Branco Leone, caso o distinto leitor ainda não o tenha percebido, é pseudônimo. À beira da pia e sem ser consultado, pasme, recebi o nome de Albano. Com isto, sem saber ou querer, dava seqüência à dinastia iniciada por meu pai e xará. Ser Albano em casa não era, portanto, nenhuma novidade, e igualmente na família como um todo, pois havia Albanos aqui e ali, um tio ou outro, vários amigos. Certa vez, à mesa de um restaurante na cidade do Porto, em Portugal, éramos dez pessoas à mesa: cinco homens — parte do grupo em que me incluo, apesar dos poucos anos que carregava à época — e cinco mulheres. Reparei eu — e só o fiz por ser dessas coisas que, de tão simples, só as crianças são capazes de o reparar —, que os cinco homens eram todos Albano. As mulheres, por sua vez, talvez fossem todas Marias, mas isso já não posso garantir.
  Este caráter corriqueiro do meu nome começaria a se dissipar pouco tempo depois, quando eu entrasse na escola. Do primeiro ao último ano, quando ouvisse alguém chamar por ele, já tinha certeza de que era eu o pretendido, pois nunca, em tempo algum, houve outro Albano ou assemelhado nas classes que freqüentei.
  Pela vida, meu nome tem provocado vários acontecimentos. Já riram dele (“Ah, fala sério, como é o seu nome?”), os menos educados chegaram a demonstrar franca estranheza (“Albano? Que horror!”), e percebo que, desde o primeiro contato com um desconhecido, o simples mencionar da palavra provoca o súbito e incontrolável aparecimento de vários e estapafúrdios apelidos: Alípio, Asclepíades, Aricanduva ou qualquer coisa que comece com a letra a; Rabano, Baiano e outros trissílabos terminados em “ano”; e finalmente, perdido o controle e esgotadas as opções, os mais alucinados enveredam pela mistura das parvoíces, e já cheguei a ouvir Rabílio, adaptação que, nem de longe, se parece com o original. Às vezes, tenho a impressão de que meu nome é um defeito que precisa ser corrigido, e que todos, principalmente os mais amigos, se esforçam por tentar. Sempre agradeço e dispenso o esforço, mas isso de nada adianta: se fui batizado à minha revelia, sei hoje que passarei a vida a ser rebatizado da mesma maneira. Muito divertido.
  Certa vez, numa cidade do interior, fui levado a um restaurante onde trabalhava um garçom que, segundo diziam meus amigos, cria piamente — e enchia o saco de todo mundo por isso — ser o único Albano sobre a face da Terra. Contrariar semelhante estúpido era, portanto, o mote do passeio. Quando o sujeito foi informado de que ali, à mesa, estava outro abençoado, quase caiu do guardanapo que trazia ao braço. Descrente — e, mais que isso, ameaçado de perder a unicidade —, chegou a me fazer mostrar documentos. Tão alienado que estava por seu infundado credo, o cara tinha deixado de perceber — para citar o primeiro que me vem à cabeça — a existência do senador sergipano Albano Franco. Decepcionou-se, e foi bem feito, ele merecia mesmo ver logo dois outros Albanos, eu e meu pai, juntos na mesma carteira de identidade. De outra vez, uma menina chamada Tirsa Egla — que, na ocasião, confessou ser irmã de um John Kennedy —, como não lhe bastassem os exemplos vindos do espelho e do quarto ao lado, disse que achava meu nome “esquisito”.
  Até para me municiar de informação para o debate, ando por aí a colecionar os Albanos que encontro e que têm alguma importância: ao já citado senador, juntei também três personagens de novelas da Globo, o antigo dono da famosa choperia Pingüim em Ribeirão Preto, e o grande poeta português Albano Martins que, coincidentemente, compartilha comigo nome e sobrenome, o que faz com que eu sempre abra desconfiado os e-mails que chegam assuntados “ao poeta” pois, em cem por cento dos casos até hoje, o destinatário não era eu.
  Mas o que mais me incomoda — e talvez seja a única coisa que realmente me incomode nesse assunto — é que agora, por força do uso-e-desuso lingüístico, virei “álbano”, e escrevo a palavra com letra minúscula por achar que isso mais pareça com o nome de um legume, pois não estranharia se encontrasse um filé na chapa com álbanos refogados no cardápio de um restaurante. Mas a proparoxitonização do que é naturalmente paroxítono tem lá suas vantagens: se atendo o telefone e ouço um estúpido a zurrar “senhor álbano”, já sei que é um atendente de telemarketing querendo me empurrar alguma porcaria inútil.
Quando Graciliano Ramos morava numa pensão no Rio de Janeiro, a dona do estabelecimento chamava-o de “Seu Brasiliano”. Dizem que, em certo dia, Rubem Braga, que também morava no lugar, comentou o fato com ele.
  — Pelo aluguel que lhe pago, ela pode me chamar como quiser. — respondeu-lhe Graciliano.
  E é por isso que, neste e em outros assuntos, tento seguir os passos dos mestres. Só falta encontrar quem me pague.

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