Atrás de mim, na fila, o homem resmunga baixinho:
— Caralho, puta merda…
Disfarçando enquanto coço um olho, viro-me para o sujeito, a ver do que se trata. Ele mira irritado seu celular enquanto aperta-lhe as teclas com força, como se isso fosse empurrar sua ligação mais para dentro dos circuitos e, talvez, fazê-la completar-se. Não sabe ele que, por algum motivo, os telefones não funcionam direito dentro da agência do correio aqui do bairro. Ou é o concreto das paredes, ou a baixada onde fica a loja, qualquer coisa ali faz com que o sinal caia pela metade quando está bom, e a zero quando está ruim. Dois passos fora da loja, o mundo é seu pelas despenadas asas de sua operadora; dois passos dentro, e você está emparedado vivo.
— Mas que porra de um caralho… — continua o homem, cada vez menos baixinho. E eu quieto. Eu sou assim, quietão.
— Pra puta que o pariu, que celular de merda… — segue ele, tateando em busca das palavras mágicas que o libertarão da danação do silêncio eterno.
A fila anda e, dois passos à frente — e ao acaso — a ligação se completa:
— Mãe? — grita animado — A bença, mãe! — grita mais ainda, deixando a nós (eu e a fila) perplexos com tamanho respeito e religiosidade.
— Tô aqui perto, mãe! Tem almoço pra mim?
Pronto, está tudo explicado: era fome, coitadinho. Boca suja do caralho.


8 comments
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Março 7, 2008 às 4:17 am
alex castro
quando manda bem, vc manda bem. :)
Março 7, 2008 às 1:03 pm
Marília
kkkkkkkk…
muito boa!
Março 8, 2008 às 12:13 am
adelaide
: )) quase poético, Branco.
Março 8, 2008 às 4:28 pm
Carol Costa
Putaqueopariu que texto bom, sô!
Março 11, 2008 às 1:56 am
Fana
kkkkkkk…
mas é vero, existem pessoas que – quando famintas – ficam raivosas! :D
Março 12, 2008 às 8:16 pm
Beth Q.
Isso me deu uma baita fome! Afinal voltei pro Vigilantes do Peso e tem horas que dá vontade de falar palavrões mesmo.
Março 17, 2008 às 11:00 pm
gugala
ahahaha
Abril 8, 2008 às 1:11 pm
crissmyass
Se fosse no Rio, apostaria que era o meu irmão.