Vivo praticamente no centro da cidade mais poluída da América do Sul. No guia de ruas, o círculo que indica os três quilômetros de distância do centro passa por cima da minha casa. Mas estar próximo a dois alqueires de mato — o parque da Aclimação — me faz vizinho de uma tal passarinhada que nunca vi ou ouvi, mesmo tendo morado em bairros mais distantes.

De manhã, eles enlouquecem. O sol nem ameaçou nascer, e as melodias já se misturam. O primeiro a tirar o pigarro é o sabiá. Madrugador, começa sua cantoria de ritmo vibrante em escala menor, o que dá um tom meio alegre meio triste à música, um trio-elétrico tocando uma marcha fúnebre. Ou então é meu remédio que está acabando, sei lá. Depois, o bem-te-vi, bicho enxerido, que tudo bem-te-vê, até o que não se pode bem-te-ver porque ainda está escuro. Ou enxerga muito bem, ou blefa igual. Tisius solitários, um aqui outro ali (caso contrário, não seriam solitários), invisíveis mas aos milhares, fazem tchiu, tchiu, de milhares de galhos à minha volta. As garças brancas não cantam: um bicho com tal pescoço não pode se arriscar a um torcicolo. O casal de gaviões também não é dado à música: seus ancestrais descobriram que quem canta pouco almoça melhor. E eles, já há muitas gerações, descobriram o valor de um bom almoço.

Na cozinha, pondo a água para ferver enquanto preparamos o café, lavamos duas canecas em silêncio, ouvindo a passarinhada.

— E este? — pergunta minha mulher.
— Bem-te-vi.

Passa um instante. Começa outra melodia.

— E este?
— Sabiá.
— Que lindo.
— É mesmo.

Começa um trinado distante, alucinado.

— E este, e este? — pergunta, animada.
— Um alarme de carro.
— Não brinca.
— Juro.

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