Cato minhas coisas, despeço-me do balconista, vou ao caixa e entrego à moça o papelzinho com a conta, pensando se não seria muito chato lhe dar uma nota de 50 para pagar semelhante mixaria.
— Quatro e oitenta. — ela informa sorrindo, mas o valor é ainda menor que a mixaria que eu imaginava.
Faço contas rapidamente (dois salgados por dois e oitenta cada, mais uma coca-cola…) e retruco:
— Está errado.
Ela se assusta. Errado? Mostra-me o papel — que eu não tinha sequer olhado quando esteve na minha mão — e lá só está marcado o preço de um salgado e da coca-cola.
— Falta um salgado. — digo, enquanto repasso a cena e percebo que não foi culpa de ninguém: eu havia pedido uma coisa a cada balconista, e o que fez a conta só sabia de parte do pedido. O ambiente para o engano estava pronto, bastava apenas que eu não olhasse a comanda. E era exatamente o que (não) tinha feito.
Ela parece abalada. Enquanto refaz a conta, põe os olhos sérios em mim e murmura:
— Obrigada… — e é tanta a seriedade com que diz a palavra que eu chego a ficar sem-graça. Obrigada? Por quê?
A conta dá, enfim, sete e dez. Pago com a nota de 50, recebo 43 reais de troco: ela desprezava seus dez centavos, talvez como forma delicada de retribuir minha “gentileza” do jeito que podia. Mais uma vez, volta os olhos tristes para mim e repete:
— Obrigada.
Eu vou embora pensando naqueles olhos sérios, no tom de voz grave que eu só esperaria ouvir se tivesse acabado de salvar seu emprego, a vida do seu filho, coisa assim. Obrigada? Que honestidade há em pagar o que se deve? Se gosto que essa regra valha quando sou eu a receber, por que não a faria valer também na via inversa?
Entro no carro e ligo o rádio. Notícias de Brasília. Operação Navalha. Deputados cobrindo uns a bunda suja de outros, habitantes de uma inatingível estratosfera de poder que estranham, reclamam, estrebucham quando alguém lhes ameaça as alturas que lhe foram cedidas, talvez, por direito divino. E me lembro dos olhos da balcanonista, do tom grave de sua voz, e entendo tudo. Não tem de quê, moça. Sou eu que lhe agradeço.




13 comments
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Maio 23, 2007 às 7:41 pm
ana cartola
FODA!
O texto, a situação, a Operação Navalha…
Saudade.
Maio 23, 2007 às 7:46 pm
Fernando Cals
Pois é, Branco,
uma coisa dessas, tão simples de fazer, ser honesto, mesmo que a coisa seja pequena (pra mim, mais ainda!) está se tornando quase fora de moda. Quase pra se desconfiar!
Breve, poderemos ser criticados por atitudes como essa.
Basta esperar!
abs
fernando cals
Maio 23, 2007 às 7:55 pm
Badá
Ai, nesse país qualquer ato de honestidade (ou de simplicidade) é um espanto. Os de gentileza, mais ainda.
Os porteiros do meu condomínio sorriem feito crianças quando lhes damos bom-dia.
Não, Branco, nós é que lhe agradecemos.
Maio 24, 2007 às 2:31 am
Daniel Brazil
Estamos virando personagens de Lima Barreto…
Maio 24, 2007 às 12:02 pm
Camilo
Isso também acontece comigo. E eu também acho estranho que se espantem. No mais, tudo já foi dito no post e pelos comentaristas acima.
Abraço!
Maio 24, 2007 às 12:13 pm
Aline
É estranho, é triste, é espantoso e é nojento. No mais, tudo já foi dito no post e pelos comentaristas acima [2].
Beijoca.
Maio 24, 2007 às 9:24 pm
Fabio
No Brasil, a honestidade constrange!
Maio 25, 2007 às 7:24 pm
Viviane
Cheguei ao seu blog por um link do Camilo. Adorei a história.
Maio 30, 2007 às 3:30 am
gugala
o último dos moicanos
Maio 31, 2007 às 8:16 pm
Sweet
:-)
Junho 6, 2007 às 12:43 am
Beth Q.
Isso aí, caro Branco!
Noutro dia aconteceu uma situação semelhante com meu marido. A moça do caixa deu um troco de 50 reais, quando deveria ser 20 apenas. Meu marido fez o mesmo que você e não só ela agradeceu profundamente, quanto a moça do setor de conferência e entrega do balcão, pois achou algo extraordinário demais para os dias de hoje.
Ele sentiu-se até constrangido e viu como para aquela moça menos 30 reais seria fatal no desconto que iria ter no final do dia em seu salário.
Enquanto isso, a corja, o bando de Brasília continua lá depois de escândalos como esse cada vez mais fortalecidos. Vergonha!
Julho 2, 2007 às 12:59 am
Muneo
Primor de texto! Suave, simples e reflexivo! Parabéns!
Julho 26, 2007 às 12:59 am
FIAPO DE JACA » TELEVISÃO DE CACHORRO
[...] “Padaria Brasil“, texto escrito pelo Branco [...]