Há olhos de turista e olhos de citadino. “Cego de tanto vê-la”, assim como Caetano, ao partir em férias de minha cidade vi-a com olhos de citadino, e ela me pareceu boa. Se não boa, aceitável. Mas é com olhos de turista que retorno a ela. E sob este olhar, São Paulo sucumbe, apesar da natural complacência do turista. Ontem, ao entrar pela cidade adentro, senti o que deve sentir o dedo de um proctologista.
A noite caindo junto de uma chuva fina, o capim sem vacas dos canteiros maltratados, neo-paulistanos se amontoando em quasi-favelas por debaixo dos viadutos ou de qualquer coisa que se pareça com um teto, a arrogância dos nativos grudada aos vidros pretos dos automóveis, o lixo atirado à rua a entupir bueiros e a garantir enchentes que castigarão os arrogantes que atiraram o lixo à rua, trechos enormes de grandes avenidas sem uma vela que as alumiasse, tudo isso faz da “cidade” uma coisa que não merece esse nome. Isto é um câncer, uma tragédia anunciada e irreversível, uma bomba-relógio sem ponteiros.
Mas é bom, como paulistano, sentir que isto não é Brasil. Isto é apenas São Paulo. O Brasil é um lugar igualmente abandonado há quinhentos anos, repleto de boa gente, de ladrões, canalhas e vagabundos de todas as espécies, mas um lugar em que a Natureza, de um jeito ou de outro, consegue – ou conseguirá – uma solução. Sobre São Paulo, conforta-me pensar que, de um jeito ou de outro, sempre teremos a bomba atômica.
Ou então, não é nada disso, e tudo terá sido apenas a decepção dos olhos de turista.

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