Uma noite, ela acordou trêmula, uma vontade insana de escrever. Pegou a caneta e saiu com isto:

Lá longe o mar é céu, o céu é mar
Um navio branco como a areia
A areia branca como a brancura
Da alma da mulher pura…
Mulher pura? Isso existe?
Não, nêga!
A mais pura, a mais beata,
Por amar, por ser querida
Toda mulher já foi bandida!
Tu num concorda, nêga, duvida?
Então, me diz
Tu já beijou?
Tu já grudou teus beiços noutros beiços?
E tu gostou?
Se gostou, pecou!
E se num gostou, pecou mais
Porque beijo grudado, apertado, sufocado,
Dado aqui ou em Paris
Nêga, a gente pede bis
E no bis é que se peca.
Nêga, deixa de ser sapeca,
Num faz isso, me larga,
Agora? Agora não, depois
Mas, num faz mal
Onde dorme um, fodem dois.

Ela levantou da cama, acordou o pai, leu para ele. O pai olhou e disse:
— Vou te levar numa macumba.
Eu também não faria outra coisa se minha filha, com nove anos, viesse ler coisas dessas à minha beira, escrita de próprio e virginal punho.
Conheça Rô Druhens*. E foda-se. No bom sentido.

* leia “Drirrã”, porque é francé.

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