Uma coisa que pouca gente sabe a meu respeito é que preciso ter sempre uma ocupação paralela ao meu trabalho, algo com que me distrair entre uma tarefa e outra, ou mesmo durante as tarefas. Não conto isso pra ninguém porque me parece um defeito, mas manter a cabeça num assunto só me dá a sensação de fim de linha, não sei por quê. Preciso ter uma — às vezes duas, três — coisinhas para pensar ao mesmo tempo. É como se eu dissesse a mim mesmo “tá bom, eu como esse jiló, mas quero também uns bolinhos de bacalhau”. Para piorar, se eu tiver dois problemas simultâneos para resolver — isto é, dois jilós —, eu travo. E pra destravar, nem te conto.
Mas essas “coisinhas” para pensar enquanto trabalho, muitas vezes, estão longe de ser apenas coisinhas. Podem dar um trabalhão e, quase sempre, quanto maior o trabalhão, melhor: pintar a sala; arrumar meus 800 discos; selecionar todas as sacolas de plástico do supermercado em pequenas (para o lixo da pia), médias (para o lixo normal) e grandes (para lixo reciclável); consertar o miado da porta da geladeira; reeditar 2001 Uma odisséia no espaço, para ficar com menos de meia hora. Como se pode perceber, tudo coisa de maluco.
Então, em mais uma completa e inútil maluquice, reeditei o 2001 do Kubrick. Apesar de gostar muito do filme, sempre disse que ele caberia em 15 minutos de projeção, mais à guisa de piada do que por achar que fosse mesmo verdade. Queimei a língua, porque custou a caber em meia hora. Até daria menos, mas só se eu desrespeitasse (ainda mais) a obra: a não ser pelos créditos finais, fiz questão de não eliminar nada. O único recurso espúrio que usei foi, em algumas partes, acelerar o movimento, principalmente das naves espaciais. Mas elas estão todas lá. Rápidas como camundongos, mas estão todas lá. Quis fazer uma reedição que permitisse, a quem nunca assistiu ao filme, sentir que o tenha assistido. Mas saiu algo como um resumo de livro: os personagens estão lá, a trama também, mas… cadê a literatura? Assista e me diga.
Dividi em três partes, e subi pro YouTube. Destaque para o trecho em que HAL canta o refrão de Daisy Bell cada vez mais depressa, numa dantes inimaginável imitação de Pato Donald.
Enjoy. Ou não.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

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