Em breve (dizer “Deus sabe quando” seria mais coerente com minha agenda), pretendo falar d’O Cabotino, de Paulo Polzonoff Jr., livro que, por tratar — à sua maneira — de produção e crítica literária, tem muito a ver com Os Viralata. Por isso (e por muito mais), quero e preciso falar a respeito. Mas antes — à guisa de pura enrolação —, vou começar expondo o que penso sobre um dos aspectos da crítica, literária ou não, e da nem sempre aparente aleatoriedade do que seja o gostar — ou não — de uma obra. O próprio Polzonoff já escreveu sobre isso, e quem já leu o mesmo livro várias vezes saberá entender o que direi.
Como exemplo, trago aqui minhas repetidas leituras de Bichos, volume de contos de Miguel Torga que, além de ser representativo na sua produção, seja talvez sua obra mais mal batizada: quem chamou sua autobiografia de “A criação do Mundo” não pode se permitir deslizes. Vá lá, talvez não seja possível ser sempre genial.
Ora bem, da primeira vez que li Bichos, enchi-me de emoção. Tinha lá meus quinze anos, andava sempre bêbado, nervos à flor do couro, e tudo o que tivesse sido concebido para emocionar — mesmo que minimamente — era capaz de me fazer passar por convulsões de alegria, ódio, ternura, tristeza, ou tudo ao mesmo tempo agora. Torga chegou e instalou-se como um de meus grandes e preferidos escritores. Definitivamente, Torga é bom. Vinte anos depois, li o mesmo livro pela segunda vez. Menos hormônios, nervos já um tanto ressequidos, revoltei-me: Torga era chato, piegas, ranhoso, chorão. Um saco. Como pude ter gostado de semelhante porcaria? Definitivamente, Torga é péssimo. Dez anos mais tarde, em terceira leitura — e, diga-se, ainda intrigado pelas minhas opiniões divergentes a respeito do mesmo objeto de análise —, investi novamente sobre a obra: e ouvi música, senti a poesia, a emoção, percebi o domínio da técnica combinado à necessária transgressão da norma. Literatura da melhor qualidade. Definitivamente, Torga é grande. E é isso que penso sobre ele. Agora. Até ontem. Porque enquanto aguardava as novidades que os próximos dez anos pudessem me revelar, mexendo nas velhas fitas de vídeo, encontrei isto:
São cinco minutos tirados de um documentário realizado pela extinta Rede Manchete — Viagens às terras de Portugal — nos idos de 1987. Da primeira vez que o vi, o que me ficou na lembrança foi um Torga bruto (brutal?), um sujeito áspero, fruto torto e espinhoso de Trás-os-Montes, região bela e pouco menos (talvez mais) inóspita que o nordeste brasileiro, povoado de personagens instigantes — assim como qualquer canto, basta que se saiba olhar e transcrevê-los. E eu gostava dessa lembrança.
No entanto, revendo-o ontem, confesso, fiquei um tanto decepcionado (de novo?). Pois é. Visto com os olhos de hoje, presbíopes, Torga me soa meio bobo. Um homem com a carreira dele — 37 livros, pela lista da Wikipedia, entre ficção, poesia e teatro — não precisava se desfiar em explicações sobre a crueldade que reserva para si mesmo (ou, ao menos, não sorrir quando dissesse isso, para não perder a credibilidade), nem do verismo (adorei a palavra, bem melhor que a “verossimilhança” que usamos aqui) que norteia sua escrita, nem ter esse tique maldito — “realmente, não é verdade?” — e repeti-lo a cada três palavras. Ou então não é nada disso, e tudo é apenas minha proverbial implicância, o absurdo grau de exigência que dirijo aos que admiro. Também sou cruel com os que amo. Mas não sorrio enquanto sou.
O que concluo? Bem: que a qualidade da literatura de Torga — ou de qualquer artista — depende do meu humor e da minha capacidade e interesse de entendê-lo e gostar dele, mas, principalmente, que não se deve misturar autor e obra, sob o risco de gostar a mais ou a menos do que se deveria (não) gostar, e acabar gostando incondicionalmente dos poemas escritos pela namorada, dos quadros pintados pelos filhos, da casa horrorosa em que se foi criado, só porque foi projetada e construída pelo pai.
E O Cabotino, de Paulo Polzonoff Jr.? Ora, o próximo post é serventia da casa.
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