Vai passar nessa avenida um samba popular. Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar ao lembrar que aqui passaram sambas imortais, que aqui sangraram pelos nossos pés, que aqui sambaram nossos ancestrais.
Num tempo, página infeliz da nossa história — passagem desbotada na memória das nossas novas gerações — dormia a nossa pátria mãe — tão distraída — sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações. Seus filhos erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes, erguendo estranhas catedrais. E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chamava Carnaval, o Carnaval, o Carnaval. Palmas pra ala dos barões famintos, o bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do boulevard. Meu Deus, vem olhar! Vem ver de perto uma cidade a cantar, a evolução da liberdade, até o dia clarear!
Ai que vida boa, o-le-rê, ai, que vida boa, o-la-rá, o estandarte do Sanatório Geral vai passar!
Acho o Carnaval um saco! Mas esse samba é foda. E chega! Não falo mais de Carnaval! Aliás, não tenho falado mais de muita coisa. Mas eu volto. Depois do Carnaval.




2 comments
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Fevereiro 4, 2008 às 5:46 am
Lilian
Esse samba é demais de contagioso, também não gosto de carnaval, não desse carnaval onde se vê muita pele e pouca fantasia, gosto dos bailes de máscara e do glamour dos bailes antigos e suas marchinhas…Tsc, acho que eu nasci na época errada…
Beijo.
Fevereiro 4, 2008 às 12:51 pm
fernando cals
Oi, Branco,
na verdade, muito mais que um samba, uma simples música, esse é um libelo exaltado e preciso, do Chico Buarque.
Maravilha total.
Também não sou chegado ao Carnaval. Pra mim, já era, faz tempo!
abs
fernando cals