Não sou muito chegado a mudanças. Entre todas as possíveis (e são muitas!), a que mais me incomoda, talvez, seja a de faxineira. Puxa, a antiga estava lá, trabalhando direitinho, já sabia onde podia e não podia mexer, já tinha aprendido que fios elétricos não são feitos para enroscar na vassoura, que a mangueira da máquina de lavar despeja na privada e que não deve ser removida de lá enquanto a lavagem não terminar, já tinha aprendido que eu detesto chão encerado porque detesto escorregar e, principalmente, já sabia o que é e o que não é lixo numa casa em que isso nem sempre é muito claro por motivos diversos e que não vêm ao caso. Mas a faxineira anterior era boa demais pra ser apenas faxineira e foi alçar outros vôos, e bem merece que tenha sucesso. Enquanto isso, eu, um pobre patrão…

— Bacana essa estante, hein? Grandona.
— É.
— Por que os livro tá tudo no chão?
— Porque eu acabei de fazer a estante, ainda não tive tempo de arrumar.
Ela alisa umas das prateleiras com a palma da mão.
— Aqui eu passo lustra-móveis, né?
— Não, é melhor…
— Óleo de peroba, né?
— Não, sabe, é que…
— Cera?
— Se você me deixar terminar a frase, garanto que consigo explicar.
— …
— Não precisa passar nada. A madeira já está tratada, basta tirar o pó. Se você passar alguma coisa sem tirar os livros, a madeira embaixo deles vai ficar mais clara e, portanto, desigual. Se você tirar os livros, não vai conseguir pôr tudo de volta no lugar certo. Daí, o melhor é não passar nada mesmo.

Silêncio sepulcral, olhos descrentes. Eu não perco mesmo a mania de dar explicações enormes e inúteis. Bastava um “não passa nada”, e pronto. Mas eu não aprendo. Para mudar de assunto, pergunto:

— O que você vai fazer de almoço?

A antiga faxineira cozinhava. Com isso, eu não precisava umbigar o fogão em dia de faxina, até porque a cozinha fica beirando o intransitável com a bagunça provocada pela arrumação. Mas esta:

— Nada. É o senhor que vai cozinhar.

Digamos que eu até admire a franqueza e uma eficaz exposição de pontos de vista, mas… bem…

Primeiro dia de trabalho, não podia ser de outra forma: pergunta atrás de pergunta.

— Onde tem sabão?
— Cadê as buchinha?
— Não tem bassoura de pêlo?

E cai coisa no chão. Não quebrou.

— A dotôra tem avental?
— Tem uns quatro, acho.

A “dotôra” é médica e, como sói a esses profissionais, usa avental. Mas não era isso que ela queria. Procurava um para ela mesma, “pra mim num molhá a barriga, sabe?”. Por pouco, quase começo a explicar que, nesta guerra, é o soldado que traz a espingarda, mas paro a tempo. Ela não vai me pegar de novo. E seguem as perguntas:

— O que eu faço com esse caixote? — apontando para minha… como dizer?… horta.
— Ela [a “dotôra”] usa essa sapataiada toda?

E cai coisa. Não quebrou de novo.

— Como eu baixo a janela do quarto? Queria jogar água nela. Tem mangueira?
E eu só pensando se ela pretende fazer isso pelo lado de fora do quarto.
— A descarga do banheirinho lá fora emperrou, é assim mesmo?

E cai coisa. E mais coisa. Ai, meu Deus, um terremoto! Agora quebrou! Foi-se o vidrão, um vidrão enorme, onde eu faço… quer dizer, fazia minha conserva de pepino. O vidro em que minha mãe fazia a mesma conserva. Um frasco histórico. Não me lembro de viver sem ele por perto. Daqui pra frente, não será assim.

— O senhor pode descontar do meu salário, viu?

Se eu fizesse isso tomando por base o valor sentimental, ela ia trabalhar de graça por dez anos. Melhor deixar pra lá. E dá-lhe pergunta:

— A que hora chega a dotôra?

Logo, eu espero. E toca a cair coisa no chão. Faço o almoço. Macarrão à bolonhesa. Um panelão tamanho caserna. Faço meu prato, vou comer no quarto, aviso que o grude está pronto. Pausa na demolição. Escuto a panela sendo aberta. A panela sendo fechada. O tlic-tlic do garfo no prato. O prato sendo lavado. Já? Não é possível. Ou a mulher não come, ou come feito um diabo da Tasmânia. Falta meia panela de macarrão: opção 2, o diabo da Tasmânia. O que, em parte, explica a demolição.

— Você come meio depressa, não?
— É, como. É o meu defeito, sabe?
— Pois é… — sorrio — todos temos que ter um.

Hoje de manhã, quase me arrebento ao entrar no banheiro: o chão estava encerado, liso como gelo. Meu aparelho de barba sumiu e, estranhamente, só pôde ser encontrado no fundo do armário, junto com o estoque de sabonetes. Minha mulher escovou os dentes com a minha escova: o diabo da Tasmânia trocou as duas de lugar, e a “dotôra” não reparou. Infelizmente, eu raparo nessas coisas. É o meu defeito, sabe?

Anúncios