Completando hoje seus 79 anos — e nem por isso tendo atingido o metro e meio — a velha senhora de pele e cabelos muito brancos entra no consultório espiando tudo com olhos muito azuis. Senta-se e examina a doutora que, por sua vez, mede-a com olhos e régua, pesa-a, pergunta, preenche a ficha.
— De onde a senhora é?
— Pernambuco — responde, com forte sotaque de Pernambuco.
— Tão branquinha assim, e de olhos tão azuis? — estranha a assistente da doutora, dando mostras que desconhece a história do Brasil.
— Pernambuco foi onde estiveram os holandeses por muito tempo — esclarece a doutora, e continua, mas agora falando à velha — A senhora tem ascendência holandesa?
— Meu avô era estrangeiro. — começa a velhinha — Chegou num navio, há muito tempo, mas ele dizia que a viagem foi tão longa que nem se lembrava mais de onde tinha vindo.
— Como se chamava seu avô? — pergunta a médica.
— Manuel — responde a paciente.

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