Em 1990, adaptei o poema Grandes são os desertos (Fernando Pessoa) para vídeo. Tarefa inglória, porque sabia de antemão que não teria talento para transpor, de uma para outra “mídia”, uma obra com a intensidade de Álvaro de Campos. Mas eu tinha feito a besteira de me inscrever com tal projeto no Prêmio Estímulo de Secretaria da Cultura do estado e, se não cumprisse o contrato, cairia em danação eterna, tanto em relação ao estado quanto comigo mesmo, que sei ser muito mais cruel (comigo) que qualquer torturador estatal.

Mas não entrei sozinho nessa barca furada. Fui com uma parceira, Marily da Cunha Bezerra, pessoa que eu tinha conhecido numa oficina de criação. Mulher inteligente, confiante no futuro e dona de extrema paciência, tinha portanto as características que precisava para que eu me elegesse à condição de seu parceiro, porque não é fácil (garanto-lhes!) me aturar enquanto crio e desenvolvo alguma coisa sob pressão. Foi graças à sua experiência e firme placidez que conseguimos fazer um vídeo dessa monta a tempo e horas, gastando apenas a verba miserável que nos foi concedida pelo prêmio, sem que nos matássemos a garrafadas.

Ainda guardo a bolacha do chope que tomamos no Riviera — bar que havia na esquina da Paulista com a Consolação — ao final da edição do vídeo. O “troféu” condensou as assinaturas dos envolvidos na empreitada, e hoje descansa dentro da mesma caixa onde está a fita editada. Símbolos sem nenhum valor para os outros, e acho que estes são os melhores símbolos a se conservar.

O vídeo, bem, o vídeo saiu como mandaram os deuses da penúria. Foi rodado em SuperVHS — sistema que hoje está no esquecimento, de onde nunca deveria ter saído —, editado numa ilha velha e cercada de fita isolante por todos os lados, e produzido com aquela mistura de pouca grana e favores de que vive esse tipo de criação. Quem não viu, veja:

Assistiu? Bem, eu avisei.

Eu e Marily encerramos nossos trabalhos e caímos em outras doideiras, mas, desta vez, cada um na sua. Fui para o meu lado, ela para o dela. Mas alguns meses depois de pronto o tal vídeo, alguém no Instituto de Estudos Portugueses da USP o encontrou no Museu da Imagem e do Som e nos pediu para exibi-lo em evento que tratava de Fernando Pessoa. Fomos convidados para a exibição, e comparecemos.

A sala estava repleta de catedráticos. Encheriam um avião da TAP, dos grandes. Exibido o vídeo, pensava eu, estariam terminadas as exibições. Engano. Tão logo a luz se acendeu, muitas outras luzes começaram a disputar lustro com as lâmpadas. Engalfinharam-se todos a ver quem mais reluzia de brilho acadêmico. Tive que ouvir coisas que jamais imaginara ouvir sobre trabalho meu: significados e significâncias outras que tínhamos dado ao poema, intenções e soluções semióticas que desconhecia (justo eu que, até hoje, desconheço o significado da palavra “semiótica”), transposições temporais e uns caralhos com asas.

Quando os sapos se cansaram de coaxar, a organizadora do evento deu os trabalhos por encerrados. Amém. Todos se levantaram e já iam saindo quando uma voz fininha se fez presente, vinda do fundo da sala: era uma estudante que pedia a palavra, a última palavra, o último suspiro da palavra em público.

Olhei-a, e vi a mais negra de todas as criaturas que tinha visto até então: pequenina, os cabelos trançados e amarrados numa corda, um caderno abraçado de encontro ao peito. Linda. Linda de tão triste. Seus olhos — brilhantes e úmidos — faiscavam na penumbra da sala. Aquilo sim, era um lustro. E ainda com um dedo em pé, ela me olhou no mais fundo que conseguiu e disse, com o sotaque macio do português africano:

— Vim d’Angola há seis meses, e só quero dizer que é exatamente assim que me sinto.

Meu Deus, havia uma pessoa! Havia uma pessoa em cem! E teve que vir da África, porque aqui não as havia! Juntei todo o controle que pude — minha vontade era cair no choro — e balbuciei, engasgado:

— Então, eu fiz o vídeo pra você. É seu.

Ela não conseguiu sorrir. Seus olhos desapareceram por trás de uma cortina de água.

Depois disso, cada um para seu lado, Marily saiu andando por terrenos mais espinhosos — a obra de Guimarães Rosa — em que foi se especializando a ponto de se tornar uma referência no assunto, junto com o maridão, Dieter Heidemann, um caboclo mineiro nascido na Alemanha que ela encontrou nas suas andanças. Só nos vimos mais uma vez, na exibição de um trabalho recém-concluído à época por ela, outra adaptação literária em película (não em vídeo) sobre o trecho talvez mais magnético de Grande Sertão, Veredas, o encontro de Riobaldo e Diadorim. Por divina obra de Santo Iutube, encontrei-o outro dia:

Pois bem, esses deuses são assim mesmo e, quando dão uma no prego, acertam também uma no (seu) dedo: junto com o vídeo, descobri que Marily morreu de câncer em 2006.

Puta merda. Não sei o que dizer, mas “é exatamente assim que me sinto”. Seja lá o que isso significar.

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