Normalmente, locadora de bairro nunca tem o filme que você quer, principalmente quando você quer os mesmos filmes que eu, isto é, aqueles que a gente só encontra na 2001, e olhe lá! Mas a locadora aqui do bairro foi comprada por alguém um pouco menos tacanha, e começaram a aparecer pelas prateleiras uns Fellinis, uns Monicellis e, pasme, até mesmo uns Tarkovskis.
Falando hoje com o Bia, outro que gosta do russo (agora, contando a mãe do Tarkovski, somos três), mencionei O Rolo Compressor e o Violinista — primeiro filme dele, um média-metragem não tão esquisito quanto o resto de sua obra, mas que já mostra todas as sementinhas das urtigas que viriam a florescer anos depois —, e o Bia disse que nunca tinha assistido a esse.
Daí, fui na locadora, a ver se encontrava o dito entre os outros títulos do sujeito que lá estavam. Pra poupar conversa, entrei, boa-tarde e, ignorando que a Rússia não fica na Europa, fui direto à estante de cinema europeu. Encontrei o homem, como sempre, no rés-do-chão das prateleiras, mas só havia dele ali o mais “popular”, Solaris, Nostalghia, A Infância de Ivan, essas coisas, você sabe. Fui então obrigado a ir ao balcão, perguntar se não tinham mesmo o filme ou — caso algum santo estivesse para cair do altar — se estava alugado. O moço não sabia, e voltou-se para o computador:
— Como é mesmo o nome do filme?
— O Rolo compressor e o violinista. — respondo.
E ele começa a digitar: R-O-L-O -C-O-M-P-R-E-N-S-O-R…
— Sem N. — corrijo, mas ele não ouve direito, coitado.
R-O-L-O -C-O-P-R-E-N-S-O-R…
— Olha, escreve só “rolo”. — arrisco.
S-Ó -R-O-L-O…
— Peraí, experimenta Tarkov… — mas percebo a tempo a burrada que estou para fazer. Empacamos, um olhando a cara desnorteada do outro, e ele vem com a solução:
— O senhor não quer telefonar para a loja matriz? Lá, eles têm, com certeza.
Eu aceito a sugestão. Antes isso, que chorar de desespero soletrando Tarkovski. E o Bia pode esperar um pouquinho. Já ficou tanto tempo sem assistir, que diferença fazem mais um ou dois dias?

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