Não gosto de Olimpíada. Não vejo graça, quase nada daquilo me interessa e, por isso, tudo me parece muito chato.
Começa que o evento é feito principalmente por pessoas que classifico de psicóticas. Sim, porque dedicar uma vida inteira à superação de si mesmo com o único intuito de ser melhor que todos os outros, bem, só consigo ver isso como resultado de alguma grave psicose. Quando vejo o rapagão se preparar para pular na piscina, a genuflexão dos corredores antes da corrida, os olhos fechados dos ginastas antes da apresentação, só consigo me lembrar dos amores que não viveram, das festas a que não foram, da escola que não puderam cursar, dos filhos que não tiveram, dos berros dos treinadores e, principalmente, do esforço que cada um daqueles meninos e meninas foram obrigados a fazer para se anular em prol de se superar. Peraí: se anular para poder se superar? Isso faz sentido?
É claro que, se eu me descuidar ou estiver propenso a isso, vai brotar uma imediata identificação com esses jovens, e passarei a torcer por eles, sejam brasileiros ou não. Sim, porque todos nós enfrentamos todos os dias pequenas histórias que nos exigem pequenas superações. O joelho que dói, a preguiça de ir à padaria, a necessidade de parar de fumar, de emagrecer, de ser aprovado no concurso. Mas tudo isso é considerado quirera quando comparado aos “grandes feitos” dos atletas. Valor mesmo, valor de verdade tem a gente conseguir pular por cima de um pau que está a 5 metros de altura, ou correr cem metros em menos de dez segundos. Mas… pra que presta isso? Se um dia o John Benson (ou Ben Jonhson, nunca me lembro do nome dele) precisar, por exemplo, fugir de um guepardo… será comido, porque o guepardo corre três vezes mais rápido. E sem anabolizantes. Neste caso específico, coitado do guepardo, porque o negão deve ser duro como pedra.
Além de tudo isso, a identificação que sentimos com os atletas é maldosamente reforçada pelo sentimento nacionalista que brota ao mesmo tempo, outra coisa que me incomoda por já ter sido responsável por muita merda na história da humanidade. Com isso, “nossos” meninos e meninas são (e, se não são, deveriam ser) melhores que os meninos e meninas dos outros. “O Brasil ganhou tantas medalhas!”. O Brasil? O que é “o Brasil”? Além de arrumar mais uma almofada no sofá e de abrir mais uma cerveja, o que “todos nós” fizemos para ajudar a molecada a ganhar medalhas? Seria justo confiscar esse prêmio e dividi-lo entre todos os preguiçosos da nação?
E nem vou mencionar a questão dos patrocínios, sempre interesseiros, nada desportivos, que transformam o trabalho gratuito dos atletas em matéria-prima para contratos bilionários, transformam sonhos em produtos.
Honestamente, sem nenhuma demagogia, prefiro aplaudir as histórias de superação que vejo dos vencedores que conheço, que estão por perto, que não têm treinador ou patrocínio. E aqui, todos nós, de um jeito ou de outro, o somos. Mas falamos pouco de nossas vitórias. Todos nós temos vencido nossas batalhas, todos temos nossas histórias de superação, e nunca pensamos em medalha. Minha mulher, oncologista, atende todos os dias a uma dúzia de “atletas”, fundistas que vêm fazendo a maratona sem saber onde será a linha de chegada ou quando abandonarão a corrida, e cuja única medalha é um exame semestral com a palavra NEGATIVO no lugar do resultado.
Isso, sim, é desafio. Perto deles, qualquer furiosa e anabolizada delegação de psicopatas não passa de um bando de mariquinhas.
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