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Finalmente, vem à luz a segunda edição do maior fracasso editorial do ano: Os melhores (e alguns dos piores) textos de Branco Leone. Quase 104 páginas com mais ou menos 56 textos e seis haikais. Fora a ficha técnica e o prefácio. E a capa. E a cola. E a dedicatória.
Por quinze reais (valor que já inclui o frete por carta simples), você mesmo poderá rasgar seu exemplar. Se achar que é forçudo(a), pode rasgar dois por vinte (um negocião, fala a verdade!). E eu ainda faço preço especial para halterofilistas que gostam de rasgar listas telefônicas.
Não perca esta oportunidade de rasgar uma das maiores porcarias que a arte de Guttenberg já pariu (se ele soubesse, teria ido trabalhar na roça com o pai…).
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Hoje, São Paulo faz aniversário. Vai à merda, São Paulo.

É uma família de baixinhos e peitudas. Os homens, pai e filho, baixinhos; as mulheres, mãe e filha, peitudas. O pai é o dono da padaria, mas nem por isso é português, apesar de ser baixinho, e de sua mulher ser peituda. A mãe encosta os peitos no balcão e toma café. A filha, no caixa, mostra os peitos aos fregueses, à espera que lhe apareça um baixinho que a queira em casamento ou coisa melhor. O filho masca chiclete e coça o piercing no supercílio. O pão é uma merda.

   Todos os dias, ao acordar, todos os gaúchos dizem — e se não dizem, pensam, e se não pensam, intuem, e se não intuem, apenas sabem — em uníssono, “me acordei”. Os mais letrados, aqueles que não se deixam sequer começar um pensamento com pronome oblíquo, dizem — ou pensam, ou intuem, etcétera — “acordei-me”. Acordar, para os gaúchos, é um ato reflexivo. Já no restante do Brasil, os outros brasileiros apenas “acordam”.
No entanto, não há nestes acordares, gaúcho ou não, qualquer figura de linguagem, pois todos continuam, metafórica e estupidamente, dormindo.

O número de comentários em resposta a um post está na razão inversa da quantidade de palavras usadas na redação do post.
Para comprovar, basta verificar este post e este post.
Conclusão: quanto mais se escreve, menos se ouve.

A vida é uma mulher de óculos escuros.

Digite “nhenhenhe” no Google, e meu blog será o primeiro resultado a aparecer. Sacanagem!

  Em viagem, sempre optamos por não ligar o rádio. Conversar tem se mostrado muito mais interessante e proveitoso, ainda mais quando se tem dois pirralhos no banco traseiro, com quem podemos nos fartar de lhes impingir os parcos conhecimentos que dispomos sobre os locais que percorremos. Dessa forma, ficam todos satisfeitos: nós, por ter platéia para quem simular algum lustro; eles, por perceberem — coitados — que estão nas mãos de pessoas de infinita sabedoria sócio-econômica-histórico-geográfica.
Mas há os congestionamentos. Aliás, falando nisso, acho um absurdo que turistas tenham que pegar o congestionamento alheio. Se não trabalhamos naquela cidade, se não pagamos ali os nossos impostos, por que diabos haveríamos de ficar parados num congestionamento que não nos pertence? Mas o mundo não é justo, menos ainda na cidade do Rio de Janeiro. Foi só passar por debaixo da passarela 18 da avenida Brasil, o trânsito coalhou: sua excelência o senhor prefeito achou por bem mandar recapear a pista exclusiva dos ônibus numa quarta-feira lá pela hora do almoço, proporcionando a todos, cariocas e forasteiros em trânsito, o prazer de cozinhar-se no vapor e flambar-se em óleo diesel. Verdade seja dita, saímos da avenida apenas “ao ponto”, e não tão bem-passados quanto os bandidos conseguiriam, no dia seguinte e na mesma avenida, com dezesseis turistas que passavam de ônibus pela cidade. Saber disso depois transformou, instantaneamente, nossa terrível sensação numa lembrança quase agradável.
Mas enquanto lá cozinhávamos em fogo brando, acabamos por ligar o rádio. Turistas que somos, desconhecendo as estações mais adequadas ao nosso gosto, buscávamos apenas mostrar às crianças as diferenças de sotaque que temos neste país, mas fiquei estarrecido com o que encontrei: na primeira estação, um pastor, aos berros, exorcizava um capeta fluminense; na segunda, discutia-se, à luz do evangelho, com que freqüência devemos espancar nossas crianças; na terceira, um anúncio vendia um curso de pastor por correspondência. E a coisa seguiu assim por muitas estações. Apesar de desconfiar da qualidade de um curso de pastor (seja de cabras ou de almas) por correspondência, não me importo com o teor das emissões. Implico, isto sim, com a mesmice. Não haveria outro assunto a discutir? Outra ótica, outros pontos de vista? Tem que ser tudo “à luz” dos evangelhos? Não sou macho como este sujeito para dar minha opinião em público, mas faço questão de observar que a falta de multiplicidade de pontos de vista é o terreno que o preconceito precisa para florescer. Não posso gostar de saber que isto anda acontecendo no meu querido Rio de Janeiro.
Mas dias depois, na Bahia — mais precisamente na fila do ferry-boat que junta Salvador à ilha de Itaparica, ligo novamente o rádio e ouço, de chofre:
— Sua sogra é daquelas que anda pela casa de camisola, troca os móveis de lugar e não lhe poupa nem das suas “flatulenças”? — aqui a narração é interrompida por um estrepitoso traque — Ora, saia dessa vida e deixe de ser alugado! Alugue você um carro na Locadora Tal!
Sotaque por sotaque, sou mais o baiano…

  Acordo no hotel e vou ao refeitório. A cozinheira me vê e abre um sorriso:
— Ei, môss, que bom que ocêis acordáro! É que daqui um cadjím vai saí o bolim de mio quiêu fiz procêis, sab? Sintiu u chêr?
Justo pra mim, que sô doido por um bolim de mio, sô! Dá pra não gostar dessa terra?
Mas dez quilômetros adiante, num posto de gasolina, encontrei isto grudado à bomba:

  Tentei me apresentar, mas não deu resultado: o frentista não quis ‘panhar’ meu cheque de jeito nenhum. Eu devo ser mesmo muito estranho, ou essa gente é desconfiada djimáis da conta, môss…

  Há olhos de turista e olhos de citadino. “Cego de tanto vê-la”, assim como Caetano, ao partir em férias de minha cidade vi-a com olhos de citadino, e ela me pareceu boa. Se não boa, aceitável. Mas é com olhos de turista que retorno a ela. E sob este olhar, São Paulo sucumbe, apesar da natural complacência do turista. Ontem, ao entrar pela cidade adentro, senti o que deve sentir o dedo de um proctologista.
A noite caindo junto de uma chuva fina, o capim sem vacas dos canteiros maltratados, neo-paulistanos se amontoando em quasi-favelas por debaixo dos viadutos ou de qualquer coisa que se pareça com um teto, a arrogância dos nativos grudada aos vidros pretos dos automóveis, o lixo atirado à rua a entupir bueiros e a garantir enchentes que castigarão os arrogantes que atiraram o lixo à rua, trechos enormes de grandes avenidas sem uma vela que as alumiasse, tudo isso faz da “cidade” uma coisa que não merece esse nome. Isto é um câncer, uma tragédia anunciada e irreversível, uma bomba-relógio sem ponteiros.
Mas é bom, como paulistano, sentir que isto não é Brasil. Isto é apenas São Paulo. O Brasil é um lugar igualmente abandonado há quinhentos anos, repleto de boa gente, de ladrões, canalhas e vagabundos de todas as espécies, mas um lugar em que a Natureza, de um jeito ou de outro, consegue – ou conseguirá – uma solução. Sobre São Paulo, conforta-me pensar que, de um jeito ou de outro, sempre teremos a bomba atômica.
Ou então, não é nada disso, e tudo terá sido apenas a decepção dos olhos de turista.

…estou de volta. Mas ainda faltam alguns centímetros para conseguir escrever alguma coisa. Pra já, até o barulho destas teclas soa estranho. Volto logo.