Roda de homens e mulheres, cabeças baixas, olhos encovados, um misto de cansaço e sucesso na expressão dos rostos ressecados, repletos de aliterações. A sala penumbrosa, cadeiras diferentes umas das outras fazem roda, um quadro enorme de moldura que já teve mais dourado em suas retortas pende de uma das paredes e exibe um Hades gordo e ao mesmo tempo musculoso raptando Perséfone para levá-la àquilo que chamávamos Inferno, mas que, sabemos hoje, não passa de um prosaico subterrâneo. A roda olha o tapete ensebado como se Hades em pessoa gorda e musculosa fosse surgir dali do meio, mesmo na roda não havendo Perséfone que preste para chutar, que dirá para raptar.
Alguém deve tomar a vez, e levanto-me:
— Boa noite. Meu nome é Branco, e eu sou escritor.
— Boa noite, Branco — novenam os outros.
Eu continuo. É preciso dizer o que vim dizer:
— Há um ano que não escrevo um conto — digo.
Os outros aplaudem. Sem animação, mas, ainda assim, é um aplauso.
— Estou limpo — digo, e curvo-me num esboço de sentar.
— Nem um poema? — interrompe-me um vozeirão afetado, viado velho que não publiquei por ser ruim, não por ser viado ou velho, coisa de que me acusou depois da recusa.
— Nem um hai-kai sequer — cuspo-lhe na cara, satisfeito e vingado.
Sigo no sentar, mas sou interrompido mais uma vez:
— E e-mails? Você não tem respondido nem um e-mail? — chia fina e rouca de cigarro uma voz. Eu olho para o escuro de onde veio o grasnido, e entendo: uma senhora velha conhecida, escritora inveterada que, hoje, afastada dos romances e outras prosas por recomendação médica e desespero familiar, insiste em me provocar com powerpoints diários, cheios de flores e outras ofensas, e sei que o faz para tripudiar de mim quando lhe respondesse — por escrito — com os palavrões que merece.
— Nem e-mails — digo à bruxa ressequida enquanto a encaro. Triunfante, continuo:
— E você sabe disso muito bem, moira.
Todos se olham percebendo ali alguma coisa, um revide?, alguma possibilidade de assunto, futuros escárnios. E sigo no sentar, que é incômodo permanecer tanto tempo na posição de quem vai levar um chute, sem levá-lo.
— E posts? Que me diz dos blogs? Nenhum post?
Sinto o sangue esfriar. Reconheço o sotaque de Pernambuco, e sei que agora não é um débil oponente que se acoberta no escuro. Proxeneta das palavras afastado da caneta, o canalha cangaceiro ganha a vida agora a revisar o alheio, a encontrar defeitos nos defeitos dos outros, a encher papéis de bolas e riscos a caneta vermelha. Sei bem o que o faz fazer isso, ele é como o ex-alcoólatra que conserva em casa o armário das bebidas, apenas para limpar diariamente as garrafas a flanela, sentir seu poder engarrafado, transmutado em álcoois coloridos e, no caso dele, cheios de bolas e riscos vermelhos. Mas o filho da puta não ia me derrubar com um risco só.
— Nem um sequer. Pode ir lá ver. Os blogs estão no ar.
— E este post? Que me diz deste post?
— Que post? — balbucio, antevendo o desastre.
— Este, homem! Este post! — grita.
Veio o chute, afinal. É verdade. Sou um fraco. Dia desses acabo escrevendo um romance. E, pior: sem querer. Nunca estarei limpo.

Anúncios