Dias atrás, li este post do Marco ao Léu e, mais uma vez, discordei. Digo ‘discordei’, mas o fiz em silêncio, e observo que foi ‘mais uma vez’ porque ele toca no assunto a toda hora e eu sempre discordo. Daí, me resolvi a escrever este post, mas só agora tive paciência de ir procurar as informações que sabia ter mas não imaginava em que pasta estavam. Achei. E conto a história.

Galopava o ano de 2001. Eu fazia parte de uma ‘e-oficina’ de criação literária sob a coordenação de João Silvério Trevisan, patrocinada pelo SESC-SP. A coisa funcionava mais ou menos assim: dez sujeitos numa sala de chat, sob olhar e ordens de Trevisan; três meses corridos com três encontros semanais com duração de duas horas cada; apresentavam-se alguns dos textos, escritos pelos participantes, segundo um tema apresentado anteriormente; todos criticavam todos os textos, incluindo o coordenador; conforme as opiniões, o circo pegava fogo. Era cansativo e enervante (quem me visse voltar pra cama depois das reuniões pensaria que eu tivesse chegado de uma briga num bar, não de uma sala de chat), mas foi a única experiência realmente proveitosa que fiz no assunto: se aprendi muito sobre escrever, aprendi mais ainda sobre os motivos de escrever, coisa mais séria.

Numa das noites em que nos reunimos, o texto a criticar era um diálogo muito bem construído por um escritor de Teresina em que, numa das falas, uma personagem dizia algo como ‘barriga lisinha é coisa de veado‘. Eu (e minha boca grande), na hora de colar no chat a crítica que havia escrito anteriormente, nem percebi que a coisa ia desandar ali, depois da minha frase final: ‘O diálogo é ótimo. O [autor] segurou a veracidade de ponta a ponta. Gostei muito. Pra ser perfeito, eu escreveria ‘viado’ ao invés de ‘veado’.

O barraco ardeu. E bastou um outro oficineiro concordar comigo para a horda se dividir em duas, os Pró-Viados e os Veados Até Morrer. Ao final desse mesmo encontro, o segundo grupo (o dos Veados) desistiu da oficina para nunca mais voltar, e os trabalhos tiveram que seguir manquitolando até o final do trimestre.

Pouco importa o que se falou em defesa ou no ataque das duas versões da palavra. É claro que se trouxe à mesa todo tipo de alfarrábio (Aurélios, Houaisses e mesmo os anglicistas infiltrados Webster e Michaelis), é claro que se expuseram argumentos regionalistas (‘no Nordeste se fala assim’, ‘em São Paulo se fala assado’), muitos foram chamados de ignorante (eu, inclusive, fui chamado de ‘ingnorante’ por um oponente), é claro que — mais uma vez — puseram a malemolente Lingüística pra brigar com a engessada Gramática (é impressionante o que essas duas gostam de brigar!). E, é claro, nada disso deu em nada, e todos saíram com seus narizes e opiniões intactos.

No entanto, porradas dadas e levadas, o mais importante foi perceber que a discussão ultrapassava os ambientes regionalistas, gramaticais e lingüísticos. O buraco era, como se viu depois, mais em baixo (ou mais atrás, se você gostar de uma piada besta). Copio aqui uma das ‘falas’ de Trevisan, quando começava a expor sua opinião pró-viado: ‘(…) Além do mais, [escrever ‘viado’] é uma reivindicação de certa parcela da comunidade homossexual. Se a palavra é usada como ‘viado’ [é porque] pede-se visibilidade ao termo. Que os brasileiros assumam a diferença linguística que eles, inadvertidamente criaram. E que se tornou uma marca identitária, pelo menos no caso’.

Trevisan — escritor, jornalista, dramaturgo, tradutor, cineasta e ativista GLBT, além de meu velho amigo — expõe o argumento que os dicionários não têm autoridade para discutir: usar a palavra ‘viado’ para se referir ao homossexual do sexo masculino é reivindicação de parte da comunidade homossexual. Sendo assim, pau no cu do Houaiss (maneira de dizer…), porque, para tratar deste assunto, o dicionário é este.

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