Tenho — ou tinha, como há de se ver adiante — um vizinho muito… como dizer?… peculiar. Quando mudei-me para cá, há nove anos, era capaz que ele ainda não andasse pelos trinta. Sempre foi — ou é, como saber? — cordial e sorridente, e nunca combinou com o monstro que levava pela coleira, um rotweiler medonho, enorme e cabeludo, que, disse-me um dia, trouxe de uma viagem à China. A fera chinesa, em todas as vezes que a encontrei pelo pátio do prédio ou pela rua, não perdia a oportunidade de me assustar, fosse com um rompante, um pulo na minha direção, um latido vindo das profundezas do inferno. Não sou de me assustar com cães, gosto deles, e eles, em contrapartida, tratam-me com toda a civilidade de que dispõem, conforme o cão e suas qualidades. Mas aquilo não era propriamente um cachorro. Era um rotweiller chinês com genes de dragão atavicamente adquiridos, e eu, sempre que o via passar com a boca cheia de baba e os olhos de vidro pregados em mim antevia o momento em que teria que matá-lo a tiros em represália a um ataque que ele certamente desferiria contra um de meus filhos.

Apesar do cão, este vizinho era — ou é —, entre todos, o mais agradável, o mais delicado. E o mais esquisito. Quando mudei para cá, ele dava aulas de luta greco-romana a uma tropa de adolescentes. No pátio do prédio. Depois, começou a adestrar cães alheios, e que ninguém me pedisse referências porque eu, certamente, daria as piores: aquele monstro na outra ponta da corda atestava sua incompetência no mister. Pouco tempo depois, parte das noites começou a ser preenchida com um estranho ruído, uma pancadaria surda, bum… pausa… bum… pausa… bum…, todas as noites, todas as noites. Não sou o tipo de sujeito que sai por aí a perguntar, mas sou capaz de passar meses conjecturando a respeito do que me incomoda, investigando e anotando fatos e atitudes que, talvez, um dia, encaixem-se e resolvam um determinado mistério. Quando, lá pela terceira vez, o vi pela janela a carregar paralelepípedos da rua para dentro de casa, logrei adivinhar o que acontecia e que, realmente, estava acontecendo: o maluco tinha dado pra quebrar pedra.

Certa noite, quando o encontrei chegando com quatro dos pedregulhos debaixo dos braços, e lhe perguntei se havia resolvido trocar o piso do apartamento, ele sorriu e respondeu:

— Não, não. É pra quebrar.

Diante de minha fingida perplexidade — eu tive que fingir, por já haver descoberto a coisa toda com minhas deduções —, ele abriu a porta do apartamento e mostrou-me a ferramenta que usava na função: uma barra de ferro maciço, achatada de um lado e com uma bola de pano sujo na outra ponta, algo como uma chave de fenda com metro e meio de comprimento. Segundo relatou, encostava o paralelepípedo no rodapé da sala, segurava a chave de fenda pela bola de pano, e socava-a pedra adentro feito lança, às pancadas, até que o tarugo se partisse em dois pedaços, o que, ao invés de encerrar o trabalho, duplicava-o, pois ele passava a ter dois meios paralalepípedos a quebrar. E assim por diante, seguia em busca do átomo de paralelepípedo, ou até que nós outros dormíssemos. O que acontecesse primeiro. Para comprovar que aquilo dava trabalho — como fosse necessário — mostrou-me as mãos: eram dois calos com cinco dedos cada, todos recobertos de calos menores, tudo amalgamado à ferrugem da lança. Já vi tumores mais bonitos.

Por mais estranho que pareça este vizinho, garanto que, entre todos, é — era? — o mais cordial e sensível. Uma vez, apareceu com uma gata no bolso do casaco, filhote escangalhado pelo frio e pela fome, que ele tinha encontrado na noite do parque, à deriva e à espera da morte. Como se não bastassem os olhos a pular para fora da cabeça, o pêlo carcomido de sarna e os incontroláveis tremores de desnutrição e medo, a gata ainda exibia — ou melhor, não exibia — uma das pernas traseiras. Tirou o bicho do bolso, mostrou-mo e, como se respondesse ao meu olhar incrédulo, disse:

— Imagine se eu deixo essa coitadinha no parque! Se sobrevivesse, ela se tornaria uma gata muito má. — e foi para dentro do apartamento, atrás de um pires de leite.

Verdade seja dita, a gata hoje é linda, mansa, e só não abre as pernas a todos os gatos da vizinhança porque não as tem.

Há tempos, passei a encontrá-lo apenas à noite, fosse entrando, saindo do prédio ou andando pelo bairro. Nessas ocasiões, carregava uma espécie de mochila, um trambolho que lhe ia do alto da cabeça — atado a ela — até a altura dos joelhos: um caixote pouco mais estreito que uma geladeira e que, a julgar pela sua expressão ao carregá-lo, tão pesado quanto uma. E mesmo durante tão desconfortável atividade, se me via, cumprimentava-me. Rápida e contidamente, é verdade, mas cumprimentava-me. Parecia que treinava para alguma coisa, sei lá.

As estranhices eram tantas, que eu já nem ligava mais. Ficava só esperando a próxima. Por essas e por muitas outras, dei-lhe o secreto — e, acredite, carinhoso — apelido de Forrest Gump. Mas Forrest… sumiu. Não o vejo há meses e, cada vez que me lembrava disso, preocupava-me. Por onde andará? Andaria? Anda?

Pois então: anda! Fiquei sabendo por outro vizinho que ele arranjou um “patrocínio” (palavra do vizinho) e saiu pelo mundo. Andando. Espero eu que sem a geladeira às costas.

Go, Forrest, go!

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