Em viagem, sempre optamos por não ligar o rádio. Conversar tem se mostrado muito mais interessante e proveitoso, ainda mais quando se tem dois pirralhos no banco traseiro, com quem podemos nos fartar de lhes impingir os parcos conhecimentos que dispomos sobre os locais que percorremos. Dessa forma, ficam todos satisfeitos: nós, por ter platéia para quem simular algum lustro; eles, por perceberem — coitados — que estão nas mãos de pessoas de infinita sabedoria sócio-econômica-histórico-geográfica.
Mas há os congestionamentos. Aliás, falando nisso, acho um absurdo que turistas tenham que pegar o congestionamento alheio. Se não trabalhamos naquela cidade, se não pagamos ali os nossos impostos, por que diabos haveríamos de ficar parados num congestionamento que não nos pertence? Mas o mundo não é justo, menos ainda na cidade do Rio de Janeiro. Foi só passar por debaixo da passarela 18 da avenida Brasil, o trânsito coalhou: sua excelência o senhor prefeito achou por bem mandar recapear a pista exclusiva dos ônibus numa quarta-feira lá pela hora do almoço, proporcionando a todos, cariocas e forasteiros em trânsito, o prazer de cozinhar-se no vapor e flambar-se em óleo diesel. Verdade seja dita, saímos da avenida apenas “ao ponto”, e não tão bem-passados quanto os bandidos conseguiriam, no dia seguinte e na mesma avenida, com dezesseis turistas que passavam de ônibus pela cidade. Saber disso depois transformou, instantaneamente, nossa terrível sensação numa lembrança quase agradável.
Mas enquanto lá cozinhávamos em fogo brando, acabamos por ligar o rádio. Turistas que somos, desconhecendo as estações mais adequadas ao nosso gosto, buscávamos apenas mostrar às crianças as diferenças de sotaque que temos neste país, mas fiquei estarrecido com o que encontrei: na primeira estação, um pastor, aos berros, exorcizava um capeta fluminense; na segunda, discutia-se, à luz do evangelho, com que freqüência devemos espancar nossas crianças; na terceira, um anúncio vendia um curso de pastor por correspondência. E a coisa seguiu assim por muitas estações. Apesar de desconfiar da qualidade de um curso de pastor (seja de cabras ou de almas) por correspondência, não me importo com o teor das emissões. Implico, isto sim, com a mesmice. Não haveria outro assunto a discutir? Outra ótica, outros pontos de vista? Tem que ser tudo “à luz” dos evangelhos? Não sou macho como este sujeito para dar minha opinião em público, mas faço questão de observar que a falta de multiplicidade de pontos de vista é o terreno que o preconceito precisa para florescer. Não posso gostar de saber que isto anda acontecendo no meu querido Rio de Janeiro.
Mas dias depois, na Bahia — mais precisamente na fila do ferry-boat que junta Salvador à ilha de Itaparica, ligo novamente o rádio e ouço, de chofre:
— Sua sogra é daquelas que anda pela casa de camisola, troca os móveis de lugar e não lhe poupa nem das suas “flatulenças”? — aqui a narração é interrompida por um estrepitoso traque — Ora, saia dessa vida e deixe de ser alugado! Alugue você um carro na Locadora Tal!
Sotaque por sotaque, sou mais o baiano…

Anúncios