O vagão ia parando, e eu andava a seu lado na direção contrária, calculava os passos para estar em frente a uma das portas quando todas se abrissem, e reparei nela através das janelas: sentada, uma já passageira vinda da estação anterior, e um olhar desconfiado em mim, quase irritada. Não, nada disso. Era séria. Não se pode ser sério, que sempre aparece um chato a nos chamar desconfiado, irritado. Ela era apenas séria, e digo ‘apenas’ como se ser sério fosse pouca coisa. Entrei e sentei-me num lugar qualquer, tirei a carteira do bolso de trás, juntei-a ao celular, ajeitei-me no assento, o vagão apitou, fechou as portas e seguiu. Próxima estação, Paraíso.

Lembrei-me então de olhar de novo para ela. Não tinha nada de bonita, e nem por isso eu poderia dizer que era feia. Dada a posição de seu assento, só lhe via a metade direita, ou nem isso. Via um cabelo preto e liso, cuidadosamente cortado para parecer descuidadamente despenado. Um braço forte, quase gordo, talvez gordo e forte, como o braço de uma menina gorda que tivesse ido fazer ginástica para diminuí-lo, o tiro tivesse saído pela culatra, tudo tivesse diminuído um pouco, e ela agora tinha o braço mais forte e gordo do que antes. Uma camiseta preta sem mangas lhe esganava o ombro, acentuando ainda mais o calibre do braço. Uma calça cor de laranja cheia de bolsos, dessas que os alpinistas vestem quando querem se perder nas montanhas, e uns calçados quaisquer que nem reparei como eram, mas, descalça, ela não estava. No colo, uma mochila preta, cheia de penduricalhos agarrados, coisas. Próxima estação, Brigadeiro.

A certa altura, enquanto eu reparava nela, chicoteou a cabeça e me encarou, irritada. Lá vou eu de novo, irritada, não, apenas séria. Não baixei os olhos porque não tinha outras intenções, não havia do que me envergonhar, e ela voltou a cabeça para a frente um segundo depois de a ter voltado para mim. Espiei o esquema das estações sobre a porta do vagão, a ver quantas faltavam até meu destino, e comecei a ouvir, por entre a zoeira do vagão em disparada, um plim-plim metálico, um batuque de ferro com ferro, e procurei de onde vinha o barulho para encontrar a tal menina em seu lugar, sentada de lado no seu banco, de forma a deixar claro que levantaria em breve, batucando, feliz — séria, mas feliz — no cano mais próximo com alguma coisa metálica que tinha na mão, uma moeda, um parafuso, não se via porque estava preso à palma da mão, e isso não tem a menor importância.

O que importa, e foi isso que me espantou — próxima estação, Trianon-Masp — é que todos os passageiros que estavam ao alcance do seu batuque e o ouviam, olhavam para ela com olhar de reprovação. Era como se fosse proibido externar felicidade ao se perceber que nossa estação vem chegando. Era como se fosse impossível deixar de dirigir uma expressão de desagravo a qualquer mutante de calças cor de laranja e braços gordos que tenha o desplante de batucar nos canos sagrados. Ou era — e lá isso era mesmo! — como se as pessoas interessantes tivessem que ser anuladas rapidamente, antes que conseguissem perpetrar suas maneiras de ser e, quiçá, suas idéias, se por acaso as tivessem.

O trem parou, ela desceu, os olhares se dissiparam, e eu fiquei no meio daquele monte de gente mesma. Próxima estação, Consolação.

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