Todos os dias, ao acordar, todos os gaúchos dizem — e se não dizem, pensam, e se não pensam, intuem, e se não intuem, apenas sabem — em uníssono, “me acordei”. Os mais letrados, aqueles que não se deixam sequer começar um pensamento com pronome oblíquo, dizem — ou pensam, ou intuem, etcétera — “acordei-me”. Acordar, para os gaúchos, é um ato reflexivo. Já no restante do Brasil, os outros brasileiros apenas “acordam”.
No entanto, não há nestes acordares, gaúcho ou não, qualquer figura de linguagem, pois todos continuam, metafórica e estupidamente, dormindo.

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