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— Oi! — ela disse quando atendi o telefone. Estava alegre, bastava o oi para que se percebesse. Estava quase alegre. Que bom, — pensei — já fazia tempo.
— Tudo bem? — perguntei.
— Tudo. — e riu de leve, quase uma tosse. Fez uma pausa.
— Diga. — disse eu, pensando no que a faria telefonar assim, no meio da manhã, horário estranho mesmo para ela, que tinha passado anos me telefonando, mas quase nunca antes do almoço.
— Não sei. Deu vontade de ligar. Fazia tempo que não ligava pra você de manhã.
— É verdade, muito tempo. Pensei nisso agora mesmo. Anos?
— Eu achei que você pudesse ter pensado nisso. Engraçado, não é? Como a gente se conhece…
— É mesmo. Conheço tanto, que acho que você está com algum problema mas não quer me dizer, Nora. — pensei um pouco — Mas ao mesmo tempo, também quero estar enganado, não quero você com problemas.
— Pois é, isso é amizade. Eu sei como é. Sentiria o mesmo que você, se não estivesse tão confusa. — disse ela.
Outra pausa. Quem volta a falar sou eu:
— Conta, Nora, o que há?
— Nada, eu já disse — e me impressionou como a voz tinha mudado, a tristeza por detrás da fala — estou bem. — mentiu — Liguei só pra dizer que vi, daqui da janela da sala, uma menina lendo um livro meu, dentro de um carro parado no sinal.
— Que ótimo! — embarquei. — E que livro era?
— Não sei. — e parou de novo. Quando continuou, a voz tremia, quase chorava — Eu ainda não o escrevi.
Meu sangue endureceu. Deus, não de novo!
— O que você disse, Nora? — e eu quis ter ouvido errado, quis que ela tivesse dito outra coisa qualquer que se parecesse com o que eu tinha ouvido. Ela calada, eu a sentia respirar. — Nora?
— Não estou bem, querido. Eu sei que não estou bem. — disse ela, calma, muito calma, sem nenhuma tristeza.
— Nora, onde você está?
— Em casa, eu já não disse?
— Sim, eu sei, mas em casa onde? Na sala?
— É, na sala, eu já disse. Em pé no meio da sala.
— Nora, não sai da sala de jeito nenhum, eu já estou indo. Faz o que eu estou pedindo, por favor — e eu falava sílaba por sílaba, como quisesse que ela decorasse o procedimento — Eu já estou chegando.
— Um beijo, meu amigo. — e me deixou em companhia do sinal de ocupado. Gelado. E pulsando.
No caminho até a casa de Nora, no táxi, berrei com o motorista para que andasse mais rápido, as lembranças de Nora pelas celas e corredores cadeia sirenes gritos reboando pelas paredes de concreto, ela passando arrastada de volta à cela, atirada ao chão, o som de saco de carne molhada caindo, Nora, batendo na laje, a dor e o abandono que tinham lhe arrancado o brilho dos olhos e o branco da pele, a cabeça raspada no lugar dos dedos pelos cabelos compridos, saí do táxi e corri os dois últimos quarteirões a pé entre carros e calçadas cheias de gente esbarrões tropeços encontrões, os gritos na cadeia, altos, uivos, para que nós outros ouvíssemos, a mulher de pele coberta de cicatrizes e queimaduras que encontrei no pátio em dia de sol, unhas esfareladas de arranhar chão e paredes, nós dos dedos em cascas de sangue seco, o cheiro tão ruim quanto o meu, o sorriso cheio de lágrimas que deixou ver um dente a menos, subi as escadas e o terror que senti ao ver a porta meio aberta do apartamento, dois dedos de porta aberta, fresta por onde entrou meu medo, por onde tinha saído o amor-próprio de Nora.
Encontrei-a no banheiro, caída, o rosto ao lado da privada, tudo e ela, tudo sujo de um vômito rosado que cheirava a açougue e água sanitária. Uma garrafa branca tombada. Ao sol, na beira da janela, a lata de soda cáustica aberta, uma colher enfiada no pó branco como Nora. Macia, morna, quase bonita. Morta.
Fui para a sala. Atravessei o sol que entrava pela janela e fazia o tapete colorido pintar tudo de mostarda, e me sentei na poltrona, a poltrona que tinha dito a ela para se sentar e me esperar, a poltrona de veludo cor de vinho, a poltrona que ela me disse um dia, na cadeia, que daria tudo para estar dez minutos sentada. Daria tudo para encostar o rosto no tapetinho que ela tinha colocado onde a cabeça encosta. Ela já teria dado tudo por dez minutos na poltrona.
Peguei o telefone, ainda perfumado da sua última ligação para mim, e chamei a polícia, sentindo o cheiro bom. Encostei a cabeça no tapetinho, olhei para o teto, fechei os olhos, e terminei de ler o último livro de Nora, ouvindo as sirenes ao longe.

Escrito em 2002 por outros motivos, republico hoje este conto em homenagem a Paulo Sérgio, amigo morto em combate com a esquizofrenia. Que descanse, enfim, em paz.

Não sou muito chegado a mudanças. Entre todas as possíveis (e são muitas!), a que mais me incomoda, talvez, seja a de faxineira. Puxa, a antiga estava lá, trabalhando direitinho, já sabia onde podia e não podia mexer, já tinha aprendido que fios elétricos não são feitos para enroscar na vassoura, que a mangueira da máquina de lavar despeja na privada e que não deve ser removida de lá enquanto a lavagem não terminar, já tinha aprendido que eu detesto chão encerado porque detesto escorregar e, principalmente, já sabia o que é e o que não é lixo numa casa em que isso nem sempre é muito claro por motivos diversos e que não vêm ao caso. Mas a faxineira anterior era boa demais pra ser apenas faxineira e foi alçar outros vôos, e bem merece que tenha sucesso. Enquanto isso, eu, um pobre patrão…

— Bacana essa estante, hein? Grandona.
— É.
— Por que os livro tá tudo no chão?
— Porque eu acabei de fazer a estante, ainda não tive tempo de arrumar.
Ela alisa umas das prateleiras com a palma da mão.
— Aqui eu passo lustra-móveis, né?
— Não, é melhor…
— Óleo de peroba, né?
— Não, sabe, é que…
— Cera?
— Se você me deixar terminar a frase, garanto que consigo explicar.
— …
— Não precisa passar nada. A madeira já está tratada, basta tirar o pó. Se você passar alguma coisa sem tirar os livros, a madeira embaixo deles vai ficar mais clara e, portanto, desigual. Se você tirar os livros, não vai conseguir pôr tudo de volta no lugar certo. Daí, o melhor é não passar nada mesmo.

Silêncio sepulcral, olhos descrentes. Eu não perco mesmo a mania de dar explicações enormes e inúteis. Bastava um “não passa nada”, e pronto. Mas eu não aprendo. Para mudar de assunto, pergunto:

— O que você vai fazer de almoço?

A antiga faxineira cozinhava. Com isso, eu não precisava umbigar o fogão em dia de faxina, até porque a cozinha fica beirando o intransitável com a bagunça provocada pela arrumação. Mas esta:

— Nada. É o senhor que vai cozinhar.

Digamos que eu até admire a franqueza e uma eficaz exposição de pontos de vista, mas… bem…

Primeiro dia de trabalho, não podia ser de outra forma: pergunta atrás de pergunta.

— Onde tem sabão?
— Cadê as buchinha?
— Não tem bassoura de pêlo?

E cai coisa no chão. Não quebrou.

— A dotôra tem avental?
— Tem uns quatro, acho.

A “dotôra” é médica e, como sói a esses profissionais, usa avental. Mas não era isso que ela queria. Procurava um para ela mesma, “pra mim num molhá a barriga, sabe?”. Por pouco, quase começo a explicar que, nesta guerra, é o soldado que traz a espingarda, mas paro a tempo. Ela não vai me pegar de novo. E seguem as perguntas:

— O que eu faço com esse caixote? — apontando para minha… como dizer?… horta.
— Ela [a “dotôra”] usa essa sapataiada toda?

E cai coisa. Não quebrou de novo.

— Como eu baixo a janela do quarto? Queria jogar água nela. Tem mangueira?
E eu só pensando se ela pretende fazer isso pelo lado de fora do quarto.
— A descarga do banheirinho lá fora emperrou, é assim mesmo?

E cai coisa. E mais coisa. Ai, meu Deus, um terremoto! Agora quebrou! Foi-se o vidrão, um vidrão enorme, onde eu faço… quer dizer, fazia minha conserva de pepino. O vidro em que minha mãe fazia a mesma conserva. Um frasco histórico. Não me lembro de viver sem ele por perto. Daqui pra frente, não será assim.

— O senhor pode descontar do meu salário, viu?

Se eu fizesse isso tomando por base o valor sentimental, ela ia trabalhar de graça por dez anos. Melhor deixar pra lá. E dá-lhe pergunta:

— A que hora chega a dotôra?

Logo, eu espero. E toca a cair coisa no chão. Faço o almoço. Macarrão à bolonhesa. Um panelão tamanho caserna. Faço meu prato, vou comer no quarto, aviso que o grude está pronto. Pausa na demolição. Escuto a panela sendo aberta. A panela sendo fechada. O tlic-tlic do garfo no prato. O prato sendo lavado. Já? Não é possível. Ou a mulher não come, ou come feito um diabo da Tasmânia. Falta meia panela de macarrão: opção 2, o diabo da Tasmânia. O que, em parte, explica a demolição.

— Você come meio depressa, não?
— É, como. É o meu defeito, sabe?
— Pois é… — sorrio — todos temos que ter um.

Hoje de manhã, quase me arrebento ao entrar no banheiro: o chão estava encerado, liso como gelo. Meu aparelho de barba sumiu e, estranhamente, só pôde ser encontrado no fundo do armário, junto com o estoque de sabonetes. Minha mulher escovou os dentes com a minha escova: o diabo da Tasmânia trocou as duas de lugar, e a “dotôra” não reparou. Infelizmente, eu raparo nessas coisas. É o meu defeito, sabe?

Não é por ser edição d’Os Viralata, mas é coisa boa. Recomêindo.

Cada
época
tem
o
Bartolomeu de Gusmão
que
merece.

Sinceramente, acho que estas datas comemorativas de minorias e/ou coisas-que-correm-perigo (mulheres, micos-leão, água limpa) servem para pouco, porque os assuntos abordados acabam sendo tratados meio como “deixa eu falar disso pra me sentir bem e só tocar no assunto de novo daqui a um ano”. Além disso, penso que o grande problema desse tipo de ação seja a banalização do assunto, muitas vezes relevante e de discussão necessária. Falar demais na coisa — seja qual for — acaba por enfastiar o alvo da mensagem ou, pior, embirrá-lo. Vide os intervalos comerciais de certos canais a cabo: creme dental, refrescante bucal, fio dental, escovas com cerdas especiais e, depois de dois ou três blocos de anúncios desse tipo, a gente começa a ter vontade de nunca mais escovar os dentes. Mas como o convite para esta blogagem coletiva em comemoração ao Dia da Terra veio de um sujeito sério, a quem prezo muito, e também porque ficar calado não tem, certamente, nenhuma utilidade, resolvi aceitar escrever sobre o assunto.

Começo percebendo que, há alguns anos, um Dia da Terra seria visto, no mínimo, com sarcasmo. Por que precisaríamos de algo assim? Este é o planeta em que vivemos, que pode — e sempre poderá — ser tratado como casa alugada. Quebram-se os lustres, sujam-se as paredes, o carpete, queima-se a fiação, entopem-se os canos… e vamos embora. Pois bastou perceber-se — e foi preciso um surto de inédita “inteligência” — que não há planetas para alugar nas imediações para que algum movimento começasse no sentido contrário, o de limpar e reformar a casa alugada.

Escrevi “inteligência” entre aspas não por ironia, mas por não acreditar que seja mesmo isso. Acho que é só medo. No máximo, uma inteligente demonstração de medo. E mais: sabe-se que, em qualquer situação, só há duas coisas que movem o ser humano: prazer e lucro. E essa tal de Ecologia só começou a pegar quando se percebeu que dava lucro. Prossigamos.

Ainda sobre comunicação de massa — e seus alvos, mensagens e fastios —, não há o que me incomode mais que o tom imperativo das mensagens publicitárias e afins. Beba! Coma! Use! Conheça! Compre! Ora, vão dar ordens pro raicosparta! Já não chegam meus clientes e meus credores, ainda tenho que aturar gente desconhecida a me dar ordens? Desde o “Beba Coca-Cola” que vimos sofrendo com a imposição desse imperativo. Um século depois, nossos ouvidos já não atendem a ordens — ou até atendem, mas com mais dificuldade. Mas, puxa, agora seria o momento de atendê-las: Economize!; Preserve!; Cuide!.

Não vou cometer o mesmo erro. Ao invés de dizer o que os outros devem fazer — dando-lhes ordens —, vou dizer o que faço, o que tenho feito para cuidar desta casa. E, se não posso garantir lucro a ninguém, garanto que isso tem me dado algum prazer.

Lixo
Jogo fora muito pouca coisa. Encaminho para reciclagem o plástico, papelão, vidro, metal, cartelas vazias de remédios, embalagens, pilhas e toda a sorte de materiais reaproveitáveis que deixaria para o lixeiro. Encontrei um projeto que atende às minhas exigências: é tocado por uma empresa séria, e destina o dinheiro arrecadado para ações sociais. Dá pouco trabalho: só precisei arranjar uma sacola enorme e um prego para pendurá-la. Vou jogando lá todo esse “lixo” e, quando a sacola está cheia, levo-a ao posto de recolhimento próximo da minha casa.
Papel de escritório, quando tem informações confidenciais — comunicações bancárias, por exemplo — é passado pela fragmentadora e encaminhado ao mesmo lugar. Folhetos de propaganda que chegam ao prédio são tratados como spam e têm o mesmo destino. Pico até os maços de cigarro vazios. (Sim, eu fumo. Vai dizer que eu poluo mais que você? Duvido!) O único papel que não vai para reciclagem é o higiênico.
Quando vou ao supermercado, levo minha própria sacola ou o carrinho de feira, o que me faz não precisar de sacolas plásticas.
Quanto ao lixo orgânico, vai quase todo para compostagem, e termina adubando a pequena horta que estou fazendo no apartamento. Resultado: jogo fora apenas uns 20 litros de lixo por semana. A média para duas pessoas, no mesmo período, é de 70 litros.

Energia
Eu e minha mulher precisaríamos, em prol de maior mobilidade, ter dois carros. Temos um só, que fica predominantemente com ela, porque não há transporte público viável entre nossa casa e os hospitais em que ela trabalha, todos distantes. No entanto e por sorte, esses locais estão sempre no contrafluxo do tráfego, e raramente ela se enfia em congestionamentos. Quanto a mim, trabalho em casa por diversos motivos, e tudo o que preciso fazer fora, faço-o a pé ou, quando não tenho outro jeito, de táxi. Resultado: gastamos 50 litros de gasolina por semana e não sabemos o que é trânsito congestionado.
Quanto à energia elétrica, mantenho a geladeira bem fechada e no mínimo, abuso do desligamento automático de eletrônicos, o chuveiro está sempre na temperatura mínima aceitável, e ando pela casa apagando luzes feito um velho aposentado. Resultado: meu consumo é tão baixo que, quando houve o racionamento, e todos foram obrigados a cortar 20% do consumo, eu NÃO TINHA onde economizar, e minha energia só não foi cortada porque a companhia só tinha condições de punir os maiores esbanjadores. Caso contrário, eu teria ficado três meses sem luz.

Água
Banho de 5 minutos (sem correr, questão de costume), água fechada durante a barba e a lavagem da louça, descargas cuidadosas numa privada que não recebe lixo flutuante, a máquina de lavar roupa só é ligada quando está cheia, o carro só é lavado uma vez por ano (e olhe lá!). Resultado: minha colaboração ao consumo do prédio não deve chegar a 10 metros cúbicos.

Até faço outras coisas, muitas e pequenas, que nem vale a pena mencionar aqui. No fim das contas, tudo é resultado da maneira que encontrei de obter lucro (economizando) e de sentir prazer (pensando-me menos responsável pela poluição). Se mais pessoas fizessem isso, se eu mesmo pudesse adotar posturas mais drásticas (colher água da chuva, abolir o carro, cortar ainda mais o consumo de energia elétrica substituindo a fonte por energia solar) e, principalmente, se tudo isso já estivesse sendo feito por todos há mais tempo, capaz que não precisássemos de um Dia da Terra.

Eu faço mas não estou lhe dando ordens ou propondo que também faça. Mas penso que, se nada disso der certo, se formos todos pro buraco e acabarmos mesmo com as condições que nos permitem viver no planeta, na hora da morte — coletiva ou não — lembremo-nos que a Terra poderá enfim prosseguir sossegada no seu caminho. A doença somos NÓS, e a Natureza, sempre sábia e voluntariosa, terá conseguido nos extirpar.

Mendigo, andava sempre aos berros pela rua — vem aqui, filho da puta, sai de cima do jacaré! —, apontando o dedo para ninguém, encarando olhos invisíveis com um ódio líquido, quase palpável. Algumas crianças tinham medo dele, outras jogavam-lhe coisas, os adultos olhavam para cima e davam de ombros. Não passava três dias sem que tomasse uma dura do guarda e, vez por outra, quando era encontrado mais bêbado que o permitido, ia ver o delegado. Chegou a ser ameaçado de expulsão da cidade.

Um dia, virando o lixo, encontrou a carcaça de um celular, escangalhado, sem bateria nem nada. Mudou de vida: passou a berrar ao telefone — pirata é o caralho, cadê minha bicicleta?

Hoje ninguém mais lhe presta atenção.

Quem me conhece sabe que sou um cara sempre atento a todas as novidades. Não passo sem os últimos lançamentos de eletrônicos, vou a todos os lugares da moda, só me visto com o que sai nas capas das revistas de moda européias e a decoração da minha casa seria considerada exemplo de design moderno, isto, é claro, se eu deixasse alguém entrar aqui. Ah, sim: assisto a todos os filmes na pré-estréia. Foi por isso que, nos últimos dias, aluguei e assisti Lost. A primeira temporada, claro.

Ah, que vontade de fazer um trocadilho idiota com o nome do… do… como dizer?… com o nome disso.

Tá, eu sou do tempo da bóia preta. Sou do tempo em que os anúncios de tinta pra caneta começavam com “Prezado Senhor” (nem precisava tanto, bastava dizer que sou do tempo da caneta tinteiro). Antes, acredite, criança, os filmes precisavam ter história, sabe? Esquisito, não é? Mas era assim, fofo, as coisas eram assim. Não bastava só uma fotografia perfeita, uma trilha sonora ótima, atores bonitinhos e um susto e/ou enigma a cada cinco minutos. Não! Era preciso uma história, caralho! E havia um desenvolvimento padrão. Sim, não era possível sair cagando na tela tudo o que você quisesse, na hora em que quisesse. Deixar de explicar alguma informação lançada era passível de empalamento como punição ao estelionato. Sim, porque fazer um filme à base de teasers (e não explicar NENHUM deles) não passa disso: estelionato. Obrigar a comprar e não entregar é isso. Estelionato.

Pra puta que pariu o Lost. Aquilo não é um seriado, é um sinal dos tempos. Alerta! Cuidado! Acabou-se a dramaturgia! Ah, tem mais temporadas que explicam a coisa toda? No seu cu! Entendeu? No seu cu! Não chego nem perto da continuação dessa bosta. Seqüência de bosta é bosta.

Socorro, meu São Billy Wilder!

(Eu até ia fundamentar minha opinião, sabe? Ia falar de um monte de coisas, incluindo os conceitos de honestidade artística e desafio às regras como caminho da evolução da arte mas, cá pra nós, de que ia adiantar? Se você gosta de Lost, não ia mudar sua opinião; se não gosta, eu não preciso dizer nada. Resolvi xingar, e pronto. Dá menos trabalho e alivia muito mais.)

Rola a possibilidade de o WordPress sair do ar, ao menos no Brasil. Aqui, a explicação do caso. Se isso acontecer, definitivamente ou não, mudo de volta pro Blogspot. Se eu sumir — e você continuar fazendo questão — troque ‘wordpress’ por ‘blogspot’ e veja o que acontece.

Terça-feira passada, estive no (re)lançamento das obras de Jorge Amado pela Companhia das Letras, editora que adquiriu recentemente os direitos da obras do baiano e, para promover a empreitada, convidou Chico Buarque, Caetano Velloso, Mia Couto e outros tantos nomes de peso para ler trechos da obra de Jorge, saindo-se muito bem neste raro caso de lançamento sem escritor presente. Lotação esgotada dos nada poucos 500 lugares. Festa e tanto, gravei boa parte do evento.

O prazer maior foi conhecer pessoalmente a Mia Couto.

(O vídeo ficou meio espremido porque eu fiz alguma besteira durante a compactação, mas tá valendo.)

Pra quem tem preguiça de assistir ao vídeo (piadista, eu), aqui vai o texto na íntegra, publicado pel’O Estado de São Paulo (acho que pela Folha, também). Obrigado, Valter! O grifo é meu.

Eu venho de muito longe e trago aquilo que eu acredito ser uma mensagem partilhada pelos meus colegas escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe. A mensagem é a seguinte: Jorge Amado foi o escritor que maior influência teve na gênese da literatura dos países africanos que falam português.
A nossa dívida literária com o Brasil começa há séculos, quando Gregório de Mattos e Tomaz Gonzaga ajudaram a criar os primeiros núcleos literários em Angola e Moçambique. Mas esses níveis de influência foram restritos e não se podem comparar com as marcas profundas e duradouras deixadas pelo baiano.
Deve ser dito (como uma confissão à margem) que Jorge Amado fez pela projeção da nação brasileira mais do que todas as instituições governamentais juntas. Não se trata de ajuizar o trabalho dessas instituições, mas apenas de reconhecer o imenso poder da literatura. Nesta sala, estão outros que igualmente engrandeceram o Brasil e criaram pontes com o resto do mundo. Falo, é claro, de Chico Buarque e Caetano Veloso. Para Chico e Caetano, vai a imensa gratidão dos nossos países que encontraram luz e inspiração na vossa música, na vossa poesia. Para Alberto Costa e Silva vai o nosso agradecimento pelo empenho sério no estudo da realidade histórica do nosso continente.
Nas décadas de 50, 60 e 70, os livros de Jorge cruzaram o Atlântico e causaram um impacto extraordinário no nosso imaginário coletivo. É preciso dizer que o escritor baiano não viajava sozinho: com ele chegavam Manuel Bandeira, Lins do Rego, Jorge de Lima, Erico Veríssimo, Rachel de Queiroz, Drummond de Andrade, João Cabral Melo e Neto e tantos, tantos outros.
Em minha casa, meu pai – que era e é poeta – deu o nome de Jorge a um filho e de Amado a um outro. Apenas eu escapei dessa nomeação referencial. Recordo que, na minha família, a paixão brasileira se repartia entre Graciliano Ramos e Jorge Amado. Mas não havia disputa: Graciliano revelava o osso e a pedra da nação brasileira. Amado exaltava a carne e a festa desse mesmo Brasil.
Neste breve depoimento, eu gostaria de viajar em redor da seguinte interrogação: por que este absoluto fascínio por Jorge Amado, por que esta adesão imediata e duradoura?
É sobre algumas dessas razões do amor por Amado que eu gostaria de falar aqui. É evidente que a primeira razão é literária, e reside inteiramente na qualidade do texto do baiano. Eu acho que o maior inimigo do escritor pode ser a própria literatura. Pior que não escrever um livro, é escrevê-lo demasiadamente. Jorge Amado soube tratar a literatura na dose certa, e soube permanecer, para além do texto, um exímio contador de histórias e um notável criador de personagens. Recordo o espanto de Adélia Prado que, após a edição dos seus primeiros versos confessou: “Eu fiz um livro e, meu Deus, não perdi a poesia…” Também Jorge escreveu sem deixar nunca de ser um poeta do romance. Este era um dos segredos do seu fascínio: a sua artificiosa naturalidade, a sua elaborada espontaneidade.
Hoje, ao reler os seus livros, ressalta esse tom de conversa intíma, uma conversa à sombra de uma varanda que começa em Salvador da Bahia e se estende para além do Atlântico. Nesse narrar fluído e espreguiçado, Jorge vai desfiando prosa e os seus personagens saltam da página para a nossa vida cotidiana.
O escritor Gabriel Mariano de Cabo Verde escreveu o seguinte: “Para mim, a descoberta de Amado foi um alumbramento porque eu lia os seus livros e via a minha terra. E quando encontrei Quincas Berro d’Água eu o via na Ilha de São Vicente, na minha rua de Passá Sabe.”
Essa familiaridade exisitencial foi, certamente, um dos motivos do fascínio nos nossos países. Seus personagens eram vizinhos não de um lugar, mas da nossa própria vida. Gente pobre, gente com os nossos nomes, gente com as nossas raças passeavam pelas páginas do autor brasileiro. Ali estavam os nossos malandros, ali estavam os terreiros onde falamos com os deuses, ali estava o cheiro da nossa comida, ali estava a sensualidade e o perfume das nossas mulheres. No fundo, Jorge Amado nos fazia regressar a nós mesmos.
Em Angola, o poeta Mario António e o cantor Ruy Mingas compuseram uma canção que dizia: Quando li Jubiabá/me acreditei Antônio Balduíno./Meu Primo, que nunca o leu/ficou Zeca Camarão. E era esse o sentimento: António Balduino já morava em Maputo e em Luanda antes de viver como personagem literário. O mesmo sucedia com Vadinho, com Guma, com Pedro Bala, com Tieta, com Dona Flor e Gabriela e com tantos os outros fantásticos personagens.
Jorge não escrevia livros, ele escrevia um país. E não era apenas um autor que nos chegava. Era um Brasil todo inteiro que regressava à África. Havia pois uma outra nação que era longínqua mas não nos era exterior. E nós precisávamos desse Brasil como quem carece de um sonho que nunca antes soubéramos ter. Podia ser um Brasil tipificado e mistificado, mas era um espaço mágico onde nos renasciam os criadores de histórias e produtores de felicidade.
Descobríamos essa nação num momento histórico em que nos faltava ser nação. O Brasil – tão cheio de África, tão cheio da nossa língua e da nossa religiosidade – nos entregava essa margem que nos faltava para sermos rio.
Falei de razões literárias e outras quase ontológicas que ajudam a explicar por que Jorge é tão Amado nos países africanos. Mas existem outros motivos, talvez mais circunstanciais.
Nós vivíamos sob um regime de ditadura colonial. As obras de Jorge Amado eram objeto de interdição. Livrarias foram fechadas e editores foram perseguidos por divulgarem essas obras. O encontro com o nosso irmão brasileiro surgia, pois, com épico sabor da afronta e da clandestinidade.
A circunstância de partilharmos os mesmos subterrâneos da liberdade também contribuiu para a mística da escrita e do escritor. O angolano Luandino Vieira, que foi condenado a 14 anos de prisão no Campo de Concentração do Tarrafal, em 1964, fez passar para além das grades uma carta em que pedia o seguinte: “Enviem meu manuscrito ao Jorge Amado para ver se ele consegue publicar lá no Brasil…”
Na realidade, os poetas nacionalistas moçambicanos e angolanos ergueram Amado como uma bandeira. Há um poema da nossa Noêmia de Sousa que se chama Poema de João, escrito em 1949 e que começa assim:
‘João era jovem como nós/ João tinha os olhos despertos,/ As mãos estendidas para a frente,/ A cabeça projetada para amanhã,/ João amava os livros que tinham alma e carne/ João amava a poesia de Jorge Amado’.
E há, ainda, outra razão que poderíamos chamar de linguística. No outro lado do mundo, se revelava a possibilidade de um outro lado da nossa língua.
Na altura, nós carecíamos de um português sem Portugal, de um idioma que, sendo do Outro, nos ajudasse a encontrar uma identidade própria. Até se dar o encontro com o português brasileiro, nós falávamos uma língua que não nos falava. E ter uma língua assim, apenas por metade, é um outro modo de viver calado. Jorge Amado e os brasileiros nos devolviam a fala, num outro português, mais açucarado, mais dançável, mais a jeito de ser nosso.
O poeta maior de Moçambique, chamado José Craveirinha, disse o seguinte numa entrevista: “Eu devia ter nascido no Brasil. Porque o Brasil teve uma influência tão grande que, em menino eu cheguei a jogar futebol com o Fausto, o Leônidas da Silva, o Pelé. Mas nós éramos obrigados a passar pelos autores clássicos de Portugal. Numa dada altura, porém, nós nos libertamos com a ajuda dos brasileiros. E toda a nossa literatura passou a ser um reflexo da Literatura Brasileira. Quando chegou o Jorge Amado, então, nós tínhamos chegado à nossa própria casa.”
Craveirinha falava dessa grande dádiva que é podermos sonhar em casa e fazer do sonho uma casa. Foi isso que Jorge Amado nos deu. E foi isso que fez Amado ser nosso, africano, e nos fez, a nós, sermos brasileiros. Por ter convertido o Brasil numa casa feita para sonhar, por ter convertido a sua vida em infinitas vidas, nós te agradecemos companheiro Jorge. Muito obrigado.”

Puta merda! Amém.

Pra quem quiser ler minha matéria na B2B Magazine, é só clicar aqui, pedir a página 12 e pumba! Pode dar zoom na página que o preço é o mesmo. Eu gostei. Tem até foto (by Olivia “Sinovial” Maia).

Valeu, Marcorélio!

Falando nisso, já viram Marcorélio e Senhôra, ambos em nova embalagem? Vão lá ver. Pelo jeito do último post dele, não é só a embalagem que é nova…

Amanhã, vou almoçar com esse cabra. Vem novidade por aí. Nem sei qual. Mas tem que vir.

Não sou um cara de riso fácil, mas esses pára-google-quedistas conseguem literalmente me tirar do sério. Depois que publiquei este post, virei a Meca do mangalho, e todos os tarados e devassos da rede passam por aqui diariamente em peregrinação. (Eles que se abaixem pra rezar, que eu lhes mostro uma coisa.) Hoje, por exemplo, me aparece um querendo “abecedalho em japonês”, outro coitadinho com o “prepúcio irritado”, e o melhor de todos, querendo descobrir “como comer um cu de cachorro”.

Não vou responder a isso sozinho. Simplesmente, não consigo. Aproveito então para pedir a ajuda de meu estimado leitor para colaborar na lista de respostas à dúvida do perturbado doente. É só escrever pelos comentários. E fique à vontade. O blog não é seu mesmo, pode dizer o que quiser. O autor da melhor resposta ganha uma ovelha inflável.

Respostas:
1) Comece convidando o bichinho pra jantar.
2) …
3) …