Sinceramente, acho que estas datas comemorativas de minorias e/ou coisas-que-correm-perigo (mulheres, micos-leão, água limpa) servem para pouco, porque os assuntos abordados acabam sendo tratados meio como “deixa eu falar disso pra me sentir bem e só tocar no assunto de novo daqui a um ano”. Além disso, penso que o grande problema desse tipo de ação seja a banalização do assunto, muitas vezes relevante e de discussão necessária. Falar demais na coisa — seja qual for — acaba por enfastiar o alvo da mensagem ou, pior, embirrá-lo. Vide os intervalos comerciais de certos canais a cabo: creme dental, refrescante bucal, fio dental, escovas com cerdas especiais e, depois de dois ou três blocos de anúncios desse tipo, a gente começa a ter vontade de nunca mais escovar os dentes. Mas como o convite para esta blogagem coletiva em comemoração ao Dia da Terra veio de um sujeito sério, a quem prezo muito, e também porque ficar calado não tem, certamente, nenhuma utilidade, resolvi aceitar escrever sobre o assunto.

Começo percebendo que, há alguns anos, um Dia da Terra seria visto, no mínimo, com sarcasmo. Por que precisaríamos de algo assim? Este é o planeta em que vivemos, que pode — e sempre poderá — ser tratado como casa alugada. Quebram-se os lustres, sujam-se as paredes, o carpete, queima-se a fiação, entopem-se os canos… e vamos embora. Pois bastou perceber-se — e foi preciso um surto de inédita “inteligência” — que não há planetas para alugar nas imediações para que algum movimento começasse no sentido contrário, o de limpar e reformar a casa alugada.

Escrevi “inteligência” entre aspas não por ironia, mas por não acreditar que seja mesmo isso. Acho que é só medo. No máximo, uma inteligente demonstração de medo. E mais: sabe-se que, em qualquer situação, só há duas coisas que movem o ser humano: prazer e lucro. E essa tal de Ecologia só começou a pegar quando se percebeu que dava lucro. Prossigamos.

Ainda sobre comunicação de massa — e seus alvos, mensagens e fastios —, não há o que me incomode mais que o tom imperativo das mensagens publicitárias e afins. Beba! Coma! Use! Conheça! Compre! Ora, vão dar ordens pro raicosparta! Já não chegam meus clientes e meus credores, ainda tenho que aturar gente desconhecida a me dar ordens? Desde o “Beba Coca-Cola” que vimos sofrendo com a imposição desse imperativo. Um século depois, nossos ouvidos já não atendem a ordens — ou até atendem, mas com mais dificuldade. Mas, puxa, agora seria o momento de atendê-las: Economize!; Preserve!; Cuide!.

Não vou cometer o mesmo erro. Ao invés de dizer o que os outros devem fazer — dando-lhes ordens —, vou dizer o que faço, o que tenho feito para cuidar desta casa. E, se não posso garantir lucro a ninguém, garanto que isso tem me dado algum prazer.

Lixo
Jogo fora muito pouca coisa. Encaminho para reciclagem o plástico, papelão, vidro, metal, cartelas vazias de remédios, embalagens, pilhas e toda a sorte de materiais reaproveitáveis que deixaria para o lixeiro. Encontrei um projeto que atende às minhas exigências: é tocado por uma empresa séria, e destina o dinheiro arrecadado para ações sociais. Dá pouco trabalho: só precisei arranjar uma sacola enorme e um prego para pendurá-la. Vou jogando lá todo esse “lixo” e, quando a sacola está cheia, levo-a ao posto de recolhimento próximo da minha casa.
Papel de escritório, quando tem informações confidenciais — comunicações bancárias, por exemplo — é passado pela fragmentadora e encaminhado ao mesmo lugar. Folhetos de propaganda que chegam ao prédio são tratados como spam e têm o mesmo destino. Pico até os maços de cigarro vazios. (Sim, eu fumo. Vai dizer que eu poluo mais que você? Duvido!) O único papel que não vai para reciclagem é o higiênico.
Quando vou ao supermercado, levo minha própria sacola ou o carrinho de feira, o que me faz não precisar de sacolas plásticas.
Quanto ao lixo orgânico, vai quase todo para compostagem, e termina adubando a pequena horta que estou fazendo no apartamento. Resultado: jogo fora apenas uns 20 litros de lixo por semana. A média para duas pessoas, no mesmo período, é de 70 litros.

Energia
Eu e minha mulher precisaríamos, em prol de maior mobilidade, ter dois carros. Temos um só, que fica predominantemente com ela, porque não há transporte público viável entre nossa casa e os hospitais em que ela trabalha, todos distantes. No entanto e por sorte, esses locais estão sempre no contrafluxo do tráfego, e raramente ela se enfia em congestionamentos. Quanto a mim, trabalho em casa por diversos motivos, e tudo o que preciso fazer fora, faço-o a pé ou, quando não tenho outro jeito, de táxi. Resultado: gastamos 50 litros de gasolina por semana e não sabemos o que é trânsito congestionado.
Quanto à energia elétrica, mantenho a geladeira bem fechada e no mínimo, abuso do desligamento automático de eletrônicos, o chuveiro está sempre na temperatura mínima aceitável, e ando pela casa apagando luzes feito um velho aposentado. Resultado: meu consumo é tão baixo que, quando houve o racionamento, e todos foram obrigados a cortar 20% do consumo, eu NÃO TINHA onde economizar, e minha energia só não foi cortada porque a companhia só tinha condições de punir os maiores esbanjadores. Caso contrário, eu teria ficado três meses sem luz.

Água
Banho de 5 minutos (sem correr, questão de costume), água fechada durante a barba e a lavagem da louça, descargas cuidadosas numa privada que não recebe lixo flutuante, a máquina de lavar roupa só é ligada quando está cheia, o carro só é lavado uma vez por ano (e olhe lá!). Resultado: minha colaboração ao consumo do prédio não deve chegar a 10 metros cúbicos.

Até faço outras coisas, muitas e pequenas, que nem vale a pena mencionar aqui. No fim das contas, tudo é resultado da maneira que encontrei de obter lucro (economizando) e de sentir prazer (pensando-me menos responsável pela poluição). Se mais pessoas fizessem isso, se eu mesmo pudesse adotar posturas mais drásticas (colher água da chuva, abolir o carro, cortar ainda mais o consumo de energia elétrica substituindo a fonte por energia solar) e, principalmente, se tudo isso já estivesse sendo feito por todos há mais tempo, capaz que não precisássemos de um Dia da Terra.

Eu faço mas não estou lhe dando ordens ou propondo que também faça. Mas penso que, se nada disso der certo, se formos todos pro buraco e acabarmos mesmo com as condições que nos permitem viver no planeta, na hora da morte — coletiva ou não — lembremo-nos que a Terra poderá enfim prosseguir sossegada no seu caminho. A doença somos NÓS, e a Natureza, sempre sábia e voluntariosa, terá conseguido nos extirpar.

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