Atrás de mim, na fila, o homem resmunga baixinho:

— Caralho, puta merda…

Disfarçando enquanto coço um olho, viro-me para o sujeito, a ver do que se trata. Ele mira irritado seu celular enquanto aperta-lhe as teclas com força, como se isso fosse empurrar sua ligação mais para dentro dos circuitos e, talvez, fazê-la completar-se. Não sabe ele que, por algum motivo, os telefones não funcionam direito dentro da agência do correio aqui do bairro. Ou é o concreto das paredes, ou a baixada onde fica a loja, qualquer coisa ali faz com que o sinal caia pela metade quando está bom, e a zero quando está ruim. Dois passos fora da loja, o mundo é seu pelas despenadas asas de sua operadora; dois passos dentro, e você está emparedado vivo.

— Mas que porra de um caralho… — continua o homem, cada vez menos baixinho. E eu quieto. Eu sou assim, quietão.

— Pra puta que o pariu, que celular de merda… — segue ele, tateando em busca das palavras mágicas que o libertarão da danação do silêncio eterno.

A fila anda e, dois passos à frente — e ao acaso — a ligação se completa:

— Mãe? — grita animado — A bença, mãe! — grita mais ainda, deixando a nós (eu e a fila) perplexos com tamanho respeito e religiosidade.

— Tô aqui perto, mãe! Tem almoço pra mim?

Pronto, está tudo explicado: era fome, coitadinho. Boca suja do caralho.

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