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Hoje vinha para casa, entre um e outro destino, pensando na crônica. Não em uma, mas em todas. O que são, de onde vêm, para onde vão, essas coisas. Depois de falar sozinho por algum tempo, percebi que escrevia uma. A crônica é isso, um fiapo de pensamento, preso entre dois dentes, que vem fora na ponta de um palito que a cutuque.
Crônicas devem ser leves, efêmeras. Digestivas. Como biscoitinhos de nata, como um café no meio da tarde. O cronista seria, então, uma quituteira gorda que prepara e assa suas bolachas depois de ter escolhido ingredientes com mãos cuidadosas. A crônica, apesar do pouco sustento, deve sempre ser saborosa. E não grudar no céu da boca.
Crônica é a qualidade de qualquer doença persistente, que resista a tratamento. Deve também ter suas fases agudas. Pode ser causada por um microorganismo, uma disfunção, ou ser apenas produto da imaginação. O cronista, então, poderia ser um hipocondríaco, doente do mundo, que não cura sua doença; antes, a sustenta.
Cronicar, verbo intransitivo. Não está no dicionário, ao menos não no que tenho à mão: minúsculo, dele não consta muita coisa. Preciso me lembrar de ver no maior. Não me importa, porque cronicar é a arte de se ater ao minúsculo e, por isso, fazê-lo maior. E, quando algo for maior do que merece, diminuí-lo, se for conveniente. Experiências genéticas com as palavras, ou apenas infantis brincadeiras com binóculos? Cronicar, nesse caso, seria a arte de colocar o binóculo na posição mais interessante, conforme o assunto.
Cronicar, no fim das contas, talvez seja apenas escrever uma carta. Uma carta para ninguém, uma carta para qualquer um. Como um bilhete dentro de uma garrafa, que só diz “Olá, estou aqui!”. Quem decide se vai haver resposta é o mar. Ou Deus: o leitor.
Para mim, percebo, o mais difícil da crônica é terminá-la. Sempre sinto aquela sensação de não ter dito tudo, de que falta alguma coisa. Mas quando lembro que — com muita sorte! — só terei me esgotado quando estiver morto, relaxo e compreendo que terminar uma é me preparar para começar a próxima. Seja uma vida, seja uma crônica.

06.jun.1991 (É mole? Puta velharia. Foi o jeito que arranjei pra postar alguma coisa enquanto me desenrolo dos lançamentos d’Os Viralata. Volto logo. Logo que terminar essa correria.)

Pois é, tem gente reclamando (ou quase isso), dizendo que não consegue ver o site d’Os Viralata. Peço paciência. Vai dar tudo certo, e faltam poucas horas.

Mas o visitante merece uma explicação. Tudo começou quando, há duas semanas, pedi um upgrade do plano de hospedagem que usava antes. Com o novo plano, deixava de pendurar um site no outro (isto é, de fazer Os Viralata pegar carona no Infernet), e passava a ter uma hospedagem de respeito, com tráfego aberto, cinco caixas postais, sala, cozinha, banheiro e amplas dependências de empregada. A clientela merece.

Então, há duas semanas (antecedência rara em mim, porque costumo prever terremotos apenas ao cair do primeiro lustre na minha cabeça), pedi o tal upgrade. A coisa ensebou, demorou, eu tava ocupado vendendo o livro do Biajoni, e a porra da migração tinha que acontecer no dia em que não podia acontecer. E eu tive que sair correndo pra trocar os DNSs (você não sabe, mas acredite: é importante trocar os DNSs), reconfigurar tudo, subir o site para o novo servidor e, pra piorar, nesses casos o domínio precisa ser repropagado (explico: todos os servidores do mundo precisam ser avisados que o domínio osviralata.com.br mudou de lugar; como são muitos, esses servidores são avisados paulatinamente, e essa paulatinação toda dura 24 horas). Enquanto TODOS os servidores não forem avisados, aquele senhor na primeira fileira pode não ver o site ao mesmo tempo em que a senhorita de terceira fila o vê e se esbalda.

Vai daí que, a partir das 15 horas (GMT – 3) de hoje (23 de junho), o site estará no ar para — literalmente — todo mundo. Tente de novo. Sua visita é muito importante para nosco. Pela atenção, obrigado.

Uma semana sem um post que mereça o título, que dirá um post decente. Sabe o que é? Correria. Cinco dias arrumando Os Viralata pra receber a moçada que deve vir comprar os novíssimos lançamentos: Virgínia Berlim (de Luiz Biajoni) e Liberal Libertário Libertino (de Alex Castro). Papa muito fina, o site merecia uma reforma comemorativa. Mas deu um trabalho dos diabos.
Vai lá ver. Não precisa comprar nada não, só vai ver a loja e depois me conta o que achou.

E então, gostou? Tá navegável? Tá confuso? Tá o quê?

Agora é uma enxurrada de visitantes procurando por “desenhos para colorir”. Isto aqui é um blog de textos, não vou ficar publicando desenhos.
No entanto, sempre disposto a ajudar, publico uns links de imagens para colorir com a petizada. É clicar, imprimir, e cair na farra. Garanto que eles vão adorar!

Pinta, meu nego!
Mas que grande tinteiro você tem!
Vai buscar outra caneta, essa está com a ponta muito grossa…
Ah, cansei de desenhar!

Update: faltou dizer que os desenhos foram lincados do site de Vlad Camargo.

Por causa das frases que copiei neste post, tenho recebido nos últimos dias não menos de três ou quatro visitas de pessoas querendo “desenhos para colorir” de diversos assuntos. Com isso, penso: o cabra pega um computador — que, por pior que seja, sempre é um exemplo da capacidade inventiva e tecnológica da espécie humana —, acessa a Internet — que é, talvez, a maior de todas as maravilhas inventivas e tecnológicas da tal espécie humana —, e vasculha o Google — a segunda maior dessas maravilhas mencionadas —, procurando por… desenhos para colorir, talvez a mais tosca expressão de arte que se tem notícia, datada dos primórdios da tal espécie, época em que alguns exemplares de Homo nem tão sapiens que habitavam as cavernas de Altamira resolveram pintar uns bois na parede, não tiveram paciência de encher os desenhos e pediram aos Hominhos ainda menos sapiens — filhos deles — que o fizessem.

É verificando isso que chego à coclusão de que a humanidade ainda tem solução. Ou não, sei lá.

— O que é isso, Emília? — pergunto olhando a forma de vidro cheia de um líquido cor de chá, feijões pretos submersos cobrindo-lhe o fundo, muitos outros ainda a boiar antes de ir a pique. Em outras palavras, duas camadas de feijão separadas por uma grossa camada de água suja.

— Feijoada! — esclarece ela, sorrindo. E continua: — Encontrei em casa um saco de feijão preto antiiiiigo — estica o i para dar a idéia dos séculos — já meio carunchado, e trouxe para fazer uma feijoada para você. Eu era moleque, andava lá pelos dezoito, e já sabia o que era uma feijoada. Meus pais tinham ido a Portugal, e minha mãe, sempre cuidadosa com seu “filhinho”, havia incumbido Emília, uma das trezentas primas de meu pai, a sair de sua casa e vir cuidar de mim.

“Cuidar de mim”, nesse caso específico, significava “cozinhar”, justo para mim, que nasci dentro de uma cozinha. O problema é que, no afã de bem prover, minha mãe se esquecia de um pequeno detalhe: se Emília sempre foi um ótimo papo, uma simpatia sem igual, dona de uma das gargalhadas mais gostosas que já tive o prazer de ouvir, ela conseguia compensar isso tudo — com folga! — sendo, sem sombra de dúvida, a pior cozinheira do mundo. Certa vez, encontrei na geladeira uma travessa aparentemente cheia de folhas varridas da calçada, para descobrir depois que eram brócolis ao alho e óleo. Isso, sem falar dos sabores inimagináveis que ela conseguia extrair do fogão, tornado numa máquina mortífera quanto pilotado por ela. Arroz fresco e já azedo ao terminar do cozimento, lingüiças defumadas cheirando a carniça, o inferno era o limite para a culinária de Emília. E mesmo eu, que nasci dentro de uma cozinha, não consigo fazer idéia de como se consegue obter semelhantes quitutes a partir de ingredientes corriqueiros.

Há quase dois anos, Emília rolou escada abaixo. Não quebrou nada mas, desde então, permaneceu deitada e imóvel, até ontem à noite, quando veio a falecer depois de complicações maiores numa situação já deveras complicada. Deixa muita saudade. Da simpatia, do papo, das risadas.

Ela detesta camarão, lula, arroz, mas passa a tarde na cozinha, limpando camarões para fritá-los à Paulista, esvaziando lulas para refogar num tempero verde e perfumado, medindo a água cuidadosamente para que o arroz fique soltinho. Esfalfa-se na cozinha, retardando os engulhos que sente a toque de muitos copos de um bom tinto, preparando comida que não gosta.
Depois do jantar, ele se vinga: abre as calças, vai pro sofá e dorme. Ela corta as bolas dele e as frita. Com batatas, muitas batatas.

• “como aprender a desfilar
Fácil: aprenda a andar com um dicionário na cabeça. Mas cuidado: jamais, em hipótese alguma, leia o que está do lado de dentro do dicionário (do lado de fora, pode, vá lá). Principalmente o verbete “imbecilidade”.

• “primeiros relatos de fenômenos alérgicos
Atchim!

• “tres frases com a palavra inglesa will
1) I will fuck your daughther
2) Will you be dumb some day?
3) Hey, Will, come on here!

• “piores blogs
Pronto, achou! E agora?

• “rabino gravatas
Porra, será que dá pra mudar de assunto?

• “auto-retrato em binóculo
Ah, essa eu também queria ver!

• “nao sei mais o que fazer co filho depressivo
Se fosse meu, eu começava enchendo de porrada. Benzodiazepínicos, só na segunda fase do tratamento.

• “dalton travisan
Procure por TrEvisan. Melhor sorte na próxima busca.

• “youtube não carrega
É, eu sei.

• “língua africana
A África não é um país, pequeno jerico.

• “nota de 50 reais para impressão
É o cúmulo da preguiça. O fofo resolve ser falsário, e começa procurando matrizes no Google!

• “comos fazer um relatorio
Olha, comeces as busca des outros jeito.

• “resumo do livro moleques de rua
— Tio, dá um trocado?

• “como mandar um livro de autoria propria
Andaram inventando um troço chamado Correio, mas é coisa nova, está em fase de testes, e é bom não arriscar.

• “fotos caseiras de bundões
Que pena. Só tenho fotos oficiais.

• “frases de arte africana
Hein?

• “resumo do livro um trem de janelas acesas
“— Como esse troço chacoalha. Não consigo dormir. Dá pra apagar essa porra?
— Peraí, deixa eu acabar mais essa página!”

• “o que neil armstrong quis dizer com a frase
Ah, fofo, eu também me pergunto isso. O cara põe o pé na Lua e diz “É um pequeno passo para o homem, um grande salto para a Humanidade!” E o cu com as calças? Será que ele achava que a Humanidade ia começar a usar salto alto daí em diante? Só se for.

• “blogs sobre sensibilidade
Não, obrigado.

• “que mundo pequeno
Parece, mas não é bem isso. A renda que é mal distribuída.

• “tudo sobre livros
Isso que é pesquisa inteligente, bem feita, produtiva. O Google que se vire pra despejar o resultado no computador dessa besta.

• “pao de metro no bazar do valter
Aí, Valter, tá vendo o que você perde por não ter um site? Ah, era “pau”? Pô, Valter, sai pra lá com esse troço!

• “radio globo zora ionara
Impressionante, não passa um dia sem que apareça aqui alguém atrás da Zora. A mulher é um sucesso. Imagine se fosse astróloga!

• “sempre houve mais ou menos letrados
É verdade, sempre houve. Uns mais, uns menos. E os menos sempre fizeram pesquisas estúpidas como essa, mesmo quando não havia Google. Mas verdade seja dita, o verbo haver foi usado com muita propriedade.

• “camundongo desenho para colorir
Ah, fofo, vai chupar uma rola, vai!

Eu gosto tanto da avenida Paulista que, quando vou pra Consolação, chego a descer na Brigadeiro só pra poder andar a pé pela avenida e não perder nada do panorama. Vou como sempre, mão no bolso, periscópio ligado, absorvendo o espaço pelos olhos, nariz e ouvidos, sentindo perfumes nacionais e estrangeiros, observando as moças se equilibrarem nos saltos finos sobre as pedras irregulares do calçamento, parando nos camelôs e entristecendo-me por não usar relógio (cada Rolex lindo por 15 pratas!), por não gostar de música popular (dvds da banda Calypso por 7!), por não precisar de uma multi-lanterna-sirene-bússola-cantil (por 12!).

Por isso tudo, venho sorrindo — ou quase isso — e, ao chegar ao Masp, vejo pessoas de branco, dezenas, centenas de pessoas de branco como num congresso de pais-de-santo, mas de estetoscópios no pescoço — pescoçoscópios —, entristeço-me novamente ao perceber que haveria mais pretos se fosse mesmo um congresso de pais-de-santo, e vou olhando a meninada em baixo do Masp, ao lado do Masp, por cima do Masp (são mesmo muitos), e as faixas a oferecer saúde, previna-se, cuide dela, é uma campanha pela boa saúde promovida por uma universidade particular — e por isso há tão poucos pretos —, meça sua pressão gratuitamente, avalie seus níveis glicêmicos, mesmo que não saiba o que é isso, e a meninada de pescoçoscópio em punho — punhoscópio? — a pescar passantes, a laçar reses distraídas, a medir suas pressões, a assustá-los um pouquinho, e eu sorrio enquanto ensaio o não, obrigado, minha pressão é uma merda mesmo, e vou passando por dois, cinco, quinze moças e rapazes de branco, vinte, mas eles, trinta, ao contrário dos bêbados — que têm por mim uma atração quase mágica — ignoram-me, e cem pessoas de branco deixam-me passar sem moléstia, como se fosse invisível, como se não estivesse ali.

Das duas, uma: ou transpareço saúde, ou já estou visivelmente desenganado.

Posso até não ser um best-seller, mas este meu amigo aqui já foi alçado à categoria de meu best-buyer. Inteligente e sempre atento às oportunidades, descobriu que ainda existem presentes baratos e de altíssima qualidade à disposição no mercado. E  não é mão-de-vaca como certas pessoas que eu conheço.

Então, é o seguinte: um é 15, dois é 20. Pedidos pelos comentários.

E não reclame comigo! Se eu não fizer isso, que vai fazer por mim? Pense bem, eu não tenho opção!