Mendigo, andava sempre aos berros pela rua — vem aqui, filho da puta, sai de cima do jacaré! —, apontando o dedo para ninguém, encarando olhos invisíveis com um ódio líquido, quase palpável. Algumas crianças tinham medo dele, outras jogavam-lhe coisas, os adultos olhavam para cima e davam de ombros. Não passava três dias sem que tomasse uma dura do guarda e, vez por outra, quando era encontrado mais bêbado que o permitido, ia ver o delegado. Chegou a ser ameaçado de expulsão da cidade.
Um dia, virando o lixo, encontrou a carcaça de um celular, escangalhado, sem bateria nem nada. Mudou de vida: passou a berrar ao telefone — pirata é o caralho, cadê minha bicicleta?
Hoje ninguém mais lhe presta atenção.



14 comments
Comments feed for this article
Abril 16, 2008 às 11:42 am
João Barreto
hummmmmmmmm!
valeu um share :)
Abril 16, 2008 às 12:05 pm
Celso
Seria efeito da inclusão digital?
Abril 16, 2008 às 1:46 pm
Camilo
Eitcha!
Eu pensei que agora é que dariam atenção ao que ele berrava.
Afinal, experimenta falar ao celular dentro de um ônibus cheio, por exemplo.
Abril 16, 2008 às 4:42 pm
Pablo Pamplona
hahahahaha, ótimo!
Abril 16, 2008 às 4:57 pm
eu mesma, rnt
“pirata é o caralho, cadê minha bicicleta”
akdsjhga
Abril 16, 2008 às 5:42 pm
Badá
Poxa, ele subiu na vida e não teve nem um reconhecimento?
Eu também “tinha” um mendigo desses, aliás dois: um homem e uma mulher. Ambos falavam mais que pastor pregador de praça pública. E recebiam tanta atenção quanto um.
Abril 17, 2008 às 7:41 am
Mário Marinato
Ótima, Branco! Bravo, meu véio.
Abril 17, 2008 às 8:34 am
oanodalargartixa
Velhos clandestinos já têm valor!
Abril 17, 2008 às 8:35 am
oanodalargartixa
Katzo, errei, porra.
É “velhos clandestinos já NÃO têm valor!
Abril 17, 2008 às 8:05 pm
Patricia Carvoeiro
Minha rua é cheia destas figuras inusitadas e outsiders por vocação. Material não falta aqui pra quem gosta de prestar atenção ao ser humano. Cada morador da minha rua acho que tem um mendigo pra chamar de seu.
O meu é o Zézé; ele dorme no colchão que até uns oito meses atrás abrigou estes meus sessenta e (enfim, não vem ao caso) tantos quilos durante mais de cinco anos (bom, dois anos atrás eu não pesava nem sessenta, então o colchão não ficou tão detonado assim; aliás, Zézé diz adorar o dito cujo).
Ele fala muito sozinho, e gostei da idéia de vê-lo pra lá e pra cá com um celular… como eu perco um aparelho a cada ano, em média, já sei quem, daqui a uns dois meses, terá um brinquedo novo! :D
Abril 17, 2008 às 9:31 pm
adelaide
meu mendigo de estimação era um velho polonês, neurótico de guerra, daquele tipo limítrofe que a gente não sabe se já passou pro outro lado de vez. tinha os cabelos muito brancos, amarelados pela falta de trato, e os olhos azuis. andava o dia inteiro falando sozinho pelo bairro naquela língua arrevezada, apoiado num galho de árvore quase da altura dele, e dormia numa chácara ao lado de minha casa, no antigo canil que era bem coberto. um dia sumiu e nunca se soube como nem pra onde.
Abril 18, 2008 às 9:52 am
P.
Ahhh..
não é a toa que a civilização já se divide em AC e DC - antes do celular, depois do celular.
Ô troço pra mutabilizar…
Espaço bacana. Vou linkar.
beijomeu.
Abril 19, 2008 às 11:50 am
valter ferraz
Vai ver era mecânico de refrigeração. Virou blogueiro. Depois que publicou um livro, ex-blogueiro.
Abril 21, 2008 às 6:56 pm
PreDatado
Ele ainda vai parar no Costumer Care lá da rua dele!