Temos feito viagens à Bahia regularmente, sempre na mesma época, desde o raiar do corrente século. Da primeira vez, o trajeto foi apenas de volta, porque nosso carro havia sido comprado em Salvador, e o viemos estreando na estrada. Depois disso, temos ido e voltado praticamente em todos os anos, sempre na mesma época, cruzando os mesmos estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia na ida, o contrário na volta).

Nessas viagens, a parte mais interessante tem sido poder estudar ao vivo todas as Geografias — Política, Física, Social, Cultural —, os planaltos que vão virando serras, os sotaques se transformando, a variação da temperatura e da umidade, os pastos e plantações, o mangue, o semi-árido, a Mata Atlântica que ainda resiste aqui e ali, a importância econômica de cada região, a arquitetura, as raças, a culinária, e mesmo a involução do pãozinho francês, cuja qualidade vai diminuindo a cada quilômetro rodado, até descambar, em Salvador, num troço tão comestível quanto uma sandália havaiana que, pra piorar, ainda se chama ‘cacete’ ou ‘vara’ (e os soteropolitanos que não me venham falar da Perini, porque um carcará só não faz verão). Tudo muda muito, e não é de estranhar que isso aconteça, porque essa distância, se percorrida na Europa, faria o viajante cruzar até seis países de línguas e culturas totalmente diferentes. Aqui, ao menos a língua é (quase) a mesma.

Mas há uma coisa que une todos os povos deste país: a mandioca. Por onde se passe — e não apenas neste trajeto, mas do Oiapoque ao Chuí, via Lapa ou pelo Acre —, sob qualquer clima, topografia, sotaque ou poder aquisitivo, a mandioca está lá, na beira da estrada. Sua presença é tão marcante, sua importância na culinária é tão significativa, que cheguei a criar esta nova bandeira para o Brasil, muito mais representativa de nossa terra do que a toalha de mesa que se usa atualmente. E se alguém achar que a folha de mandioca se parece com a da maconha, bem, a bandeira atual exibe um insólito “Ordem e progresso”, e ninguém diz nada.

Numa viagem desse tamanho, é natural que aconteçam pequenos incidentes, e eles sempre têm provocado interessantes alterações no trajeto. No ano retrasado, por exemplo, o rio Paraíba, cheio como nunca por causa das chuvas, destrambelhou a então única ponte disponível em Campos de Goitacazes – RJ. No desvio que fomos obrigados a fazer para subir 200 quilômetros de rio até a ponte seguinte, conhecemos um ótimo hotel-fazenda e uma excelente estrada que, para melhorar ainda mais, encurtava o trajeto em quase 100 quilômetros, além de nos permitir evitar uma das mais detestáveis cidades em que já tivemos o prazer de escarrar.

Já neste ano, o incidente foi o tal hotel-fazenda estar lotado. Por não conhecermos nenhuma opção decente num raio de 150 quilômetros, optamos por um pernoite em Cachoeiro do Itapemirim, terra de Rubem Braga e de Roberto Carlos, também um Braga, assim como qualquer sapataria, açougue, boteco, ponte, teatro ou puteiro da região. Família grande…

Nesse amálgama de povos e culturas tão distintas que vamos percorrendo, temos percebido que o estado do Espírito Santo não foi muito bem servido de características exclusivas: o sotaque é mezzo-mineiro mezzo-carioca, o prato típico é moqueca (que é tipicamente Nordestina, mas feita sem dendê no ES, o que não chega a ser uma característica), a cachaça boa é a mineira, e agora começamos a notar que até os nomes de alguns bairros da capital Vitória (linda, diga-se de passagem) são “importados”, como Itapuã e Itaparica (bairro e ilha em frente a Salvador), Garanhuns (Pernambuco), Muribeca (Sergipe), e por aí vai.

Mas Cachoeiro do Itapemirim me surpreendeu. Logo que cheguei à cidade, fui descendo para o centro, a fim de encontrar o hotel em que tinha feito reserva. No zunzum característico do fim de tarde no centro de qualquer cidade, procurando placas de rua (não vi uma sequer, puta merda!), fui ultrapassado por uma moto que, estranhamente, parou logo em seguida no meio da rua. Não custei a entender o motivo de semelhante manobra:  o cabra tinha parado para que uma pessoa atravessasse a rua pela faixa de pedestres. No entanto, o sinal não estava fechado (sequer havia sinal), não havia um guarda que o mandasse parar, nem qualquer outro motivo além da prosaica presença do indefeso pedestre em frente à faixa. Pasmei, duvidei que fosse verdade porque só tinha visto isso em filme.

No entanto, uma hora depois, já instalado no hotel, desci para ir à padaria. Vi-me na calçada de uma rua em curva, sem visão do tráfego ao longe e, para piorar, num ponto da rua em que os carros passavam voando. Mas havia uma faixa de pedestres bem em frente ao hotel.

Lembrei-me então do acontecido e, assim como quem não quer nada (até para não passar vergonha se o expediente não funcionasse), pus-me em posição de travessia, primeiro timidamente (os carros continuavam a passar rápido, como se eu não estivesse ali), depois com mais atitude (não me pergunte o que fiz, mas passei a me sentir assim, com mais atitude), e a coisa começou a funcionar: um carro diminuiu a velocidade, parou antes da faixa, e depois outro, e mais outro, e eu, Moisés no Mar Vermelho, fui atravessando a rua sem cajado mas de boca tão aberta quanto a dele, e os carros foram parando, e eu atravessando a rua, cheguei ao outro lado e, assim como ele deve ter feito depois da façanha, virei-me para trás, olhei o rio de carros que voltara a correr e exclamei “Puta merda, não é que porra deu certo?”.

Na volta, repeti a façanha (Moisés, que eu saiba, só fez viagem de ida) e retornei à calçada de origem, onde tinha deixado minha trêmula mulher a balbuciar sua versão da Ave Maria, ignorante de orações que é.

Então eu, que costumo dizer que o Espírito Santo não tem nenhuma característica exclusivamente sua, digo agora, com conhecimento de causa, que ao menos Cachoeiro do Itapemirim tem uma, e das mais impressionantes para um paulistano: os motoristas param para que os pedestres atravessem a rua sem que ninguém os obrigue a isso! Essa sim, é uma característica que eu gostaria que constasse da bandeira nacional.

Anúncios