Uma das lembranças fortes da minha infância é a imagem de meu pai dando corda numa filmadora 8 milímetros. Não podia ser de outra forma, porque minhas primeiras lembranças são de uma época em que morávamos em Portugal: viajar foi o que mais fizemos na terra, e meu pai não viajava sem a câmera.

Achei o livro!Apesar de ele ser extremamente econômico — seria mais claro se eu dissesse ‘miserável’, mas não quero parecer desrespeitoso — e de, portanto, ter deixado um acervo que não chega a três horas de projeção, a presença da câmera era constante nesse meu começo de vida, e criou em mim uma certa intimidade com o objeto e sua função. Um dos primeiros livros que li foi um tal de Como filmar, tradução de um manual inglês para amadores feito numa época em que as pessoas aprendiam as coisas nos livros.

Meu pai comprou tal livro porque nesse tempo era bom ter um manual dos bons, qualquer que fosse o assunto a estudar. Os perigos eram muitos, nesse ramo do conhecimento ou em outro qualquer. No caso do cinema amador, os filmes vinham em rolinhos de três minutos cada, mas levava mais de cinco minutos para colocá-los na máquina, e outros tantos para substituí-los; tudo tinha que ser feito num lugar absolutamente escuro, mas nem sempre havia uma baleia à mão para engolir o cineasta e cuspi-lo logo após a operação; além disso, quando em viagem, carregar a baleia de estimação estava longe de ser prático ou confortável, pois meu pai sempre gostou de carros pequenos; a câmera não filmava exatamente o que se via pelo visor, e quanto mais perto se estava do assunto filmado, mais diferente era o resultado na tela; a corda da câmera não durava os três minutos do rolo e, caso o operador se esquecesse dessa característica do equipamento, a mola da corda ia perdendo a tensão durante a filmagem das cenas, e a velocidade do mecanismo diminuia gradativamente, o que provocava efeito inverso na projeção, fazendo com que tudo acelerasse ridiculamente pela tela, cada vez mais, transformando parentes e passantes em Chaplins bem vestidos e sem maquiagem; cada filme virgem custava uma inominável fortuna — ao menos era essa a impressão que me dava a sovinice paterna — e só o que fosse realmente importante poderia ser registrado. Daí, eu ficava sem entender porque era importante que ele filmasse a fachada do Convento de Mafra, mas não tinha importância nenhuma que eu filmasse um guarda de trânsito com a câmera de cabeça para baixo. Afinal de contas, tinha visto isso no tal manual.

Depois desse processo caro e cheio de armadilhas, o rolinho era, então, retirado da câmera, guardado junto com os outros rolinhos até que chegássemos em casa — mesmo que isso demorasse semanas —, acondicionados conforme as instruções da bula do filme — que diziam “em lugar fresco e seco”, como se existisse no mundo um só lugar que tivesse simultaneamente essas duas características —, e depois encaminhados ao representante do laboratório que os revelaria, os enrolaria num carretel e os devolveria em troca de outra pequena fortuna.

Finalmente, o penoso processo, tenso e repleto de prejuízos financeiros, era coroado por um saco de papel cheio de rolinhos que continham — se tudo tivesse dado certo — três minutos de imagens mudas e em preto-e-branco cada um, que ainda precisavam ser montadas num só rolo, preferencialmente em ordem cronológica, para que a exibição fosse um pouco mais prazerosa do que um interminável tira-e-põe de filmes no projetor.

Mesmo depois disso tudo, os perigos ainda não tinham acabado: se, durante a projeção, o filme emperrasse, o calor da lâmpada derreteria o trecho em frente à lente numa fração de segundo, partindo a serpentina em dois pedaços. Caso isso acontecesse — e como acontecia! — a projeção tinha que ser interrompida, as luzes acesas, as duas pontas do filme colocadas num splicer — complexo artefato que posicionava corretamente os dois pedaços de filme durante a colagem — e, antes de se apagar novamente as luzes para seguir na projeção, era preciso arrebanhar a parentada que, a esta altura, já estava em outros cômodos da casa, quando não em outras casas.

Lá pelo começo dos anos 80, os filmes começaram a dar mostra de que acabariam definitivamente para o usuário amador. Meu pai, então, passou a se empenhar, aqui e ali, em saber quanto lhe custaria uma câmera de vídeo. Nunca comprou nenhuma porque, no seu entender, sempre custaram fortuna que não lhe traria benefício equivalente. Não foi convencido pelos argumentos de que não seria mais necessário colocar ou retirar a fita da máquina sob escuridão completa, de que nunca mais gastaria um centavo com laboratório, de que a fita não romperia durante a exibição, de que não mais seria necessário emendá-la, nem coisa nenhuma. Apesar de discordar dele, entendo-o: que charme tem o vídeo — mesmo colorido e com som estéreo — se comparado a um filme mudo em preto-e-branco?

Eu ia falar do YouTube. Mas fica pra outra vez.

Anúncios