Há alguns anos, numa dessas minhas noites mal dormidas, acordei com a televisão tocando — alto, muito alto! — uma bela música. Um tango. Ou quase isso. Na tela, obedecendo ao ritmo da música, pés. Uns pés em desenho animado, magnéticos como costumam ser pés que dancem tango. Impossível de lhe tirar os olhos.
(Para ver só a parte a que me refiro, clique na barra logo acima do ^, mais ou menos pelos 4′30″ do vídeo)
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O filme acabou pouco depois. Nos créditos, apareceu um nome: Waking Life. Naquela hora, pouco me importava a imagem. Talvez por ter sido acordado pela música, era por ela que tive meu interesse despertado. Liguei o computador, entrei no Kazaa (sim, nos idos de 2002, era assim que se garimpava música na rede, gafanhoto), digitei o nome do filme e — susto! — encontrei a trilha sonora inteira de imediato. Baixei tudo, gravei um cd, dormi e, a partir do dia seguinte e durante uns três meses, ouvi-o ininterruptamente.
Depois, por várias vezes, ainda consegui tropeçar num ou noutro pedaço do filme na tv, mas nunca pude assisti-lo inteiro. Nunca o peguei do começo e, estranhamente, nunca tinha alcançado o final, apesar de quase ter decorado algumas partes. Nesse meio tempo, acabei lhe conferindo uma estranha, inusitada importância, porque o filme, numa análise rápida, não seria do tipo que me atrai, a não ser pela música. Ou teria sido — quem sabe? — pela situação em que o conheci?
Outro dia, ao entrar na locadora, esbarrei num cartaz, roxo e pequenino que, timidamente, dizia: Waking Life. Naquele momento, a única cópia de que a locadora dispunha estava alugada, mas minha decepção foi tão visível que, horas depois, a dona da loja me telefonou dizendo o dvd tinha voltado e estava reservado para mim. Corri lá, peguei-o e, logo que pude, pus-me a assisti-lo por completo. Não consegui. Alguma coisa me interrompeu e, mais uma vez, não cheguei ao final. Mas vi o começo. (Está um pouco escuro, mas vale abrir o brilho de seu monitor por um momento.)
Semana passada, fui à casa de uma amiga, visita rápida, pegar uma encomenda. Mas com ela, a visita nunca consegue ser rápida. Almoçamos, conversamos, tomamos café, conversamos. Nisso, ela me contou que, quando começava sua carreira de roteirista, havia escrito uma mini-série (recusada pela emissora por ter qualidade demais, onde já se viu produzir alguma coisa boa para tv?) cujos elementos básicos haviam lhe ocorrido de maneira estranha, num sonho onde aparecia sua filha recém-falecida, ainda menina, indiazinha sentada numa roda no meio da aldeia, brincando. Ao acordar, minha amiga começou a escrever a mini-série, e criou — será? — uma situação bastante improvável: em meados do século retrasado, uma tribo de índios, fugindo do invasor branco, sobe a escarpa que limita a Amazônia ao norte, e se reinstala à beira das Guianas; com isso, no lugar deixado vago, funda-se uma cidadezinha, (não me lembro o nome dela, mas seria algo estranho como) Santa Rosa da Rosa Santa, sei lá.
Como disse, a mini-série não foi aceita por motivos de política interna da emissora e, anos depois, minha amiga descobriu que, estranhamente, não havia “criado” nada: a tribo existia, a história da tribo era a mesma, a cidade existia e, pior, tinha o mesmo e improvável nome! Fingindo espanto (fingindo, sim, porque não me espanto mais com essas coisas), falei-lhe do Waking Life. “Sonho é destino”, diz a menina que brinca com o amiguinho. E o amiguinho voa, porque está sonhando.
Mas ontem, pensando nisso e aproveitando uma horinha que me sobrou, botei o filme de novo, decidido a assistir ao final. E, como última cena do filme, encontro isto:
É coisa demais para ser desperdiçada em conclusão nenhuma. Só não sei o que concluir. Ainda estou um pouco abalado. Ainda mais quando vivo sonhando.




12 comments
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Julho 6, 2008 às 12:49 pm
Tiago Fidelis Moralles
CA(FA)-BU-LO-SO.
Julho 6, 2008 às 4:33 pm
rnt
li o post, assisti os dois vídeos e gostei tanto que não tive coragem de assistir o final: comecei e parei.
Julho 6, 2008 às 4:35 pm
rnt
encontrei o torrent e a legenda, vou tentar baixar…
http://www.mininova.org/com/572665
http://legendas.tv/index.php?opcao=buscarlegenda&filme=699
Julho 6, 2008 às 6:44 pm
Allan
Impressionante como a vida é feita de coincidências e desencontros. Por algumas vezes assisti um pedaço de “O velho e o mar” todo feito em aquarelas. Li o livro, assisti o filme original algumas vezes mas sempre precisei sair antes dos créditos dessa versão pintada. Nem tive coragem de procurar na net.
Julho 6, 2008 às 8:16 pm
Fábio Shiraga
Eu vi o Waking Life duas vezes. A primeira vez eu tive que pausar o filme por alguns momentos para respirar, de tão intenso que era a parada, eu acho que não conseguia fazer nem algo natural como… respirar.
Agora isso de não conseguir ver o filme completo eu tive problemas com O Homem Duplo. Já tentei assistir três vezes e nenhuma delas rolou ver o filme inteiro. E é do mesmo diretor, o Linklater. Agora que tô meio de folga, vou tentar assistir o que não vi e rever o Waking Life.
Julho 7, 2008 às 12:37 am
Dora
Bom, eu sou caipira e nunca falo nada nessas coisas públicas tipo blog. Caipira é gente desconfiada.
Mas, enfim, coragem, vamos lá. Fiquei comovida com tudo, com saudade de coisas que nem sei. Assisti o começo, mas não assisti o fim. Eu, hein? Tá doido, assistir fim de filme?!
Vou é correr em alguma locadora.
Beijos,
Dora, a dos índios
Julho 8, 2008 às 12:42 pm
maray
olha, mal consigo entender a língua que a gente fala. Metalinguagem então, é russo! Agora o tango é de chorar de tão lindo. E eu tenho pq um grande – e confuso- amigo me deu!!
um enorme beijo. Bem real. Quer dizer, bem virtual, mas realmente com a intenção de ser bom e grande. Puxa, eu me enrosco toda :)
Julho 8, 2008 às 11:08 pm
Harata
e não é que fez sucesso o tango por aqui?? Pois bem. Aprovado!! E obrigada pela dica.
Julho 10, 2008 às 10:20 am
Urban
* ………………….. *
sem palavras aqui … impressionante!
coisas sem explicação me fascinam…
Julho 10, 2008 às 10:20 am
Sarah K
oops,
fui eu aí em cima, rssss
:P
Julho 10, 2008 às 5:38 pm
Daniel Lopes
Vou te falar, bicho. Se puder, leituras afins, leia o conto Pierre Menard, o escritor do Quixote, do Borges. Resumidamente o conto narra a história de um escritor que passou a vida inteira tentando reescrever o Dom Quixote. Veja bem , ele não estava copiando, nem nada, ele estava tentando tocar o mistério do livro com as mesmas palavras quatro séculos depois. Sua maior obra enquanto escritor foi conseguir escrever iguais dois capítulos inteiros do D. Quixote. Mas vc percebe o quanto isto é inútil e Quixotesco? E ao mesmo tempo é literatura de verdade, pq o cara não queria fama, visto que o livro já estava escrito. e o cara não estava nem se preocupando em ser publicado, porque o livro já existia, quer dizer ele só se preocupava com literatura com L maiúsculo sem as firulas de pseudo-escritores como eu por exemplo. Agora vc me pergunta o que isto tem a ver com o filme? Tudo ué, mas não vou me explicar muito, o negócio é como montar um quebra-cabeças de cem mil palavras encaixadas no lugar certo, sem mudar sequer uma vírgula, só mesmo numa dessas dobras do tempo.
Tem mais, vc já viu um dragão? Não né, nem eu, então como é que em tudo quanto é cultura, desde a chinesa, passando pelos aborígenes e pelos índios da américa pré-colombiana até os dias de hoje, em algum momento, algum indivíduo de todas essas culturas desenhou dragões.
Vai entender, né cara!
Eu fico esperando um sonho desse pra me inspirar, pq escrever algo que preste de verdade acordado tá dificil hein índio velho apaixonado.
Té breve. Vou ver se descolo o filme. fui.
Julho 11, 2008 às 10:35 am
isa
eu tb não me espanto mais c/ essas coisas, mas que dá arrepio na espinha, isso dá!
como é que ela não tentou vender a série para tudo qt é produtora é que não entendo…
Bjs, pá! ;-)