— Você é danadinho, hein, menino? — ela me diz enquanto coloca a mão sobre a minha, aproveitando-se da proximidade, quando me abaixo para lhe dar um beijo.
— Sou? — pergunto sorrindo, espantado.
— É! Você escreve cada coisa!
— Ai, não me diga que você lê o que escrevo! — torço para que o que ela diz seja apenas por simpatia.
— Se leio!
— Pois não faça mais isso, certo? Nunca mais! — brinco de repreendê-la.

Ela ri. Fecha os olhos, e ri. Larga minha mão e me observa. Demoro a entender o olhar, mas finalmente percebo: ela me fotografa. Eu olho aqueles olhos, e sinto que é impossível não amá-la. Impossível não me sentir quase empurrado, é como se a força que um dia movimentou seu corpo tivesse migrado para os olhos. Os olhos de Zélia Gattai.

Devo a Zélia algumas de minhas mais nobres certezas. A certeza de que é possível amar, de que é possível começar, que sempre é possível começar e continuar, contar histórias e — uma das mais difíceis — rir disso tudo. E que estas são algumas das poucas coisas que merecem atenção. Amar muito, começar sempre, contar histórias e rir.

Difícil escrever sobre isto, sobre ela. Antes, seria melhor (melhor?) ter certeza da realidade: olhar para a cabeceira daquela mesa e não vê-la, não ver os domingos, a jarra de água de coco, a cesta de beiju, a cadeira vazia, o quadro por detrás, retrato dela mais jovem. Mais jovem, eu disse? Duvido. Difícil imaginar Fadul procurando seus pés. Nestas horas, ninguém se lembra dos cães. Ninguém se lembra de quem ama pelos olhos.

Zélia morreu. E agora? Como amar, começar sempre, contar histórias e ainda rir? Quem pode sorrir com isto? Vai ser difícil. Prometo tentar, tia. Amanhã. Hoje não. Hoje, só consigo mesmo esta homenagem piegas, impossível de não a fazer, impossível de a fazer de outro jeito. Me desculpe.

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