Mendigo, andava sempre aos berros pela rua — vem aqui, filho da puta, sai de cima do jacaré! —, apontando o dedo para ninguém, encarando olhos invisíveis com um ódio líquido, quase palpável. Algumas crianças tinham medo dele, outras jogavam-lhe coisas, os adultos olhavam para cima e davam de ombros. Não passava três dias sem que tomasse uma dura do guarda e, vez por outra, quando era encontrado mais bêbado que o permitido, ia ver o delegado. Chegou a ser ameaçado de expulsão da cidade.

Um dia, virando o lixo, encontrou a carcaça de um celular, escangalhado, sem bateria nem nada. Mudou de vida: passou a berrar ao telefone — pirata é o caralho, cadê minha bicicleta?

Hoje ninguém mais lhe presta atenção.

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