Já me perguntaram algumas vezes por que eu escrevi este livro. Já respondi, e é uma pena que a pergunta tenha sido essa, porque a resposta é simples e óbvia: porque gostei da idéia de escrever um livro sem ter que escrevê-lo. Escrevi posts, o que é muito mais fácil. Depois de recolhidos em um só arquivo de Word, esses posts encheram 190 páginas (corpo 10, espaço 1), daí joguei fora três quartos disso, adicionei uma graninha, e publiquei a mistura. Mas infelizmente ninguém me perguntou por que eu publiquei esse livro. Mas eu respondo mesmo assim.
Apesar da bobagem do conteúdo, publicar esse livro foi uma experiência das mais sérias. Sempre quis testar “em mim” o caminho alternativo para publicação, até porque não fazia sentido andar incentivando autores independentes n’Os Viralata sem ter provado do veneno que lhes oferecia. Hoje, exatos seis meses depois de ter mandado a primeira edição para a gráfica, posso garantir: funciona. E, respeitados certos princípios e proporções, funciona melhor do que uma edição convencional.
Minha experiência com editoras não é muita, mas existe. Publiquei um livro em 2003, recebi meus direitos em exemplares e, dois anos depois, fiquei sabendo que a editora reclamava que o livro não vendia. Eu não podia saber disso, porque nunca recebi uma prestação de contas sequer. No entanto, sei que a edição de dois mil exemplares está esgotada, e que a obra só pode ser adquirida em algumas livrarias virtuais — ou na minha mão, que é mais barato —, ou ainda pelo site do SESC, que ficou com um monte para vender e para pôr nas próprias bibliotecas. Cá pra nós, foi uma carreira estupenda para um livro que, para além de ter sido escrito por autores estreantes e desconhecidos, jamais teve uma só linha de divulgação na imprensa. Mas nem só de dinheiro vive um autor: um estudante de cinema da Columbia University pediu autorização pra filmar um dos meus contos, dois ou três blogueiros desconhecidos disseram alguma coisa, recebi meia dúzia de mensagens falando bem ou mal dos textos. Ontem mesmo, encontrei um trecho de um dos contos num blog de putaria explícita, com créditos dados a um pesudônimo que uso. Adorei.
Desde 2001, minha mulher tem um livro de ficção publicado por uma grande editora. Quando um par de exemplares é vendido, a gente abre um guaraná pra comemorar. Mesmo assim, a editora faz questão de nos enviar, todo puto mês, a porra da prestação de contas. O que eles querem, humilhar-nos? Estranho é que tal relatório vem por Sedex e, com isso, eles torram o lucro que ela teve nos dois exemplares. Não entendo.
Sei de amigos que andam batalhando editora, cumprindo a via crucis que elas impõem. Sei também que tais imposições não são à toa, porque imagino a quantidade de lixo que as editoras recebem diariamente para analisar. Mas essa via crucis tem umas estações cruéis demais. É sabido que as editoras nem abrem livros que tenham sido pré-publicados pelo autor, mesmo em edições caseiras, que ele só fez pra dar pra parentada e para poder sentir o prazer de ver seu texto em forma de livro. Reza a etiqueta que o original deve ser apresentado impresso por computador, em papel branco, encadernado com molinha. Algumas chegam ao ridículo de exigir fonte, corpo e espaço determinados. Por quê? Para que os analistas possam reconhecer o original à distância? Mais uma regra: o autor não pode descobrir o nome do analista e endereçar o original a ele. Por quê? Quem sabe, o ramo editorial seja o único em que é feio fazer lobby. E mais: originais com capas ilustradas são folheados a contragosto, talvez porque ler um original nessas condições possa ser interpretado como aceite de um palpite do autor em assuntos em que ele não é — nem será — autorizado a opinar, como o design da capa. Aliás, o autor não é autorizado sequer a opinar sobre seu próprio trabalho, uma vez que é agradável às editoras encontrar originais que apresentem, logo à primeira página, uma sugestão de título. Quer dizer que o autor não pode nem batizar o livro? Claro que não! Quem ele pensa que é?
Tá bom, eu entendo que as regras sejam feitas para aquele “autor” que, do alto de seu analfabetismo funcional, escreve sua autobiografia — a história de um vendedor de armações de óculos (tem profissão mais chata?) —, a intitula “A vida vista atravéz do meu óculos”, pede à filha de seis anos que faça a capa, manda encadernar tudo feito livro, e remete o original às maiores editoras do país com um adesivo de “Frágil” grudado no envelope. Mas para se defender disso, as editoras não precisavam nivelar seus procedimentos tão por baixo nem ser tão melindrosas. Elas são pagas para trabalhar, e os ofícios, assim como os frangos, têm ossos.
Para complicar ainda mais o panorama, quando, ocasionalmente, um original é aceito pela editora, a alvissareira notícia pode vir acompanhada da conta: publicar seu livro vai custar tanto, você topa? Ou, na menos ruim das hipóteses, o autor não paga nada, mas recebe apenas 5% (ué, não eram 10?) de um faturamento que ele jamais poderá verificar porque todas as editoras se recusam a numerar os livros que produzem. Nesse caso, o autor tem duas opções: acredita ou acredita.
O esquema todo funciona muito bem na estratosfera dos autores que são grandes vendedores de livros: a grana é muita, todo mundo enruste um pouco, e o que sobra ainda paga bem o trabalho de escrever. Mas nas camadas inferiores — isto é, para a maioria, e nem falo aqui dos borra-botas como eu —, esse padrão é trágico, sufocante.
Biajoni entregou um livro autografado a um editor, em mãos, como presente — e também para que fosse analisado. Não precisava o cara ter publicado, bastava avaliar. O homem devolveu o livro pelo correio! O Bia é puta velha, tem a cabeça no lugar, ficou quieto. Se é comigo, eu limpo a bunda em todas as páginas e devolvo pelo correio.
Pra não ter que passar por isso (até porque esse meu livro não vale dois passos de via crucis), resolvi lançá-lo por conta própria, e agora abro os números da minha experiência. Fiz três tiragens, a primeira com 20, a segunda com 50 e a terceira com 100 exemplares. Dei alguns como presente (eu também tenho parentes) e, até o momento, vendi 44 exemplares, o que me rendeu R$ 470, valor que é menos da metade do que gastei (R$ 970, em gráfica e correio), mas que, devagar, irá chegando lá. Além disso, como mencionei antes, nem só de dinheiro vive um autor: me diverti um bocado fazendo o comercial do livro (que já teve mais de 6 mil exibições pelo YouTube); meu livro apareceu em duas dúzias de blogs e sites; conheci um monte de gente interessante; recebi dezenas de comentários, críticas, elogios; vi gente no Orkut recomendando o livro, e eu nunca vi essa gente mais gorda; leitores entraram na brincadeira e fizeram fotos para me mandar; meu livro está em Portugal, na França, na Itália, nos Estados Unidos, no Japão e em mais 11 estados do Brasil; estou fazendo mais dois livros, um pro Alex Castro, outro pro Bia; e para fechar a lista bem fechada, um escritor português vai mostrar o livro ao seu editor e lhe perguntar se a coisa pode dar samba (fado?) lá na terrinha.
Em poucas palavras, a resposta que tive com essa experiência foi infinitamente superior (em qualidade e quantidade) à que tive com o livro editado pelas vias “normais”, mesmo que este seja, na minha opinião, muito mais consistente que o livreco de agora. Daí, eu pergunto ao escritor/blogueiro que tem um original na gaveta: você prefere ser lido ou ser tratado como bosta?

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