Não sei se falei dele antes. Se não falei, devia ter falado. De um jeito ou de outro — mesmo que, ao pensar em dizer isto, consiga vê-lo abanando a cabeça com um sorriso meio-desdenhoso meio-simpático —, Nicolas Behr é uma das pessoas de maior importância da minha vida literária (se é que tenho uma vida que se possa chamar assim).

Em 1981, eu trabalhava numa agência de propaganda, a Tempo/FCB. Era uma espécie de faz-tudo (laboratorista fotográfico, assistente de estúdio, arquivista da filmoteca, projecionista e motorista da Veraneio), apesar de não fazer nada disso muito bem. Minhas funções, apesar de muitas, eram das menos importantes na agência, tanto que, quando precisaram reduzir a folha de pagamento, fui um dos que saiu a procurar trabalho em outra paróquia.

(Menciono aqui esta pouca importância apenas para mostrar que o caso que narro foi mais um destes bondes aparentemente errados que a vida sempre faz passar pela minha frente, e em que eu, corretamente, embarco.)

Estava eu, então, no escurinho do meu laboratório, quando bateram à porta. Era Jair, chefe da expedição da agência. Trazia um embrulho na mão, coisa pequena em papel pardo e muito bem amarrado com barbante, com o nome de um dos diretores da agência escrito em letra bonita e descuidada.

— Ocupado?
— Nem tanto.
— Não sei o que fazer com isso. É pro Ricardo.

O destinatário em questão era Ricardo Ramos, e o mais estranho que — hoje! — se verifica é que, à época, esse sujeito era apenas um ex-patrão e, coincidentemente, meu professor de Criação Publicitária na ESPM, escola que eu cursava à noite. Mais coincidentemente ainda, Ricardo viria — 20 anos depois, isto é, 11 anos depois de sua morte! — a ser meu tio por afinidade: casei-me com a sobrinha dele. Mas isto é outra história (será?). Prossigamos. E eu pergunto a Jair:

— Não tem ninguém que tenha contato com ele, que possa lhe levar o embrulho?
— Não.
— Não é possível. Tem que haver algum contato. O homem foi diretor desta empresa até outro dia, alguém tem que ter o telefone dele, sei lá.
— Não tem.

Olhei pro pacote. Era deveras atraente, ainda mais pra mim, que adoro pacotes, notadamente os enviados pelo correio.

— E o que eu posso fazer? — perguntei.
— Fica com ele.
— Mas… fico com ele pra fazer o quê?
— Sei lá. Pobrema seu.

Olhei pro embrulho. Pensei que poderia, na semana seguinte, entregá-lo ao homem antes da aula.

— Dá isso aqui, que depois eu vejo o que fazer.
— Puxa, obrigado! — expirou Jair, livre. É preciso entender que, para quem trabalha numa expedição, um embrulho sem dono é das coisas mais graves que pode ocorrer. Cada um com seus pobrema.

Fechei a porta do laboratório e olhei o pacote. Ao Sr. Ricardo Ramos. Endereço. Virei. Nicolas Behr. Endereço. Brasília. Enfiei o pacote na mochila e fui cuidar da vida.

À noite, em casa, limpando a bolsa, tropecei no embrulho. Ao Sr. Ricardo Ramos. Nicolas Behr. Brasília. Abri o embrulho. Meus hoje-primos, hoje-tios e hoje-sogra que me desculpem, mas começava ali a fase mais importante da minha vida. Eu não sabia, ninguém sabia, mas se eu não tivesse feito isso, hoje não seria quem sou, e eles não seriam meus parentes.

O pacote trazia uma dúzia de pequenas coisas: uma carta datilografada para Ricardo, um livro fininho e uns tantos… como dizer?… livrinhos. Eram como folhetos de cordel, impressos em mimeógrafo a tinta. Dentro deles, uma poesia louca, aparentemente descompromissada, muito inteligente e — principalmente — bem-humorada. Os títulos, instigantes: Saída de emergência, Te amo 24 horas por segundo, Entre quadras (Poesia com sabor bem Brasília), L2 noves fora W3 (Poesia pau-brasília), Põe sia nisso!!!, Brasiléia desvairada, etc. Li todos num arranque só e — impossível fazer diferente — escrevi uma carta ao autor. Eu não podia deixar de entrar em contato com a única vida inteligente disponível em Brasília.

Dias depois, recebi a resposta — acompanhada de mais um livro — e o reforço do pedido que entregasse a primeira carta a Ricardo: Nicolas batalhava um emprego numa agência de propaganda em São Paulo. Coitado, que bobagem. Eu, de minha parte, não podia entregar um embrulho rasgado a Ricardo e, pior, correr o risco de perder as vias únicas daqueles livros (que conservo até hoje, como pode se ver na foto acima). Com isso, é capaz que eu tenha interferido no destino de Nicolas, e sentiria vergonha por isso, não fosse estar certo que a interferência foi positiva: ele seguiu seu caminho por lá mesmo, não veio apodrecer em São Paulo, e hoje, além de poeta dos melhores, ainda trabalha na proliferação de espécies do Cerrado, entre outras atividades nobres.

Encontrei-me com Nicolas apenas uma vez, num evento na Livraria da Vila, e foi ótimo poder ver e ouvir o sujeito, meu velho amigo com cara de viking e olhar de criança, doce bárbaro em todos os sentidos, que — sem querer — me pôs na estrada da independência, o cara que foi na frente dizendo “vai por aí, mete bronca, que vai dar certo”. Nicolas, sem saber disso, é o patrono d’Os Viralata.

E então, dia 18 de junho próximo, quarta-feira, a partir das 19 horas, na Casa das Rosas (av. Paulista 37), o candango de Mato Grosso vem mais uma vez a São Paulo, desta vez para lançar seu Laranja Seleta, poesia reunida de 1997 a 2007.

Não perco isso por nada. E se você anda com sede do sabor do raro coquetel de inteligência com bom-humor (se é que já o provou algum dia), apareça.

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