— O que é isso, Emília? — pergunto olhando a forma de vidro cheia de um líquido cor de chá, feijões pretos submersos cobrindo-lhe o fundo, muitos outros ainda a boiar antes de ir a pique. Em outras palavras, duas camadas de feijão separadas por uma grossa camada de água suja.

— Feijoada! — esclarece ela, sorrindo. E continua: — Encontrei em casa um saco de feijão preto antiiiiigo — estica o i para dar a idéia dos séculos — já meio carunchado, e trouxe para fazer uma feijoada para você. Eu era moleque, andava lá pelos dezoito, e já sabia o que era uma feijoada. Meus pais tinham ido a Portugal, e minha mãe, sempre cuidadosa com seu “filhinho”, havia incumbido Emília, uma das trezentas primas de meu pai, a sair de sua casa e vir cuidar de mim.

“Cuidar de mim”, nesse caso específico, significava “cozinhar”, justo para mim, que nasci dentro de uma cozinha. O problema é que, no afã de bem prover, minha mãe se esquecia de um pequeno detalhe: se Emília sempre foi um ótimo papo, uma simpatia sem igual, dona de uma das gargalhadas mais gostosas que já tive o prazer de ouvir, ela conseguia compensar isso tudo — com folga! — sendo, sem sombra de dúvida, a pior cozinheira do mundo. Certa vez, encontrei na geladeira uma travessa aparentemente cheia de folhas varridas da calçada, para descobrir depois que eram brócolis ao alho e óleo. Isso, sem falar dos sabores inimagináveis que ela conseguia extrair do fogão, tornado numa máquina mortífera quanto pilotado por ela. Arroz fresco e já azedo ao terminar do cozimento, lingüiças defumadas cheirando a carniça, o inferno era o limite para a culinária de Emília. E mesmo eu, que nasci dentro de uma cozinha, não consigo fazer idéia de como se consegue obter semelhantes quitutes a partir de ingredientes corriqueiros.

Há quase dois anos, Emília rolou escada abaixo. Não quebrou nada mas, desde então, permaneceu deitada e imóvel, até ontem à noite, quando veio a falecer depois de complicações maiores numa situação já deveras complicada. Deixa muita saudade. Da simpatia, do papo, das risadas.

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