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Manchete na abertura do Yahoo, logo abaixo de um tríptico (por assim dizer) com as fuças de Freddy Krueger, Chucky e um boneco com cara de retardado (que vim a descobrir depois que é um tal de Jigsaw): “Sem estes personagens assustadores, o cinema não teria graça“.

O cara é pago pra escrever esse tipo de merda? Digo, o cara ganha uma grana, leva pra casa, sustenta uma família, cria filhos, espalha os genes por aí e perpetua isso? Não dava pra castrar o sujeito antes de ele entrar na faculdade de Jornalismo?

Chamar Freddy Krueger de cinema é o mesmo que chamar arroto de música. “Assustador” é esse mundo. Quem precisa de cinema?

Você me diria: “Ah, Branco, deixa de ser neurótico, é só uma manchetezinha de sexta-feira, pra relaxar“. E eu responderia: “Ora, vá tomar no meio do seu cu“.

ou Saber morrer é uma virtude

Naqueles filmes em que acontece o eterno combate entre o Bem e o Mal, é fácil distinguir bandidos de mocinhos: bandidos são aqueles que, encurralados e à beira da morte, atiram pra todo lado com a intenção de levar com eles o máximo de gente possível, sejam inocentes, inimigos, quem for. Até para confirmar a regra, aponto ‘Butch Cassidy’ como exceção, mas o normal é vermos o bandido, amarfanhado em seu último reduto, pistola vazia numa mão e um detonador na outra que, com um único gesto, mandará pelos ares tudo o que está entre o Cambuci e a Aclimação (dando a volta pelo outro lado do mundo, claro). Do outro lado estão os mocinhos, aqueles que, no instante anterior ao último, metem uma bala na cabeça do bandido, evitando o desastre final e, assim, permitindo que se continue a fazer filmes-merda como esses.

Ao assunto. Fiquei sabendo ontem que o blog Um que tenha, fonte onde bebo raras águas nos últimos tempos, corre o risco de ser tirado do ar por infração à tal Lei do Direito Autoral. Capaz que sim, capaz que não, mas tudo começou quando a gravadora Biscoito Fino (não confundir com Idelber, o Grande) pediu (digamos assim, vá lá) a exclusão dos links que remetiam a obras de artistas que representa. Não vou descer o pau na Biscoito porque ainda (ainda!) respeito a empresa e sua postura dentro desse mercado selvagem. Mas só por isso.

Não é a primeira vez que acontece algo assim. Vide a história de combate aos piratas que o Metallica impetra há tempos, alinhado aos furiosos tubarões da indústria fonográfica americana. Interessante notar que a pseudo-banda, assim como o AC/DC em outras décadas, tem lançado e relançado seu único disco dezenas de vezes, trocando-lhe apenas a capa. Numa análise simplista, é como se pirateassem a si mesmos. E isso, pode, claro, porque ninguém é obrigado a comprar o mesmo disco duas vezes. Compra quem quiser. Chamam a isso de “liberdade”. Ok.

Infelizmente, também não será a última vez que uma gravadora vai soltar — ou ameçar soltar — os cachorros em cima de alguém que esteja infringindo a Lei porque — seja neste ou em outros casos — basta combinar a tal Lei com a vontade de quem manda, e a Luz se fará. Um dia, espero, a Luz virá de uma purgante explosão atômica, que mandará toda essa burrice pro inferno, lugar onde se paga caro pra ouvir porcaria, e onde o autor — como que por vingança das Musas — não recebe um tostão por isso.

Noutro dia, passeando lá mesmo pelo Um que tenha, encontrei o cd que acompanha Timoneiro, livro escrito pelo amigo Alexandre Pavan (maridão da Carol Guindaste) sobre Hermínio Bello de Carvalho. Como eu não sabia da opinião de Pavan sobre o fato, escrevi-lhe informando o encontrado. A resposta de Pavan pode ser resumida em poucas palavras: “Eu sabia, e quero é mais! Quanto mais gente ouvir, melhor“. Sujeito inteligente.

Paulo Coelho, outro sujeito inteligente (alguém ainda duvida?), disse que só se deu bem no mercado russo depois que um de seus livros foi pirateado e distribuído a rodo pela Internet. Agora, com a fama construída gratuitamente, Coelho vende da mesma forma: a rodo. O filme Tropa de Elite é outro exemplo de beneficiado com aquilo que hoje se chama de Pirataria.

Quase dois séculos de implantação da Lei do Direito Autoral (no Brasil, mas em outros países não é muito mais tempo) precisam ser revistos mais uma vez. Aconteceu muita coisa nesse meio tempo. Livros, discos, textos teatrais, fotografias, ilustrações (e sei lá mais o quê), “produtos” que antes eram resultado de processos caros e complexos — detidos por investidores e produtores de cultura, incluindo muitos que mereceriam aspas, mas deixo assim —, podem hoje nem existir fisicamente mas circular por e-mail, sem nenhuma possibilidade de controle por parte de quem insiste em querer controlar alguma coisa.

É preciso perceber, rápida e definitivamente que, nesse meio tempo, a figura do investidor (leia “editor”) deixou de ser necessária. É possível escrever em casa, imprimir em casa, gravar em casa, copiar em casa, produzir e multiplicar em casa, divulgar e vender a partir de casa. É preciso que o artista perceba que não precisa mais se render a um intermediário que o publique, que não é preciso ficar refém de um pretenso poder de distribuição e divulgação, até porque esse poder está acabado ou, no mínimo, acabando. Já disse uma vez aqui, mas repito: Andy Warhol se enganou. No futuro (isto é, hoje), as pessoas não são famosas por quinze minutos, as pessoas só conseguem ser famosas para quinze pessoas. Por que empenhar sua obra e sua alma a um editor que a venderá para quinze pessoas, e só lhe repassará dez por cento? Mas isso é outro assunto.

É fácil perceber que há algo errado com a Lei do Direito Autoral quando se verifica quem a defende: ‘artistas’ fabricados e os megainvestidores por trás deles. Mas antes de sentar para redigir outra, é preciso lembrar que a Lei do Direito Autoral deve proteger o autor, porque hoje ele é o último dos urubus na fila desse banquete: dez por cento do que o investidor DIZ que vendeu, descontados disso e daquilo. E olhe lá.

E enquanto ninguém se resolve a mudar isso, as corporações (nem me refiro aqui à Biscoito Fino, longe disso) vão mexendo seus pauzinhos e derrubando um aqui outro ali, esperneando. Que derrubem muitos, mas antes de cairem todos, cairá também a lei do direito autoral e todos os vampiros que vivem dela. Alguém, por favor, lhes meta logo uma bala (de prata) no coração, em prol da Liberdade.

Com o advento do Torrent aqui em casa (obrigado pelas dicas, ), tenho consumido um bocado de dvds virgens (“mídias”, como diz a tropa), algo em torno de 50 a cada dois meses. Compro-os sempre no mesmo lugar, e eles vêm acondicionados em pinos, aquela embalagem que, por mais que eu pense, não consigo lhe encontrar outra utilidade. Uma vez que os dvds, quando gravados, vão pras suas respectivas caixinhas, vou juntando pinos e mais pinos por aí (digo, aqui), esperando que um dia me ocorra o que fazer com aquilo.

Hoje, fui lá no fornecedor buscar mais uma leva. Quando estava pegando o pacote (com mais um pino), perguntei:

— Escuta, eu tenho monte disso lá em casa. Posso trazer pra vocês reutilizarem?
— Melhor não… — disse a moça, muito gentil — a gente também tem um monte.
— Sim, mas vocês podiam usar de novo…
— Não queremos, não. Temos muitos.
— E o que eu faço com esse monte de pinos?
— Joga fora, ué!

O besta sou eu, que perco tempo com reciclagem, reutilização, consumo consciente. Essas coisas não vão dar certo nunca. Mas a Natureza vai dar um jeito. Vai, sim.

Sabendo que hoje, 27 de outubro, é aniversário do John Cleese (69 anos) e que também seria aniversário de Graciliano Ramos (116 anos), escreva uma dissertação em prosa (não me venha com poesia porque eu não aturo isso!) com uma lauda (no mínimo) comparando as duas personalidades, encontrando semelhanças entre elas e especulando porque a obra dos dois me infuenciou tanto. Ao final, ponham as redações sobre a mesa. E enfiem as maçãs no cu.

[abre aspas] Oi! Isso aqui é completamente off-topic.
Perdi o teu e-mail, (o meu computador velho foi vaporizado numa tempestade e eu perdi tudo!), então vai aqui mesmo.
Pois é, sonhei com vc ontem à noite e vou contar logo antes que esqueça.Eu estava andando na Av. Paulista e encontrei o meu pai na altura da Brigadeiro e perguntei como fazia pra chegar à sua casa (a sua, não a dele), e ele explicou que era uma paralela a Paulista, lá no fim, perto do largo Ana Rosa. Rua Plinio Ferraz, número 25, um sobradinho branco, com uma estátua do indiozinho da TV Tupi no jardim. Corta.Eu estava com a Dora, andando nas proximidades do largo Ana Rosa, indo pra sua casa, quando encontramos a Fernanda, que usava aparelho nos dentes, um verdadeiro trambolho, quase não dava pra entender o que ela dizia. Ela explicou que o piano estava com o pedal emperrado e podia cair no pé, pra tomar cuidado quando a gente fosse lá pro sarau. Continuamos andando, e a Dora viu a costureira do meu pai tentando estacionar o carro, mas ela era muito barbeira e acabou dentro de um restaurante! (nesse ponto eu fiz uma nota mental para contar sobre a barbeira pro meu marido).
Acontece que vc não era escritor e sim músico e artista plástico. Além de compor, vc fazia umas esculturas de pendurar na parede, que tocavam música também. Quando chegamos na sua rua, estava lá a placa: Rua Plinio Ferraz. Entramos. Vc estava tocando violão e cantando a sua mais famosa canção. O refrão era o que a escultura de parede tocava, e a gente tinha que acompanhar. Tinha um monte de gente, uma turma de sujeitos barbudos, todos músicos e artistas plásticos.
Acordei.
Não foi um sonho estranho? São Paulo era um lugar calmo, ruas sossegadas, com os tais sobradinhos brancos e uns predinhos baixos, 5 andares no máximo. Tipo anos 50/60…
Fiz uma busca e descobri que não existe rua Plinio Ferraz em Sao Paulo, mas em Portugal existe uma escola estadual com esse nome.
Vim direto pro micro pra te contar, e cadê o teu endereço? Então, escrevi aqui. Os teus fregueses vão achar que eu sou louca! Bom, isso não importa, porque eu sou mesmo louca, mas ficou muuuuito comprido…
Saudade de vc, deve ser isso. E foi muito gostoso passear por uma São Paulo tão civilizada. E encontar com o meu pai (ele morreu em 92).
Beijos pra Fernanda (que aparelho horroroso, não tinha nada a ver…).
Beijão procê!
Regina [fecha aspas]

Resposta: Fernanda manda dizer que o pedal do piano já está consertado e que — não se aflija! — ela já tirou o aparelho. Digo eu que, na falta de Rua Plinio Ferraz em São Paulo, encontrei uma em Bauru que, pelo GoogleMaps, me pareceu muito simpática. Bairro afastado, casas com piscina, muito espaço. Só falta descobrir se há uma casa de número 25 e se está à venda. O fato de não ter dinheiro para comprá-la é de menor importância. Depois de um sonho desses, que diferença faz? Beijo.

Posts atrás, eu disse que não ia informar aqui quando a promoção do livro da Nigella Lawson estivesse no ar lá no Enfia o Dedo no Curry. Era tudo mentira. Quando escrevi isso, já tinha intenção de vir aqui avisar. Eu sou assim. Ladino. Matreiro. Cheio de subterfúgios. Aliás, eu faço cada bruta subterfúgio que nem te conto!

E então? Tá esperando o que pra ir lá participar da promoção e cuíca até ganhar um livrão lindão? Vai, meiga! Anda com isso!

Era velho, tinha o cabelo sujo, o nariz enorme, vermelho e esburacado, os olhos tristes e cheios de remela. Daria uma linda foto em preto-e-branco.

Ele se gabava de ter o corpo fechado. No entanto, abria a bunda com freqüência.

Post novo no Enfia o dedo no curry e cheira, meu blog culinário d’O Pensador Selvagem. Não é receita, é mais uma discussão sobre as dificuldades de ser peixe (fofa, são quase três da manhã, não consigo dormir, e você queria o quê? Uma receita? Só se fosse de Lexotan…).

Em mais alguns dias, vai rolar lá (eu disse LÁ) uma promoção que bolei junto com a Nigella Lawson (eu sou assim-ó com a moça, sabia não?). Vou dar um livro de receitas dela, lindão, de graça, em troca de uma frase e de uma receitinha sua.

É bom você feedar e/ou botar o Enfia o Dedo nos seus fêivorits, porque eu não vou avisar aqui quando a promoção começar, certo?

Não sei o que acontece com meu blog lá dentro dos mecanismos do Google, mas percebo que ele é… como dizer?… um blog privilegiado. Primeiro, isto aqui continua sendo a Meca do cu.
— Quero cu! — diz o pequeno bastardo.
— Cu? — pensa São Google, cofiando a barba e ajeitando os óculos num empurrãozinho nariz acima — Ora, cu é com Branco Leone — conclui.
E lá vêm as hordas em peregrinação. Eles que se ajoelhem pra rezar, que eu lhes mostro uma coisa…
Segundo, a velocidade com que o Google descobre o que escrevi é de se notar. “Jaqueta roxa”, por exemplo, expressão que escrevi anteontem no texto sobre o Klaus Kinski, já ontem mesmo figurou como resultado de busca.
Mas o “melhor” continua sendo a qualidade das pesquisas que fazem os pára-google-quedistas que aqui caem. E eu, sempre no afã de ajudar, não consigo deixar de responder às que acho melhores.

panda albino
Experimentou procurar por “urso polar”?

anal no cu
Mas… onde mais poderia ser?

como fazer sexo anal
É preciso um pinto e um cu que não pertençam à mesma pessoa. Ou não, sei lá. Mas como sei que aprender coisas lendo não é o forte da canalhada, aproveito para postar um vídeo deveras educativo.

como tira a orelha de albano
Eu sei que uma das minhas não funciona direito, mas deixa ela aqui, faz favor.

conclusao filme babel
“Pobre só se fode, em qualquer país do mundo.”

cono se escrever no provão
Estou com um mau pressentimento sobre o resultado desse seu provão…

cus para sexo
Eu não paro de me espantar com essas buscas…

doenÇas venerica
Agora me diga se burrice não pode ser considerada uma Doença Sexualmente Transmissível.

foto da bunda da advogada que comi na locadora
Sensacional. O cara acha que o Google é o Grande Irmão. Não ainda, seu babaca.

fotos caseiras de gordo pelados
Não me provoca, não me provoca!

marco de cu ao léu
O único Marco que conheço é o Marco Aurélio. E a partir de hoje, só o chamo de Marco ao Léu.

mulher com dois cu
E isso serviria para?

o que é monetização
É blogar como Monet.

pode levar notebook pro banheiro?
Pode, mas não vá grudar as páginas dele uma na outra, hein?

pode ter um livro diario sem lançamento
Pode. Aliás, deve.

porque homem gosta tanto de bunda?
Porque, quando olha, não se lembra do recheio.

que fazer segunda à noite?
Sei lá. Que tal uma pesquisa imbecil no Google?

situação atual de nelson nedi
Considerando que todo mundo encolhe um pouco quando fica velho…

sutaques mineiro
Mais ainda? Já não lhe basta?

videolog fotos caseiras enviadas
Videolog de fotos? Não prefere um filme pra assistir no rádio?

vou ver TV
Já vai tarde…

Em 1990, adaptei o poema Grandes são os desertos (Fernando Pessoa) para vídeo. Tarefa inglória, porque sabia de antemão que não teria talento para transpor, de uma para outra “mídia”, uma obra com a intensidade de Álvaro de Campos. Mas eu tinha feito a besteira de me inscrever com tal projeto no Prêmio Estímulo de Secretaria da Cultura do estado e, se não cumprisse o contrato, cairia em danação eterna, tanto em relação ao estado quanto comigo mesmo, que sei ser muito mais cruel (comigo) que qualquer torturador estatal.

Mas não entrei sozinho nessa barca furada. Fui com uma parceira, Marily da Cunha Bezerra, pessoa que eu tinha conhecido numa oficina de criação. Mulher inteligente, confiante no futuro e dona de extrema paciência, tinha portanto as características que precisava para que eu me elegesse à condição de seu parceiro, porque não é fácil (garanto-lhes!) me aturar enquanto crio e desenvolvo alguma coisa sob pressão. Foi graças à sua experiência e firme placidez que conseguimos fazer um vídeo dessa monta a tempo e horas, gastando apenas a verba miserável que nos foi concedida pelo prêmio, sem que nos matássemos a garrafadas.

Ainda guardo a bolacha do chope que tomamos no Riviera — bar que havia na esquina da Paulista com a Consolação — ao final da edição do vídeo. O “troféu” condensou as assinaturas dos envolvidos na empreitada, e hoje descansa dentro da mesma caixa onde está a fita editada. Símbolos sem nenhum valor para os outros, e acho que estes são os melhores símbolos a se conservar.

O vídeo, bem, o vídeo saiu como mandaram os deuses da penúria. Foi rodado em SuperVHS — sistema que hoje está no esquecimento, de onde nunca deveria ter saído —, editado numa ilha velha e cercada de fita isolante por todos os lados, e produzido com aquela mistura de pouca grana e favores de que vive esse tipo de criação. Quem não viu, veja:

Assistiu? Bem, eu avisei.

Eu e Marily encerramos nossos trabalhos e caímos em outras doideiras, mas, desta vez, cada um na sua. Fui para o meu lado, ela para o dela. Mas alguns meses depois de pronto o tal vídeo, alguém no Instituto de Estudos Portugueses da USP o encontrou no Museu da Imagem e do Som e nos pediu para exibi-lo em evento que tratava de Fernando Pessoa. Fomos convidados para a exibição, e comparecemos.

A sala estava repleta de catedráticos. Encheriam um avião da TAP, dos grandes. Exibido o vídeo, pensava eu, estariam terminadas as exibições. Engano. Tão logo a luz se acendeu, muitas outras luzes começaram a disputar lustro com as lâmpadas. Engalfinharam-se todos a ver quem mais reluzia de brilho acadêmico. Tive que ouvir coisas que jamais imaginara ouvir sobre trabalho meu: significados e significâncias outras que tínhamos dado ao poema, intenções e soluções semióticas que desconhecia (justo eu que, até hoje, desconheço o significado da palavra “semiótica”), transposições temporais e uns caralhos com asas.

Quando os sapos se cansaram de coaxar, a organizadora do evento deu os trabalhos por encerrados. Amém. Todos se levantaram e já iam saindo quando uma voz fininha se fez presente, vinda do fundo da sala: era uma estudante que pedia a palavra, a última palavra, o último suspiro da palavra em público.

Olhei-a, e vi a mais negra de todas as criaturas que tinha visto até então: pequenina, os cabelos trançados e amarrados numa corda, um caderno abraçado de encontro ao peito. Linda. Linda de tão triste. Seus olhos — brilhantes e úmidos — faiscavam na penumbra da sala. Aquilo sim, era um lustro. E ainda com um dedo em pé, ela me olhou no mais fundo que conseguiu e disse, com o sotaque macio do português africano:

— Vim d’Angola há seis meses, e só quero dizer que é exatamente assim que me sinto.

Meu Deus, havia uma pessoa! Havia uma pessoa em cem! E teve que vir da África, porque aqui não as havia! Juntei todo o controle que pude — minha vontade era cair no choro — e balbuciei, engasgado:

— Então, eu fiz o vídeo pra você. É seu.

Ela não conseguiu sorrir. Seus olhos desapareceram por trás de uma cortina de água.

Depois disso, cada um para seu lado, Marily saiu andando por terrenos mais espinhosos — a obra de Guimarães Rosa — em que foi se especializando a ponto de se tornar uma referência no assunto, junto com o maridão, Dieter Heidemann, um caboclo mineiro nascido na Alemanha que ela encontrou nas suas andanças. Só nos vimos mais uma vez, na exibição de um trabalho recém-concluído à época por ela, outra adaptação literária em película (não em vídeo) sobre o trecho talvez mais magnético de Grande Sertão, Veredas, o encontro de Riobaldo e Diadorim. Por divina obra de Santo Iutube, encontrei-o outro dia:

Pois bem, esses deuses são assim mesmo e, quando dão uma no prego, acertam também uma no (seu) dedo: junto com o vídeo, descobri que Marily morreu de câncer em 2006.

Puta merda. Não sei o que dizer, mas “é exatamente assim que me sinto”. Seja lá o que isso significar.

Aeroporto Internacional de Miami, um dia qualquer de 1988

Ela ia empurrando o carrinho com as malas, passo a passo, à medida que andava a fila do check-in. Os olhos de turista — e aqui seria melhor dizer todos os sentidos, porque viajar provoca uma espécie de aguçamento das capacidades de sentir, visão, audição, olfato, paladar, tato e mais algum ainda não classificado — então todos os sentidos da viajante observavam o que estava ao redor, as cores das roupas, o som reverberado do alto-falante rezando vôos, horários e portões, o resto do sabor do café tomado às pressas ainda agora, misturado ao cheiro do aeroporto, tudo compondo um cenário que, se agora não tem nada de onírico, daqui a algum tempo terá, e se tornará alguma coisa meio sonho, meio memória, sensação pura.

Ela observava as filas do check-in, pessoas empurrando seus carrinhos, todos no mesmo passo a passo sem nenhuma sincronia, um passo nesta fila, outro naquela, e assim por diante, as filas seguiam, e quem estava agora um passo mais próximo ficaria em seguida um passo atrás ou adiante, e ela começou a reparar num homem que ia passo a passo na fila ao lado, um homem que, depois, ela não saberia dizer se era grande ou não, porque não foi isso que a fez reparar nele.

Era um homem loiro ou quase isso — a luz do aeroporto fazia no seu cabelo um amarelo esverdeado —, magro, estupidamente magro. Tinha dois olhos muito claros e mal colocados numa cara de madeira talhada a machado pelas próprias mãos, grandes e nodosas, e cobria seus ossos com uma jaqueta roxa de cetim e a calça branca de um defunto pouco maior que ele. Mesmo boa, a roupa lhe caía de um jeito torto, esquisito. Um homem feio — mais tarde bonito, por ter se tornado meio sonho, meio memória — mas interessante. Seguia na sua fila sem carrinho, sem bagagem que não fosse uma grande bolsa pendurada num ombro, enganchada na ponta saliente de uma clavícula. Pela abertura dessa bolsa, mistério, escapavam penas, penas pretas e compridas, muitas. Um tucano?

Seus olhos enormes e claros fitavam o chão com raiva, como se o piso de mármore lhe tivesse feito alguma coisa de muito grave. E agora, como punição, ele mostrava à pedra o significado das palavras duro e frio. O chão, intimidado, deixava-se pisar sem reclamações. Ela, compadecida da pedra, observava o homem. A certa altura e repentinamente, ele chicoteou sua ira ao redor e encontrou os olhos dela, tristes e curiosos. Ela foi obrigada a encarar o vampiro que havia lá dentro e, magnetizada, não fez nada, não pôde fazer nada a não ser olhá-lo, endurecida. Eles se espiaram por imensos segundos. E o vampiro sorriu.

Ela não pôde lhe retribuir, porque logrou ver um fio de sangue a escorrer de sua boca. E pior: teve a certeza de que o conhecia.

***

Boulevard Saint Michel, Paris, 1991, manhã de sábado

Ela vinha andando por uma calçada, olhando a cidade, os olhos de turista — e aqui seria melhor dizer todos os sentidos, porque viajar provoca uma espécie de aguçamento das capacidades de sentir — todos os sentidos da viajante observavam o sol de cores outras, como se fosse outro o sol que ilumina Paris, o cheiro da cidade, os carros roncando em timbres diferentes, o sabor do café tomado no hotel — tudo compondo um cenário que, se agora não tem nada de onírico, daqui a algum tempo terá.

Ela dobra uma esquina e tromba de frente com um homem — ela nunca saberá dizer se ele era grande ou não —, seu rosto vai de encontro ao peito ossudo, os óculos voam, batem no ombro dele, cheio de clavículas pontudas, visíveis mesmo por debaixo da jaqueta de cetim roxo, e caem ao chão.

Ela, meio cega, não tem muito que fazer a não ser contar com a gentileza daquele borrão roxo que se curva, apanha e lhe devolve a visão. Enquanto o foco se faz, ela lhe vê rapidamente o sorriso, olhos claros transparentes misturados ao Fahrenheit a olhar para ela e a dizer:

— So sorry…

Desta vez — disto ela ainda se lembra, mesmo que tudo já tenha se tornado meio sonho, meio memória, sensação pura — não havia um fio de sangue, as pedras não tinham medo dele, e ela sentiu alguma coisa ao mesmo tempo refinada e selvagem, era como se ouvisse uma ópera a ser cantada na selva.

Antes que ela pudesse ligar coisa com outra, o homem olhou em frente e em frente seguiu seu caminho, havia uma obstinação nesse seguir, e lá se foi a jaqueta de cetim roxo por trás de uma esquina do Boulevard Saint Michel.

***

Dois meses depois, em casa, ela abre o jornal e lê a notícia da morte de Klaus Kinski, aos 65 anos, vítima de ataque cardíaco. Seu coração, que ela quase havia tocado com a testa, havia parado. Seus olhos — mesmo impressos a preto e branco — continuavam ali, claros e transparentes, ainda eram Nosferatu e Fitzcarraldo, dois sujeitos que ela encontrou pelo mundo e que morreram, talvez, sem saber da importância que ela dava a uma esquina. Talvez.

Foi como trocar um segredo com aqueles olhos, um carinho, um afeto. Um segredo tão secreto que nem ela sabia ao certo do que se tratava.

Ela o olhou mais uma vez e, sem medo, lhe disse:

— So sorry, Klaus…

E a tinta do jornal cheirou a Fahrenheit.

(escrito em homenagem a esta amiga
— que é também a protagonista da história —,
ilustrado por este amigo e
publicado nesta revista)

Não confunda “Sarah Palin” com “Sahara, com Michael Palin“.

Há camelos nas duas “obras”.

Ele dava muito valor ao esforço. Tinha prisão de ventre. E um cofre cheio de merda.