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Vinha para casa ainda agora, e fui obrigado a passar por dentro de Moema. Só atravesso esse bairro de São Paulo se for obrigado, porque tenho com ele uma relação dolorida: olho tudo com olhos de quem revê o lugar onde o amigo morreu afogado. Na verdade, lá está enterrada uma parte da minha infância e adolescência.

Para um moleque recém-saído do Bom Retiro — bairro central que, à época, era tão repleto quanto hoje de pequenas fábricas de roupa —, Moema era quase uma paisagem de filme, um cenário de sonho: casas e apenas casas, algumas grandes, outras nem tanto mas nunca pequenas, todas em terrenos espaçosos, separadas por grandes recuos, grandes jardins, muros baixos, flamboyans imensos que, de tão grandes, atravessavam as ruas largas e sem movimento. Tudo era baixo, como se fosse absurdo — e é — construir por cima onde haja espaço para construir ao lado. Ou então, a pouca altura das construções seria apenas o cumprimento à lei, porque o aeroporto de Congonhas se empoleira num dos cantos do bairro, e Moema sempre foi rota de aviões de grande porte. Sabemos que é de bom-tom não atrapalhá-los durante as manobras de descida ou subida.

Eu andava por lá de bicicleta. Ia passear, apenas passear, nem tinha amigos no bairro ou outros interesses nele. Nas tardes de calor e ócio, em que minha bicicleta assumia o comando — e quem teve bicicleta sabe que elas pensam e, se o dono conseguir entendê-las, elas saberão escolher os melhores caminhos para ele —, o passeio sempre ia por Moema, e eu pedalava horas seguidas pelo bairro, na velocidade que se anda num zoológico, num museu, parando para olhar uma casa, achando graça aos nomes das ruas, Rouxinol, Arapanés, Cotovia, Nhambiquaras, Pintassilgo, Maracatins, pássaros e índios, conforme o lado da avenida, descansando à sombra de uma árvore qualquer, apenas à espera de alguém botar a cabeça entre as cortinas para espiar o que aquele moleque estava fazendo ali na calçada. Mas num cenário daqueles, ninguém era capaz de incomodar ninguém, nem mesmo os aviões que passavam, um ou outro, de tempos em tempos, e seu rosnado era sinal de que tudo ia bem, de que a vida seguia, de que o mundo estava ali ao lado, esperando por nós com um jantar na mesa e um gibi na cama.

Um dia — estava demorando… — alguém plantou um shopping center no meio desse lugar. Meteram lá o caixote feioso, três ou quatro andares de altura, e aquilo, como uma poderosa, venenosa erva, fincou raízes e começou a se espalhar. Alargaram uma avenida. Os ônibus começaram a passar mais depressa. Os prédios desandaram a subir. E mais prédios. E mais carros. E placas, regulamentando o estacionamento ou dizendo que esta rua — que antes ia onde a bicicleta mandasse — agora só vai pra lá, e esta outra só vem pra cá. E mais prédios. Postos de gasolina. Lojas de automóveis. Lojas de colchões. Bares e restaurantes. Gente e seus carros, seu barulho, seus toca-fitas ligados, suas brigas, sua estupidez, e o bairro foi, enfim, “revitalizado” — no dizer de quem constrói jazigos, os chama de edifícios e os batiza com nomes imbecis, Spazio Não-sei-quê, Chateau de sei-lá-onde, Vivenda da puta-que-o-pariu. Veio a classe média e sua proverbial capacidade de ser apenas o que é: medíocre, tão medíocre que desconhece que as duas palavras — médio, medíocre — são sinônimas. Afinal de contas, livros são coisas que suas filhas põem sobre a cabeça para aprender a desfilar.

Hoje, essa gente burra faz com minha índia Moema o que fez ontem com índias e pássaros, faz valer a lei dos mais estúpidos — “o que não é de comer deve ser estraçalhado” —, tratam o lugar como bárbaros, e eu fico aqui, Caramurú, assistindo Moema se afogar na merda.

Dá uma profunda tristeza andar por Moema. É triste olhar os prédios com nomes imbecis, o comércio arrogante, os olhares agressivos, os carros estacionados por cima das calçadas, seus ocupantes escondidos pelos vidros escuros, os seguranças onipresentes e desconfiados. É triste porque eu sei que ali, por baixo de todo esse lixo, estão alguns quarteirões de um mundo que me faz falta, não é possível escavá-lo, e não sei mais onde o encontrar. Como um amigo morto. Como um lugar onde esse amigo se afogou.

Ia falar de uma senhora simpática que encontrei no supermercado, mas me perdi. Fica pra outra vez.

Zumbi dos Paumoles, líder comunitário de uma favela no Rio de Janeiro;
Carnal Valeska, abre-alas (e o que mais estiver fechado) na escola de samba sediada no mesmo morro;
Carlos Alegórico, repórter en-viado especial para desfiles de escola de samba;
Zélio Oitocentos, atendente de tele-marketing, que foi incluído para que o livro tivesse um personagem que (acha que) trabalha.

A falta de uma trama não é impedimento para escrever o livro. O problema é que eu detesto trocadilhos.

Uma das lembranças fortes da minha infância é a imagem de meu pai dando corda numa filmadora 8 milímetros. Não podia ser de outra forma, porque minhas primeiras lembranças são de uma época em que morávamos em Portugal: viajar foi o que mais fizemos na terra, e meu pai não viajava sem a câmera.

Achei o livro!Apesar de ele ser extremamente econômico — seria mais claro se eu dissesse ‘miserável’, mas não quero parecer desrespeitoso — e de, portanto, ter deixado um acervo que não chega a três horas de projeção, a presença da câmera era constante nesse meu começo de vida, e criou em mim uma certa intimidade com o objeto e sua função. Um dos primeiros livros que li foi um tal de Como filmar, tradução de um manual inglês para amadores feito numa época em que as pessoas aprendiam as coisas nos livros.

Meu pai comprou tal livro porque nesse tempo era bom ter um manual dos bons, qualquer que fosse o assunto a estudar. Os perigos eram muitos, nesse ramo do conhecimento ou em outro qualquer. No caso do cinema amador, os filmes vinham em rolinhos de três minutos cada, mas levava mais de cinco minutos para colocá-los na máquina, e outros tantos para substituí-los; tudo tinha que ser feito num lugar absolutamente escuro, mas nem sempre havia uma baleia à mão para engolir o cineasta e cuspi-lo logo após a operação; além disso, quando em viagem, carregar a baleia de estimação estava longe de ser prático ou confortável, pois meu pai sempre gostou de carros pequenos; a câmera não filmava exatamente o que se via pelo visor, e quanto mais perto se estava do assunto filmado, mais diferente era o resultado na tela; a corda da câmera não durava os três minutos do rolo e, caso o operador se esquecesse dessa característica do equipamento, a mola da corda ia perdendo a tensão durante a filmagem das cenas, e a velocidade do mecanismo diminuia gradativamente, o que provocava efeito inverso na projeção, fazendo com que tudo acelerasse ridiculamente pela tela, cada vez mais, transformando parentes e passantes em Chaplins bem vestidos e sem maquiagem; cada filme virgem custava uma inominável fortuna — ao menos era essa a impressão que me dava a sovinice paterna — e só o que fosse realmente importante poderia ser registrado. Daí, eu ficava sem entender porque era importante que ele filmasse a fachada do Convento de Mafra, mas não tinha importância nenhuma que eu filmasse um guarda de trânsito com a câmera de cabeça para baixo. Afinal de contas, tinha visto isso no tal manual.

Depois desse processo caro e cheio de armadilhas, o rolinho era, então, retirado da câmera, guardado junto com os outros rolinhos até que chegássemos em casa — mesmo que isso demorasse semanas —, acondicionados conforme as instruções da bula do filme — que diziam “em lugar fresco e seco”, como se existisse no mundo um só lugar que tivesse simultaneamente essas duas características —, e depois encaminhados ao representante do laboratório que os revelaria, os enrolaria num carretel e os devolveria em troca de outra pequena fortuna.

Finalmente, o penoso processo, tenso e repleto de prejuízos financeiros, era coroado por um saco de papel cheio de rolinhos que continham — se tudo tivesse dado certo — três minutos de imagens mudas e em preto-e-branco cada um, que ainda precisavam ser montadas num só rolo, preferencialmente em ordem cronológica, para que a exibição fosse um pouco mais prazerosa do que um interminável tira-e-põe de filmes no projetor.

Mesmo depois disso tudo, os perigos ainda não tinham acabado: se, durante a projeção, o filme emperrasse, o calor da lâmpada derreteria o trecho em frente à lente numa fração de segundo, partindo a serpentina em dois pedaços. Caso isso acontecesse — e como acontecia! — a projeção tinha que ser interrompida, as luzes acesas, as duas pontas do filme colocadas num splicer — complexo artefato que posicionava corretamente os dois pedaços de filme durante a colagem — e, antes de se apagar novamente as luzes para seguir na projeção, era preciso arrebanhar a parentada que, a esta altura, já estava em outros cômodos da casa, quando não em outras casas.

Lá pelo começo dos anos 80, os filmes começaram a dar mostra de que acabariam definitivamente para o usuário amador. Meu pai, então, passou a se empenhar, aqui e ali, em saber quanto lhe custaria uma câmera de vídeo. Nunca comprou nenhuma porque, no seu entender, sempre custaram fortuna que não lhe traria benefício equivalente. Não foi convencido pelos argumentos de que não seria mais necessário colocar ou retirar a fita da máquina sob escuridão completa, de que nunca mais gastaria um centavo com laboratório, de que a fita não romperia durante a exibição, de que não mais seria necessário emendá-la, nem coisa nenhuma. Apesar de discordar dele, entendo-o: que charme tem o vídeo — mesmo colorido e com som estéreo — se comparado a um filme mudo em preto-e-branco?

Eu ia falar do YouTube. Mas fica pra outra vez.

Eu, não: eles leram. Na verdade, elas. Já chegaram três fotos (ou similares) de heróicas sobreviventes. Vai lá ver as moças, vai.

E como as meninas saíram na frente (o que não é de estranhar nada), os meninos já podem começar a mandar suas fotinhas, os bundões. (Quem sabe eu consigo alguma coisa se os provocar um pouco?) Vamos, seus bundões! Mariquinhas. Quero ver quem é macho de mandar foto lendo o livro. Hein? Vai encarar?

Update: O cachorro do Mauro ‘Taxitramas’ Castro mandou foto, e o Sr. Organizador do livro aproveitou a deixa e entrou no balaio.

Quando eu digo que os portugueses gostam de chorar, todo mundo cai de pau, que eu sou preconceituoso!, onde já se viu?, e os mais agressivos chegam a dizer que não posso avaliar um povo pela minha família.
Pois então, durmam com esta: em Lisboa, há um cemitério chamado Cemitério dos Prazeres! Não bastasse o nome, o tal cemitério ainda está incluído em diversas rotas de visitação para turistas. Deve até ser lindo, mas… puta merda!

1) A leitora Srta. Bia me escreve dizendo “pôxa… ninguém mandou ainda a foto com o livro? tô com vergonha de mandar a minha agora.
Srta. Bia, este seu comentário lembrou-me um caso ocorrido em 1969, longe daqui. Neil Armstrong já havia aberto a portinhola e posto o rabo para fora da nave quando Edwin Aldrin, seu colega, que também já se preparava para tomar o mesmo caminho, percebeu que Armstrong havia empacado.
— O que houve, Neil? — perguntou Aldrin, conforme o relato de Michael Collins, uma espécie de quinto Beatle da missão.
— Não sei… — responde Neil, um pé na nave, outro no ar (por assim dizer, porque todos sabem que não há ar na Lua).
— Anda, homem, avia-te! — insiste Aldrin, deixando claro que o tradutor deste diálogo é mesmo português.
— Não quero…
— Não quer o quê, astronauta de Deus?
— Descer.
— Por quê?
— Tenho vergonha…
— Vergonha?
— Sei lá… está todo mundo olhando… — e estava mesmo, literalmente.
Dizem que foi neste momento que a voz do controlador da missão em Houston (nesta simulação, interpretado por Ed Harris) rosnou:
— Neil! Vai descer, ou vou ter que ir aí pessoalmente chutar seu rabo? — confirmando que “kick the asses around” é o esporte predileto dos americanos.
Foi neste ponto que Neil Armstrong resolveu se mexer, desceu a escada, a fila andou, e depois, todo pimpão, ainda veio com aquela história de “um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade, e blá blá blá”.
Srta. Bia, respondo-lhe: “Anda com isso, Srta. Bia!”

2) Já a leitora Crissmyass informa: “Eu mandei, pô!“.
Caso “a sujeita oculta” de sua breve frase seja sua foto acompanhada — ou não — de comentários sobre o livro, a redação informa, em meio a uma crise de desespero, que nada foi recebido, e pede encarecidamente — alguns chegaram a se ajoelhar, um espetáculo ridículo — que o material nos seja devidamente reenviado.

E não é que fiquei sabendo que aquela mosquinha das frutas, a Drosófila, se chama Drosófila melanogaster? E eu que passei a vida pensando que fosse “melanogástrica”. Ah, sei lá, ela tem a barriga preta, não tem? Então.

Mais um conto texto meu na edição deste bimestre da Quarteirão Paulista. Como sempre, Maurício Pierro quebrou tudo, é uma ilustração mais bonita que a outra. Desnecessário dizer, mas a revista inteira está linda.
Se você mora, trabalha, circula, vai ao cinema ou pede esmolas na região da avenida Paulista, veja os pontos de distribuição (gratuita!) na penúltima página da revista. E se estiver louco de vontade de ler o conto — é tanta, que quase posso senti-la daqui —, entre no site e baixe o pdf!

Na época em que tinha o blog no Blogspot, tinha também um(a) leitor(a) que vinha todo dia — quase sempre duas vezes por dia —, dava sua espiadinha e caía fora. Reparei nele(a) por duas coisas. Ele vinha de Anjomachi (Aichi, Japão) e, além disso, tinha uma particularidade interessante: entrava no blog de doze em doze horas, isto é, duas vezes por dia e sempre à mesma hora. Olhando o SiteMeter, eu ficava aqui imaginando coisas, o dekassêgui com saudades do Brasil que chegava ao seu cubículo na Toyota, ligava o computador, lia o que eu tivesse postado (ou não, e quase sempre não), saía do blog, trabalhava feito um japonês e, ao fim do dia (doze horas depois, haja saco!), entrava de novo no blog para ver se eu tinha postado mais alguma coisa… e ia embora para casa.
Um dia ele(a) sumiu, e eu fiquei preocupado. Teria deixado de gostar de mim? Não. Fiquei feliz quando, duas semanas depois, ele(a) reapareceu. Ora, tinham sido apenas umas férias, como eu não tinha percebido? Ninguém é de ferro, nem mesmo os japoneses.
Discreto(a) como seus patrícios, ele(a) nunca deixou um comentário, nunca mandou um e-mail, nada. Engraçado é que, mesmo assim, eu fui me afeiçoando a ele(a), chamava-o(a) de “meu amigo no Zapón”. Quando via a bandeirinha na tela, dizia à minha mulher “olha lá, meu amigo do Zapón já veio hoje”. Ou então “preciso postar alguma coisa logo, meu amigo no Zapón deve estar cheio de entrar no blog e não ver nada novo”.
Agora que não tenho mais como ver estatísticas pelo SiteMeter, ando com saudade do meu amigo no Zapón. Se ele(a) ainda anda por aí, peço-lhe: mande o endereço por e-mail. Tenho um livro aqui pra você.

Você não se enganou de endereço. Eu é que mudei o template. Mas o resto, garanto, é a merda de sempre.

Eu e minha mulher vínhamos descendo a rua ao lado do parque e vimos uma moça deitada sobre o galho de uma árvore, olhando o céu, uma perna caída para cada lado, mãos postas como quem rezasse. Moro ao lado do parque há quase dez anos, já nem ligo mais pros malucos que andam soltos por lá. É incrível a quantidade de doido que meia dúzia de árvores é capaz de atrair. Meio quarteirão à frente, minha mulher diz:
— Alguém mandou que ela fosse se sentar num pau, a coitadinha não entendeu direito.
Essa frase era minha, porra!

Uma simples inflamação nas cordas vocais consegue, há cinco dias, fazer o que vizinhos, clientes, ex-mulheres, a mãe, a polícia e os inimigos tentaram — por anos a fio — e não conseguiram: me calar. Estou mudo feito uma girafa. Se tento falar alguma coisa, o som que emito é o de uma buzina molhada. Um horror.

Mas silêncio nenhum — nenhum! — se compara à falta de comentários nos posts dos dois vídeos que postei recentemente. Eu sei que aquilo é um lixo, mas parece que meus leitores agora deram pra ser gentis e me poupar. Agradeço a atenção, mas prefiro a verdade.

Uma noite, ela acordou trêmula, uma vontade insana de escrever. Pegou a caneta e saiu com isto:

Lá longe o mar é céu, o céu é mar
Um navio branco como a areia
A areia branca como a brancura
Da alma da mulher pura…
Mulher pura? Isso existe?
Não, nêga!
A mais pura, a mais beata,
Por amar, por ser querida
Toda mulher já foi bandida!
Tu num concorda, nêga, duvida?
Então, me diz
Tu já beijou?
Tu já grudou teus beiços noutros beiços?
E tu gostou?
Se gostou, pecou!
E se num gostou, pecou mais
Porque beijo grudado, apertado, sufocado,
Dado aqui ou em Paris
Nêga, a gente pede bis
E no bis é que se peca.
Nêga, deixa de ser sapeca,
Num faz isso, me larga,
Agora? Agora não, depois
Mas, num faz mal
Onde dorme um, fodem dois.

Ela levantou da cama, acordou o pai, leu para ele. O pai olhou e disse:
— Vou te levar numa macumba.
Eu também não faria outra coisa se minha filha, com nove anos, viesse ler coisas dessas à minha beira, escrita de próprio e virginal punho.
Conheça Rô Druhens*. E foda-se. No bom sentido.

* leia “Drirrã”, porque é francé.

Morreu hoje “em conseqüência de complicações nas lesões cerebrais provocadas por uma queda há várias semanas”, explicou um amigo. Difícil pensar que um escritor com tamanha imaginação tenha tido uma morte tão prosaica, tão imbecil, mesmo aos 84 anos.

Se não o conhece, conheça.

Vai nessa, Kurt. E obrigado por tudo.

Update: Encontrei isto. Vale assistir. Tava no Polzonoff.

Mas esta é séria, uma das poucas coisas sérias que fiz na vida: uma adaptação de um poema de Pessoa, Grandes são os desertos. Foi feito com grana do Prêmio Estímulo, quer dizer, o Estado pagou pra ver. Bem feito!

Se você tiver tendência à depressão, não assista.

Galopava o ano de 1989. As câmeras eram uma bosta. A minha, pior ainda. Os microfones eram ruins. Os atores eram péssimos. Os vídeos eram editados em “ilhas”, que eram salas refrigeradas, cheias de painéis e máquinas e cabos e narizes escorrendo, tudo parecido com o painel da Enterprise (exceto pelos narizes escorrendo). Não havia computadores.
Quase tudo era diferente. Eu mesmo ainda tinha cabelo. Mas a idiotice… ah!, meu filho, essa era a mesma de hoje.

Em tempo: antes que alguém mencione, eu sei, parece que o vídeo foi feito pro Festival do Sotaque Paulista. O que eu posso fazer?

Se você comprou (ou ganhou, ou lhe foi impingido) um exemplar do livro Os Melhores (e também alguns dos piores) textos de Branco Leone e estava achando que ia ficar por isso mesmo, enganou-se. Você agora está sendo convidado(a) a fazer um auto-retrato (como este, enviado pelo organizador do livro) e a escrever um comentário (como o que aparece abaixo da foto, ou maior, fique à vontade) para colaborar na propagação desta mazela.

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“O papel gasto nesta porcaria teria destino mais nobre se tivesse sido usado para atear fogo num orfanato.” – AMR

Em caso de necessidade, timidez ou arrependimento, você até pode usar o livro para cobrir o rosto ou outra parte que considere importante esconder. O que importa é a foto com comentário, não seus belos olhos.
As melhores, assim como as piores fotos e frases (nem precisa caprichar) serão publicadas aqui, junto com o link de seu blog ou site (se houver). Fotos “desinibidas” serão publicadas mais rapidamente, mas os meninos terão seus penduricalhos cobertos com tarjas pretas.

Ah, sim: nem adianta fingir que não viu este post, porque você vai receber uma cópia por e-mail.

Impossível não se incomodar com a história do rabino Sobel, preso nos Estados Unidos depois de surrupiar algumas gravatas. Um homem com seu passado político e social só consegue fazer uma merda dessas sob o efeito de drogas. Mas… um rabino chapado? Pois é, benzodiazepínicos. Quem já viu um idoso sob o efeito dessa bomba sabe que tudo é possível.
Prefiro ignorar essa bobagem. Prefiro me lembrar do jovem rabino que esfregou na cara da ditadura a mentira do suicídio do Herzog, garantindo que ele foi enterrado em campo santo, sinal de que a causa mortis do atestado de óbito forjado havia sido ignorada, deixando claro o assassinato, e que só um imbecil acreditaria em outra história.

Mas dessa gravata, é claro, ninguém se lembra.