentes discos e tem aparecido em locuções de comerciais, o que não significa que esteja fazendo só isso. Já o André Abujamra (o de chapéu esquisito) fundou o Karnak (assunto que fica pra outro post) e é trilheiro porreta, entre outras coisas.

Dá uma olhada nisso e, se for a primeira vez que os vê/ouve, faça como todo mundo que não os conhece: perca-se no humor, na cenografia paupérrima, na… — como dizer? — …coreografia. Repare que tudo não passa de duas vozes, dois instrumentos e uma bateria eletrônica. Atordoe-se, inebrie-se com o tosco e, enquanto isso, deixe o sub-você (pra não chamar de “alma”, que soaria esotérico) perceber o brilhante por dentro do pedregulho. Das outras vezes que ouvir, pode apostar, você verá tudo: o brilhante e o pedregulho.

Não sentiu? Tudo bem. É uma pena, mas é assim mesmo.

A certa altura da vida, começamos a achar que nossa cama é o universo, nosso quarto, o planeta, nossa casa, o país, nosso bairro, a cidade. O que isso significa? Ora, a certa altura da vida, a gente começa também a escrever muita besteira.

Ando recebendo uns spams muito estranhos, com títulos num estilo meio ABNT. Coletei alguns pra colar aqui:

• Inspetor de Conformidade das Instalações Elétricas de Baixa Tensão de acordo com a NBR 5410
• Normas Técnicas Brasileiras para Transporte de Produtos Perigosos
• Formação de Auditores em Sistemas de Gestão Integrados
• Armazenamento de Líquidos Inflamáveis e Combustíveis
• Transporte – Normas, Regulamentos e Informações Indispensáveis para o Setor
• Proteção contra os efeitos das Descargas Atmosféricas sobre Estruturas e Equipamentos de T. I. segundo as Normas Brasileiras

Por onde anda o bom e velho “Enlarge your penis”? Acabou? Tá todo mundo servido de pinto?

Outro dia, lendo o blog do Polza (agora em nova embalagem, já foi ver?), encontrei um texto em que ele falava da horta que havia resolvido plantar em casa — e “casa” é maneira de dizer porque ele, assim como eu, mora em apartamento. No tal texto (cujo link não consigo encontrar porque o post sumiu na enxurrada — o cara escreve feito um coelho), o rapaz ressalta, além do prazer sentido ao comer sua própria salsinha, os valores que anda aprendendo com a tal horta e com seu cultivo. “Que coisa!”, pensei eu, “encontrar este texto bem no dia em que decido fazer uma horta no apartamento”. Sincronias, sintonias, sei lá, mas os indianos (ou algum povo daquelas bandas, todos pródigos em interpretações irreais da realidade) acham que as idéias são coletivas, flutuam por entre nós: uns sentem algumas, outros não; outros sentem outras, alguns não. Como um peido na praia.

A idéia — a minha e a dele — pode ser a mesma mas, sobre as hortas que dessas idéias brotam, diferenças há, é claro. Começa que a dele já existe, a minha não. A minha faz parte de um grande, enorme projeto de agricultura sustentável que, por força de toda a sua complexidade, teve que começar anos antes de eu sequer pensar na aquisição de qualquer semente. À parte o pé de manjericão que já viceja (e que já temperou muito molho de tomate), e de três caniços de feijão-rajado que plantei por piedade de alguns heróicos feijõezinhos que deram pra brotar dentro de suas vagens, minhas instalações hortifrúticas ainda não passam de uma composteira e de alguns vasos empoeirados.

Sim, uma composteira. Não há horta sem compostagem. E sou de uma família de tradicionais compostadores. Meu pai sempre compostou, e compostava muito bem. Minha mãe, até hoje, se descuidar, composta. E não fosse o fato de você sequer imaginar o que isso significa, eu poderia continuar o texto. Está bem: compostagem é o processo que transforma resíduos orgânicos em húmus. Em outras palavras, é o jeito de transformar lixo em adubo. E é lindo, acredite. Você joga num barril toda a porcaria que produz na pia da cozinha, espera uns dois meses, e retira de lá um maravilhoso composto orgânico (daí o nome), escuro como seu passado e de alto poder nutriente para as plantinhas de sua horta. Entenda por “toda a porcaria que produz na pia da cozinha” as cascas, talos e folhas de frutas, verduras e legumes, cascas de ovos, borra de café e mais alguma coisa assemelhada que desejar adicionar. E vá seguindo as instruções e seu instinto. Compostar também é uma questão de instinto: se estiver seco demais, adicione água; se estiver molhado demais, adicione terra ou serragem; se a composteira esquentar, você está no caminho certo; se feder, você errou alguma coisa, mas sempre haverá jeito de consertar. E a minha fede! Fede como seiscentos diabos saídos de um ônibus Manaus-Florianópolis (via Bogotá). Puta merda, o que aquilo fede! Não fosse a piada pronta, chamava o barril de combosteira.

Mas como as idéias estão no ar — assim como as drosófilas que pairam sobre minha composteira que, por causa delas, está seguramente coberta por um pano —, encontrei hoje no Guindaste da Carol Costa um link pra matéria dela na Bons Fluidos (nome que não deixa de ter certa graça, se considerarmos o assunto) que trata, justamente, de como NÃO ter uma composteira. A dela não fede, mas virou um berçário. E já grudou no chão. Mais um pouco, vai dar pra plantar um filme de terror. Tadinha da Carol, onde ela foi se meter…

E você? Quer dar uma compostadinha? Querendo experimentar, comece por aqui. Junte-se a nós. Se a idéia pega, em pouco tempo pode até rolar um meme.

Tenho — ou tinha, como há de se ver adiante — um vizinho muito… como dizer?… peculiar. Quando mudei-me para cá, há nove anos, era capaz que ele ainda não andasse pelos trinta. Sempre foi — ou é, como saber? — cordial e sorridente, e nunca combinou com o monstro que levava pela coleira, um rotweiler medonho, enorme e cabeludo, que, disse-me um dia, trouxe de uma viagem à China. A fera chinesa, em todas as vezes que a encontrei pelo pátio do prédio ou pela rua, não perdia a oportunidade de me assustar, fosse com um rompante, um pulo na minha direção, um latido vindo das profundezas do inferno. Não sou de me assustar com cães, gosto deles, e eles, em contrapartida, tratam-me com toda a civilidade de que dispõem, conforme o cão e suas qualidades. Mas aquilo não era propriamente um cachorro. Era um rotweiller chinês com genes de dragão atavicamente adquiridos, e eu, sempre que o via passar com a boca cheia de baba e os olhos de vidro pregados em mim antevia o momento em que teria que matá-lo a tiros em represália a um ataque que ele certamente desferiria contra um de meus filhos.

Apesar do cão, este vizinho era — ou é —, entre todos, o mais agradável, o mais delicado. E o mais esquisito. Quando mudei para cá, ele dava aulas de luta greco-romana a uma tropa de adolescentes. No pátio do prédio. Depois, começou a adestrar cães alheios, e que ninguém me pedisse referências porque eu, certamente, daria as piores: aquele monstro na outra ponta da corda atestava sua incompetência no mister. Pouco tempo depois, parte das noites começou a ser preenchida com um estranho ruído, uma pancadaria surda, bum… pausa… bum… pausa… bum…, todas as noites, todas as noites. Não sou o tipo de sujeito que sai por aí a perguntar, mas sou capaz de passar meses conjecturando a respeito do que me incomoda, investigando e anotando fatos e atitudes que, talvez, um dia, encaixem-se e resolvam um determinado mistério. Quando, lá pela terceira vez, o vi pela janela a carregar paralelepípedos da rua para dentro de casa, logrei adivinhar o que acontecia e que, realmente, estava acontecendo: o maluco tinha dado pra quebrar pedra.

Certa noite, quando o encontrei chegando com quatro dos pedregulhos debaixo dos braços, e lhe perguntei se havia resolvido trocar o piso do apartamento, ele sorriu e respondeu:

— Não, não. É pra quebrar.

Diante de minha fingida perplexidade — eu tive que fingir, por já haver descoberto a coisa toda com minhas deduções —, ele abriu a porta do apartamento e mostrou-me a ferramenta que usava na função: uma barra de ferro maciço, achatada de um lado e com uma bola de pano sujo na outra ponta, algo como uma chave de fenda com metro e meio de comprimento. Segundo relatou, encostava o paralelepípedo no rodapé da sala, segurava a chave de fenda pela bola de pano, e socava-a pedra adentro feito lança, às pancadas, até que o tarugo se partisse em dois pedaços, o que, ao invés de encerrar o trabalho, duplicava-o, pois ele passava a ter dois meios paralalepípedos a quebrar. E assim por diante, seguia em busca do átomo de paralelepípedo, ou até que nós outros dormíssemos. O que acontecesse primeiro. Para comprovar que aquilo dava trabalho — como fosse necessário — mostrou-me as mãos: eram dois calos com cinco dedos cada, todos recobertos de calos menores, tudo amalgamado à ferrugem da lança. Já vi tumores mais bonitos.

Por mais estranho que pareça este vizinho, garanto que, entre todos, é — era? — o mais cordial e sensível. Uma vez, apareceu com uma gata no bolso do casaco, filhote escangalhado pelo frio e pela fome, que ele tinha encontrado na noite do parque, à deriva e à espera da morte. Como se não bastassem os olhos a pular para fora da cabeça, o pêlo carcomido de sarna e os incontroláveis tremores de desnutrição e medo, a gata ainda exibia — ou melhor, não exibia — uma das pernas traseiras. Tirou o bicho do bolso, mostrou-mo e, como se respondesse ao meu olhar incrédulo, disse:

— Imagine se eu deixo essa coitadinha no parque! Se sobrevivesse, ela se tornaria uma gata muito má. — e foi para dentro do apartamento, atrás de um pires de leite.

Verdade seja dita, a gata hoje é linda, mansa, e só não abre as pernas a todos os gatos da vizinhança porque não as tem.

Há tempos, passei a encontrá-lo apenas à noite, fosse entrando, saindo do prédio ou andando pelo bairro. Nessas ocasiões, carregava uma espécie de mochila, um trambolho que lhe ia do alto da cabeça — atado a ela — até a altura dos joelhos: um caixote pouco mais estreito que uma geladeira e que, a julgar pela sua expressão ao carregá-lo, tão pesado quanto uma. E mesmo durante tão desconfortável atividade, se me via, cumprimentava-me. Rápida e contidamente, é verdade, mas cumprimentava-me. Parecia que treinava para alguma coisa, sei lá.

As estranhices eram tantas, que eu já nem ligava mais. Ficava só esperando a próxima. Por essas e por muitas outras, dei-lhe o secreto — e, acredite, carinhoso — apelido de Forrest Gump. Mas Forrest… sumiu. Não o vejo há meses e, cada vez que me lembrava disso, preocupava-me. Por onde andará? Andaria? Anda?

Pois então: anda! Fiquei sabendo por outro vizinho que ele arranjou um “patrocínio” (palavra do vizinho) e saiu pelo mundo. Andando. Espero eu que sem a geladeira às costas.

Go, Forrest, go!

Vai passar nessa avenida um samba popular. Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar ao lembrar que aqui passaram sambas imortais, que aqui sangraram pelos nossos pés, que aqui sambaram nossos ancestrais.
Num tempo, página infeliz da nossa história — passagem desbotada na memória das nossas novas gerações — dormia a nossa pátria mãe — tão distraída — sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações. Seus filhos erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes, erguendo estranhas catedrais. E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chamava Carnaval, o Carnaval, o Carnaval. Palmas pra ala dos barões famintos, o bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do boulevard. Meu Deus, vem olhar! Vem ver de perto uma cidade a cantar, a evolução da liberdade, até o dia clarear!
Ai que vida boa, o-le-rê, ai, que vida boa, o-la-rá, o estandarte do Sanatório Geral vai passar!

Acho o Carnaval um saco! Mas esse samba é foda. E chega! Não falo mais de Carnaval! Aliás, não tenho falado mais de muita coisa. Mas eu volto. Depois do Carnaval.